Agricultores do Médio Tejo voltam a ficar sem água para rega: “É atravessar o Tejo quase sem molhar as canelas”
Um mês depois de a falta de água no Tejo ter sido notícia, a situação voltou a agravar-se no Médio Tejo e está novamente a deixar agricultores sem capacidade de regar as culturas. Na região entre Abrantes e Constância, há explorações agrícolas que estão há quase três dias sem acesso à água do rio, numa altura particularmente sensível para culturas como o milho e com uma nova vaga de calor à porta.
As imagens registadas esta terça-feira mostram o caudal muito reduzido no Tejo. O cenário preocupa agricultores da região, que dizem estar perante um problema cada vez mais frequente, sem resposta imediata e sem soluções estruturais à vista.
José Maria Falcão, gestor de uma exploração agrícola familiar, afirma que este ano o problema surgiu mais cedo do que o habitual e descreve uma realidade que considera “crónica” há pelo menos duas décadas.
“Chega a partir de uma certa altura, este ano mais precocemente, de não termos água no Tejo. Quando eu digo não termos água no Tejo, é atravessar o Tejo quase sem molhar as canelas”, explicou.
O agricultor lembra que há apenas dois meses o rio tinha caudais elevados e chegou a provocar estragos, mas diz que agora a imagem é completamente diferente: “Neste momento parece uma pequena ribeira alentejana no mês de agosto, sem água, com alguns pegos e sem capacidade para os agricultores poderem utilizá-la”.
Na exploração agrícola que gere, os impactos já se fazem sentir em várias culturas. Além do milho, há também feijão, girassol e culturas permanentes afetadas pela ausência de rega.
“Tenho milho que está na fase de emergência e algum que já nasceu, que com temperaturas muito altas, principalmente em solos de aluvião, necessita de manter as terras frescas. Tenho também feijão, tenho girassol e tenho culturas permanentes que há três dias não regam”, disse o agricultor.
José Maria Falcão sublinha que o problema não é pontual: “Se fossem três dias isoladamente, mas isto já se repetiu há 15 dias, já se repetiu há um mês e vai-se continuar a repetir”.
Na origem da situação, o agricultor aponta responsabilidades tanto a Espanha como ao Estado português. Do lado espanhol, considera natural que a água seja retida, tendo em conta a ausência de estruturas de armazenamento em território nacional.
“Se eu fosse espanhol também não deixava passar a água. É incompreensível que um país que recebe a água de um rio internacional não tenha sequer uma única capacidade de armazenamento, nem no leito principal nem nos afluentes, que permita fazer a regularização”, disse José Maria Falcão.
Segundo o produtor agrícola, toda a água libertada por Espanha “vai direta ao mar sem qualquer intervenção”, o que considera um desperdício. Defende, por isso, a criação de sistemas de retenção e armazenamento que permitam gerir melhor os caudais e garantir disponibilidade de água para a agricultura.
Gestão hídrica “unicamente virada para a energia”
As críticas estendem-se também à forma como Portugal gere as barragens e os recursos hídricos. José Maria Falcão acusa o país de olhar quase exclusivamente para a produção energética e esquecer as necessidades agrícolas.
“Enquanto neste país a gestão dos rios e a gestão das barragens for uma gestão unicamente virada para a energia e não olhar para a componente agrícola”, o problema vai manter-se, alertou.
O agricultor refere especificamente a barragem do Fratel, que considera essencial para regularizar os caudais naquela zona do Tejo. No entanto, diz que a infraestrutura deixa de turbinar sempre que a produção de energia solar e eólica é suficiente: “O Fratel neste momento não está a turbinar, há três dias não turbina e o Tejo está seco. Só é preciso energia hídrica quando as outras não estão”.
José Maria Falcão lamenta ainda que, nos últimos 50 anos, praticamente não tenham sido feitas obras estruturais no domínio hídrico, com exceção do Alqueva: “A única coisa que se fez foi vender a investidores diferentes as nossas barragens nacionais”.
Na margem norte do Tejo, antes de Constância, diz não existirem alternativas subterrâneas para compensar a falta de água do rio. “Eu estou 100% dependente do caudal do rio”, explicou o agricultor.
Essa dependência torna-se ainda mais difícil numa agricultura cada vez mais mecanizada e tecnicamente exigente: “Eu não consigo saber quando é que tenho água e quando não tenho água. Tenho que regar quando ela aparece.”
Com temperaturas máximas previstas até aos 39 graus e noites tropicais acima dos 20 graus, o receio é que a situação se agrave nos próximos dias. Para o agricultor, o maior problema nem são os picos de calor, mas sim a combinação entre temperaturas mínimas elevadas e baixa humidade.
“As plantas necessitam de muito mais capacidade de absorver água para corrigir este misto climático”, explicou.
José Maria Falcão admite mesmo recear perder culturas, como já aconteceu anteriormente: “Tenho medo, porque já tive culturas perdidas há uns anos atrás”. Nesta fase, acrescenta, as plantações ainda não têm cobertura suficiente para reduzir a evaporação do solo, o que aumenta ainda mais as necessidades de água.
Apesar de dizer que tem mantido contactos com a Agência Portuguesa do Ambiente, considera que continua demasiado dependente “da boa vontade de uns e de outros”.
O agricultor teme que o abandono progressivo do setor provoque um efeito em cadeia nas regiões do interior: “Os mais novos vão-se embora, as indústrias desaparecem e isto depois é a bola de neve que vai correndo”.