Um “som celestial que chega ao coração”: maior carrilhão itinerante do mundo tem portuguesa pioneira à frente
São 15 toneladas de melodias distribuídas por 63 sinos em bronze que resultam no LVSITANVS.
São 15 toneladas de melodias distribuídas por 63 sinos em bronze que resultam no LVSITANVS. O Conta Lá foi conhecer o maior e mais pesado carrilhão itinerante do mundo pela mão de Ana Elias, a primeira mulher carrilhanista portuguesa. 03 abr. 2026, 07:00 O carrilhão é um instrumento de percursão composto por sinos em bronze de várias dimensões e tocado por um carrilhanista através das mãos e pés. Imagem: Conta Lá
Ana Elias encontrou no carrilhão o seu instrumento de eleição. Imagem: Conta Lá
1300 quilos é o peso do maior sino do carrilhão LVSITANVS. Imagem: Conta Lá
Já os sinos mais leves pesam por volta de cinco quilos e meio. Imagem: Conta Lá
Ana Sofia Pereira é uma das três alunas aprendizes de carrilhão, em Constância. Imagem: Conta Lá
Em todo o mundo, existem apenas cerca de 20 carrilhões itinerantes. O LVSITANVS vai participar no Congresso Mundial de Carrilhão, em Mafra, este ano. Imagem: Conta Lá
O carrilhão LVSITANVS, como foi apelidado numa homenagem ao povo português, tem 63 sinos em bronze e pesa 15 toneladas. “O nosso maior sino tem 1300 quilos, normalmente os carrilhões itinerantes não têm esse sino, e o mais leve tem cerca de cinco quilos e meio”, explica Ana Elias, a primeira carrilhanista portuguesa. E responsável, acrescente-se, por aquele que é o maior carrilhão [instrumento musical de percussão composto por sinos de bronze afinados cromaticamente, tocados através de um teclado manual ou pedaleira] itinerante do mundo.
“O meu repertório de concerto é muito variado, vai desde a música clássica, Beethoven, a ‘Primavera’ de Vivaldi, até ao fado, músicas dos Queen, por exemplo”, revela. Tem “também uma música dos Metallica, para conseguir chegar a todos os públicos, porque quando estamos a tocar ao ar livre toda a gente num raio de cinco quilómetros é obrigada a ouvir-nos, por isso ao menos que tentemos chamar a atenção com um bocadinho de tudo”, conta em entrevista ao Conta Lá.
Numa arte que vai mais além do que tocar sinos, a descoberta do carrilhão foi o resultado de uma busca incessante de Ana pela melodia certa. Tudo começou aos seis anos, quando o pai a levou ao médico “porque pensava que eu tinha alguma incapacidade auditiva, uma vez que não cantava as músicas das crianças, só gostava de ouvir música clássica”.
“Na altura, o médico fez todos os testes e estava tudo bem mas requisitou-me aulas de música e foi aí que tudo começou. Aos 6 anos comecei a ter aulas de música na minha terra, em Alverca”, recorda Ana Elias. Primeiro contactou com o órgão eletrónico, depois passou para o piano, com a entrada no Instituto Gregoriano de Lisboa. Aí, não conseguia escolher entre os vários instrumentos que tocava, desde a flauta de bisel, a bateria, a guitarra, “porque um instrumento só não me chamava a atenção”. Até que um dia, “nas paredes do instituto, estava um anúncio a promover aulas livres de carrilhão”.
Horas sozinha
“Eu não sabia muito bem o que era, fui perguntar à secretaria, disseram-me para ir ver a tal sala e lá estava – não era bem um carrilhão, era um teclado de estudo – e fiquei fascinada porque parecia uma enorme máquina de matraquilhos”, recorda Ana Elias. A entrada nas aulas de carrilhão fez crescer a paixão pelo instrumento de percussão e levou-a, com apenas 15 anos, a conseguir tocar no Carrilhão de Mafra, “o único que existia em Portugal na altura”. Mais tarde, o instrumento foi levado para as caves da Secretaria de Estado da Cultura, em Lisboa, onde mesmo assim Ana ficava recolhida, longe do mundo, “horas sozinha a treinar”.
Hoje, aos 52 anos Ana Elias é uma das duas únicas mulheres carrilhanistas em Portugal. A segunda é a sua irmã, Sara Elias, cujo gosto foi passado por Ana quando praticavam juntas em Mafra, enquanto “os turistas que descobriam o Palácio Nacional elogiavam o som que vinha do carrilhão”.
Mas a ida atrás sonho não ficou por aqui. Ana Elias acabou por ganhar uma bolsa de estudo que a levou a interromper a formação superior que tirava em engenharia e a rumar à Bélgica, onde durante sete anos aprofundou os conhecimentos sobre o instrumento, tornando-se a segunda mulher europeia com mestrado em carrilhão.
“Voltei, terminei engenharia, mas o meu pai vira-se para mim e disse ‘E agora? Estiveste estes anos todos a investir no carrilhão e isto não pode ficar por aqui’. Já havia um carrilhão no Porto, do carrilhanista Abel Chaves [o primeiro carrilhanista português] mas a distância era grande então começámos na procura por um brinquedo destes, carrilhões itinerantes”, recorda.
Foi então em 2015 que a família Elias trocou Alverca pela pacata vila poema de Constância e aí fundou a associação CICO – Centro Internacional do Carrilhão e Órgão, onde adquiriu aquele que hoje é reconhecido como o maior e mais pesado carrilhão itinerante do mundo. “Para mim, é mais importante a qualidade sonora que o instrumento tem do que realmente ser o maior do mundo. É uma responsabilidade, claro que sim, mas o mais importante é o tipo de música que se toca neste instrumento e a qualidade sonora dos sinos”, admite Ana Elias.
Arte interligada
Um peso que não o impede de correr o país em concertos, numa tentativa de dar a conhecer um instrumento com uma sonoridade peculiar. “É um som celestial, por vezes um pouco melancólico, ao mesmo tempo cristalino, e que nos chega ao coração. É muito difícil de explicar, mas a verdade é que o som dos sinos é uma coisa que também está no nosso ADN, desde pequenos que conhecemos o sino da igreja a dar as badaladas das horas, a chamar para a missa e há qualquer coisa de especial nessa melancolia e nesse som tão doce e envolvente”, reflete.
E é para dar a conhecer o som dos sinos do LVSITANVS que, através da CICO, Ana Elias passa o gosto aos mais jovens com aulas de carrilhão. Neste momento, são três os aprendizes, duas raparigas de 9 e 15 anos e um rapaz de 12 anos. A mais crescida é Ana Sofia Pereira. Em treino para o próximo exame de carrilhão, refere ao Conta Lá que começou o caminho na música aos seis anos, no piano.
“Mas depois achei piada ao carrilhão e gosto mais, é mais desafiante”, diz. Se bem que “é mais difícil, porque temos de mexer as mãos e os pés de um lado para o outro sem falhar”, confessa. Numa arte interligada entre mãos, pés e ouvidos apurados, a melodia do carrilhão ecoa hoje por entre as águas unidas dos rios Tejo e Zêzere, em Constância, onde repousa até ao próximo concerto, sempre à espera de um curioso que queira experimentar uma aula aberta e levar este instrumento mais além.
“Nós promovemos o Festival Internacional do Carrilhão e do Órgão, trazemos carrilhanistas e organistas internacionais, o trabalho está feito, só falta certificar. É um dos nossos objetivos é tornar o curso de carrilhão oficial em Portugal, porque o que falta é a certificação do Ministério da Educação para tal”, admite Ana Elias.
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