“Portugal chegou a pescar menos de 10 mil toneladas”: setor da sardinha critica quotas conservadoras
A safra da sardinha arrancou oficialmente na segunda-feira, 4 de maio, com sinais de recuperação do recurso, mas também com críticas às quotas de captura, consideradas desajustadas face à abundância atual no mar.
Em declarações à jornalista Estela Machado, na rubrica Objetiva do programa Juca, Jorge Abrantes, da Associação Nacional das Organizações de Produtores da Pesca do Cerco (ANOP), recordou os anos mais críticos do setor, entre 2017 e 2019, quando a atividade esteve perto do colapso. “Portugal apanhou menos de 10 mil toneladas” e viveu “os momentos mais duros que a pesca de cerco passou”, afirmou, sublinhando o impacto das restrições impostas para garantir a sobrevivência da espécie.
Esse esforço permitiu, segundo o responsável, a recuperação do stock a partir de 2021, hoje reconhecida pelas entidades científicas. A biomassa da sardinha nas águas ibéricas aproxima-se atualmente das 500 mil toneladas, muito acima do limiar de segurança fixado em cerca de 160 mil.
Ainda assim, as quotas continuam limitadas por um modelo de avaliação que o setor considera excessivamente conservador. “É uma quantidade que não corresponde à real dimensão do stock”, afirmou, apontando para critérios “de tal forma robustos e precaucionários” que acabam por restringir a atividade
Jorge Abrantes vai mais longe e admite preocupação com a “inflexibilidade” das avaliações científicas, lembrando que há estudos que indicam que capturas entre 60 e 100 mil toneladas não colocariam em causa a sustentabilidade da espécie. A expectativa é que uma nova avaliação, prevista para breve, permita rever esses limites ainda durante este ano.
Aumento dos custos
No terreno, o arranque da safra mostrou um cenário desigual. Em Matosinhos, houve capturas na ordem das 50 a 60 toneladas, consideradas normais para os limites atuais, enquanto noutros portos não se registou atividade relevante. “Só ao fim de uma semana ou 15 dias é que poderemos tirar conclusões mais assertivas”, sublinhou
Um dos sinais mais marcantes foi o preço em lota, com a sardinha a atingir valores próximos dos dois euros por quilo – acima do registado no primeiro dia da campanha anterior – num contexto de forte procura, incluindo por parte de compradores espanhóis.
Apesar destes indicadores, o setor continua sob pressão. O aumento dos custos operacionais, sobretudo dos combustíveis, não tem sido acompanhado por uma valorização equivalente do pescado. “Nem perto nem de longe traduz o brutal aumento do preço dos combustíveis”, alertou
Neste cenário, Jorge Abrantes admite que algumas embarcações poderão ser forçadas a parar atividade, à semelhança do que já acontece nos Açores, situação que poderá também estender-se ao continente.
Entre a recuperação do recurso e as dificuldades económicas persistentes, a nova campanha arranca com um paradoxo difícil de ignorar: há mais sardinha no mar, mas isso não garante, por si só, a sustentabilidade de quem vive da pesca.