Fonoteca do Porto convida a cidade a sentar-se para ouvir música com tempo: “As pessoas sentem-se numa espécie de imersão”

Instalada em Campanhã, a Fonoteca Municipal do Porto transformou milhares de discos de vinil num espaço de escuta, encontro e resistência ao consumo rápido da música digital.
Sofia Dias Olmedo
Sofia Dias Olmedo Jornalista
17 mai. 2026, 08:00

Com prateleiras recheadas de mais de 35 mil discos de vinil, a Fonoteca Municipal do Porto tornou-se, em apenas cinco anos, muito mais do que um arquivo sonoro. Instalada no Complexo da Arda, em Campanhã, o espaço afirma-se hoje como um lugar de escuta, encontro e preservação cultural, num momento em que se tenta contrariar o consumo rápido e digital da música. 

Aberta ao público em setembro de 2020, a Fonoteca nasceu a partir de duas grandes doações feitas ao Município do Porto: os espólios da Rádio Renascença e da RDP. “Os discos são para ser ouvidos”, recorda Nuno Rodrigues, coordenador do projeto, evocando uma ideia defendida pelo antigo presidente da Câmara, Rui Moreira, que esteve na origem da criação da Fonoteca.

Mais do que guardar discos, a Fonoteca procura dar-lhes uma nova vida. “Sem um equipamento dedicado à sua interpretação e disponibilização ao público, os discos correm o risco de não serem ouvidos e de ficarem encaixotados”, explica Nuno Rodrigues. 

 

Um projeto cultural para Campanhã

A escolha de Campanhã para acolher a Fonoteca não foi fruto do acaso. O projeto surgiu, também, como resposta à necessidade de descentralizar a oferta cultural da cidade. “Havia uma vontade de dotar este território de equipamentos culturais e não centralizar nos outros espaços da cidade”, afirma o coordenador.

Embora a zona já acolhesse estruturas culturais independentes, como as Galerias Mira ou a companhia Visões Úteis, a presença municipal ganhou uma nova dimensão com a instalação da Fonoteca. Cinco anos depois, os responsáveis sentem que o quarteirão mudou. “Tem havido alguma efervescência aqui”, diz Nuno Rodrigues, apontando para o crescimento do número de visitantes. 

Uma das iniciativas da Fonoteca é a “Escuta Ativa”, uma sessão mensal onde convidados de diferentes áreas escolhem um disco e o escutam em conjunto com o público. “Temos tentado criar essas pontes com a nossa vizinhança e com os nossos parceiros”, acrescenta.

 

O regresso do vinil e a vontade de “desdigitalizar”

Num contexto em que o vinil voltou a ganhar popularidade, a Fonoteca beneficia também da crescente curiosidade em torno do formato. Mas os responsáveis acreditam que o fenómeno vai além da nostalgia. “As pessoas têm uma certa vontade de desdigitalização da fruição musical”, defende Nuno Rodrigues. “Aqui oferecemos outra maneira de escutar, mais pausada, mais ponderada e em conjunto.”

Hermano Sousa, arquivista e programador da Fonoteca, vê o regresso do vinil como reflexo de uma relação emocional e estética com a música. “A maioria das pessoas compra discos não para ouvir, mas para os ter na estante e expostos, porque é algo extraordinariamente bonito”, observa.

Ainda assim, considera que o espaço oferece algo raro nos dias de hoje: tempo para ouvir. “Há um perfil de pessoas que vêm aqui efetivamente à procura de uma experiência nova e que está muito ligada à contradição daquilo que é o curso normal das coisas, que é essa relação com a imediatez.”

Entrar na Fonoteca implica tocar à campainha, atravessar os corredores da Arda e descobrir um espaço discreto, quase secreto. Para Hermano Sousa, essa experiência faz parte da identidade do lugar. “As pessoas sentem-se numa espécie de imersão”, diz. Mais do que um ambiente “familiar”, prefere defini-lo como um espaço de conforto e descoberta: “É um espaço onde as pessoas se podem perder e encontrar ao mesmo tempo.”

 

Um arquivo vivo que quer criar comunidade

O público da Fonoteca é variado. Há melómanos experientes, jovens curiosos, turistas estrangeiros habituados a espaços semelhantes em cidades como Berlim ou Londres, mas também casais que procuram um lugar tranquilo para um encontro. “É um público muito variado”, resume Nuno Rodrigues. “Há muitas pessoas rendidas a esse elemento de encontro e de escuta.”

Além das atividades presenciais, a Fonoteca mantém uma forte presença digital através do seu arquivo online, artigos, podcasts e conteúdos de investigação sobre música e cultura fonográfica. Entre os programas regulares destacam-se a “Hora de Ponta”, dedicada a sessões temáticas de escuta, e a já referida “Escuta Ativa”, que já recebeu nomes como Gisela João, Júlio Machado Vaz ou o historiador Joel Cleto.

Apesar do crescimento, os desafios continuam. “A Fonoteca ainda é um projeto que está aqui num canto da cidade”, admite Nuno Rodrigues. O objetivo passa agora por chegar a mais pessoas e reforçar as colaborações com outras instituições culturais. “Não só fazer as pessoas vir à Fonoteca, mas também fazer a Fonoteca sair das suas portas e ligar-se com o resto da cidade.”

Num tempo dominado por playlists instantâneas e consumo rápido, a Fonoteca Municipal do Porto propõe precisamente o contrário: parar, sentar e ouvir.