Portugal com “as piores filas” nos aeroportos europeus: problema “pode piorar” e medidas excecionais devem ser ponderadas

Os aeroportos portugueses têm apresentado longas filas e atrasos nas últimas semanas.

João Nogueira Jornalista
João Nogueira Jornalista Jornalista 8 Jul. 2026, 13:11
Portugal com “as piores filas” nos aeroportos europeus: problema “pode piorar” e medidas excecionais devem ser ponderadas

Os aeroportos portugueses têm apresentado longas filas e atrasos nas últimas semanas. O geógrafo João Martins refere que o problema pode agravar-se no verão, afetando operadores turísticos e a pópria imagem do país. 22 mai. 2026, 12:43 Geógrafo João Martins foi entrevistado no espaço Objetiva, do programa Juca

O caos vivido nos aeroportos portugueses nas últimas semanas está a expor fragilidades antigas do sistema de controlo de fronteiras, numa altura particularmente sensível para o turismo nacional. As longas filas em Lisboa, Faro e Porto, sobretudo para passageiros oriundos de países fora do Espaço Schengen, já levaram o Governo a reforçar meios policiais, enquanto operadores turísticos alertam para prejuízos e danos na imagem do país.

Na “Objetiva”, espaço de informação do programa “Juca”, o geógrafo João Martins, especialista em infraestruturas aeroportuárias, explicou que os problemas agora visíveis não surgiram de forma inesperada, muito pelo contrário. Segundo o especialista, os constrangimentos nos aeroportos repetem-se há vários anos em períodos de maior pressão turística, mas o novo sistema eletrónico de controlo de fronteiras acabou por agravar uma estrutura que já funcionava no limite.

“Algo que tenho que começar por dizer é que estes constrangimentos não são novos. Se formos ver no passado, praticamente todos os verões temos falado sobre isto, sobretudo no pico alto do turismo, em que há sempre constrangimentos”, afirmou o geógrafo.

João Martins sublinha que o novo modelo de controlo de fronteiras para países fora do Espaço Schengen veio aumentar os tempos de processamento, numa rede aeroportuária que já lidava com crescimento recorde de passageiros, falta de recursos humanos e infraestruturas insuficientes.

As imagens de centenas de passageiros retidos em filas nos aeroportos portugueses multiplicaram-se, nas últimas semanas, nas redes sociais. A pressão levou a PSP a anunciar um reforço de 360 polícias já durante o mês de julho, numa tentativa de acelerar o controlo documental e reduzir os tempos de espera.

Apesar disso, o especialista considera que o aumento de efetivos, por si só, não resolve o problema estrutural: “O reforço policial por si só não chega. Naturalmente é uma boa ajuda para gerir sobretudo estas questões das filas e vai ser importante. No entanto, muitos destes constrangimentos também resultam da falta de recursos humanos, da falta de balcões, das airgates e de outros meios necessários”.

João Martins recorda que outros países europeus já enfrentaram dificuldades semelhantes e tomaram medidas excecionais. O caso mais referido foi o da Grécia, que optou por suspender temporariamente alguns controlos para determinados passageiros, nomeadamente turistas britânicos, de forma a facilitar o fluxo de entrada nos aeroportos. “Portugal deveria ponderar uma solução temporária semelhante, enquanto não consegue estabilizar o sistema”, defendeu o geógrafo.

Algarve é o mais dependente e afetado

A pressão é particularmente evidente no Algarve, por exemplo, que é uma das regiões mais dependentes do turismo internacional e onde grande parte dos visitantes chega precisamente de países fora do Espaço Schengen, como o Reino Unido.

Segundo João Martins, os operadores turísticos algarvios são atualmente os mais afetados pelos atrasos nos aeroportos, sobretudo porque trabalham com horários muito apertados e operações em cadeia.

“Os operadores turísticos trabalham numa lógica de previsibilidade. Quando temos atrasos de duas a três horas, isso tem um grande impacto na operação, seja nos transferes, nas excursões ou até nos horários de check-in”, disse João Martins.

O especialista alerta para um verdadeiro “efeito de bola de neve”, já que os atrasos no desembarque acabam por afetar toda a cadeia turística, incluindo passageiros provenientes do próprio espaço Schengen.

Também as companhias aéreas estão a enfrentar dificuldades acrescidas. Há passageiros a perder voos de ligação, maior pressão nos balcões de atendimento e um aumento significativo de reclamações e pedidos de compensação.

Portugal tem “as piores filas” dos aeroportos com seis horas de filas de espera

Ainda que Portugal continue a ser um destino atrativo, o geógrafo admite que a circulação constante de vídeos nas redes sociais, mostrando filas intermináveis nos aeroportos portugueses, pode ter impacto na perceção internacional, sobretudo numa era dominada pelo imediatismo digital.

O tablóide “The Sun”, o jornal mais lido no Reino Unido, já publicou um artigo sobre o problema em que refere que “o popular país europeu é afetado pelas piores filas nos aeroportos, com ‘famílias obrigadas a esperar seis horas'”.

Os relatos nas redes sociais de horas em filas de espera e voos de regresso perdidos, ilustrados com fotografias e vídeos, foram repetidos na imprensa britânica desde o início do ano.

O especialista recordou ainda as críticas feitas recentemente pela Ryanair às autoridades portuguesas, acusando-as de falta de preparação para responder ao aumento da procura turística.

Na sua opinião, o chamado “passa a palavra” continua a beneficiar Portugal enquanto destino turístico, mesmo perante episódios de congestionamento aeroportuário. Ainda assim, há trabalho que é preciso ser feito, segundo o especialista, desde logo o reforço de meios, mais tecnologia e aumento da capacidade aeroportuária.

Governo reconhece que reputação do país já está a ser afetada

O Governo já reconheceu que a situação está a afetar a reputação externa do país. O ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, classificou o cenário como “um embaraço” e admitiu que a imagem de Portugal junto dos turistas internacionais já sofreu danos. O ministro pediu mesmo desculpa formalmente, em nome do Governo, aos passageiros e turistas afetados pelas filas e atrasos nos aeroportos nacionais.

Já o ministro da Administração Interna, Luís Neves, explicou que o fluxo de passageiros nos aeroportos portugueses aumentou quase 70% na última década, enquanto as infraestruturas praticamente se mantiveram iguais e os recursos humanos diminuíram.

A Comissão Europeia, por sua vez, rejeita responsabilidades diretas do novo sistema europeu de controlo de entradas e saídas. Bruxelas garante que o processamento médio demora pouco mais de um minuto por passageiro e considera que os atrasos resultam sobretudo de dificuldades operacionais nos próprios aeroportos.

Ainda assim, João Martins acredita que o verão poderá trazer ainda mais pressão ao sistema aeroportuário português. Além de Lisboa e Faro, o especialista alerta para o risco de constrangimentos no aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, e também na Madeira, regiões que recebem cada vez mais turistas oriundos de países fora do espaço Schengen.

“Estamos a entrar no período de maior movimentação turística do ano e naturalmente estes congestionamentos podem intensificar-se”, avisou João Martins.

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