Bernardo Rocha e Salomé Rocha triunfam numa das corridas mais emblemáticas do país
A paisagem é uma das mais bonitas do país, mas ninguém vence a Meia Maratona do Douro Vinhateiro apenas a admirar o cenário. Entre o calor, o vento e um percurso que os próprios atletas descrevem como “enganador”, Bernardo Rocha, atleta de 25 anos do Grande Porto, e Salomé Rocha, de 36 anos e natural de Vizela, foram os vencedores de uma prova onde a resistência mental acabou por ser tão importante como a velocidade.
O Conta Lá acompanhou no terreno a 19.ª edição de uma corrida que já ultrapassou há muito o lado puramente competitivo e se transformou num dos maiores eventos desportivos e turísticos da região. Descrita pela organização como “a corrida mais deslumbrante do planeta”, a prova voltou a reunir mais de 20 mil participantes entre os 21 quilómetros da meia maratona e a caminhada de cinco quilómetros.
O percurso atravessou estradas entre Peso da Régua, Lamego e Armamar, numa logística singular que inclui o transporte dos atletas de comboio até à linha de partida, antes de seguirem junto ao rio numa corrida marcada pela paisagem vinhateira classificada como património mundial. Mas se para o público o Douro parece quase tranquilo, para os atletas o cenário rapidamente dá lugar à gestão do esforço.
A corrida masculina decidiu-se nos quilómetros finais
Na corrida masculina, Bernardo Rocha chegou ao Douro depois de já ter vencido a edição anterior da prova e a Meia Maratona de Gaia este ano. O atleta venceu com o tempo de 1 hora e 5 minutos, e era apontado pelo comentador José Regalo como um dos principais favoritos, sobretudo pela capacidade de finalizar forte nos momentos decisivos.
“É possível o corredor tomar a iniciativa de início e chegar ao fim em primeiro lugar”, antecipava o antigo olímpico ainda durante os primeiros quilómetros da prova, quando Bernardo Rocha começou a lançar os primeiros ataques ao grupo da frente.
Ao longo da corrida, o duelo com Paulo Barbosa acabou por dominar a luta pela vitória. Bernardo tentava partir a corrida; Paulo resistia para não perder contacto físico nem psicológico. Durante largos quilómetros, os dois alternaram momentos de maior domínio, numa espécie de jogo de pressão em plena estrada duriense.
O jornalista do Conta Lá, João Nápoles, descrevia a incerteza daquele momento: “Parecia que ia ficar para trás e agora será curiosíssimo percebermos se o Bernardo está no encalço do Paulo, porque quebrou mentalmente ao perceber que o seu ataque não surtiu frutos ou percebeu que tinha de atacar mais tarde.”
A leitura de José Regalo ia ainda mais longe. Para o antigo atleta olímpico, corridas como esta raramente se decidem apenas na condição física. “Há alturas em que achamos que estamos perdidos e de repente tudo muda, porque vemos fraqueza no adversário ou porque o nosso cérebro ativa o modo de luta”, explicou.
Enquanto Bernardo Rocha procurava acelerar para desgastar os adversários antes da reta final, Paulo Barbosa resistia como conseguia. José Regalo chegou mesmo a descrever o esforço do atleta como “uma tentativa desesperada de não se descolar”.
“Agora inverteram-se os papéis”, analisava o comentador. “O Paulo está a tentar desgastar o Bernardo o máximo possível para tentar levar a decisão para o fim, anulando os argumentos de finalizador que ele sabe que o Bernardo tem.”
A corrida acabaria por se decidir apenas nos quilómetros finais, quando Bernardo Rocha conseguiu finalmente ganhar distância já entre os participantes da caminhada. Nessa altura, o apoio vindo das margens do rio e dos milhares de participantes espalhados pelo percurso começou também a empurrar o atleta para a meta.
“Mesmo que tivesse vontade de desistir, o que não era o caso, tinha sempre este apoio que o obrigava a continuar”, observava João Nápoles. No final, já depois de cortar a meta, Bernardo Rocha admitiu que a vitória esteve longe de parecer segura. “Garantido só depois de cortar a meta”, afirmou, ainda ofegante.
O vencedor destacou também as características particulares do percurso duriense. “O percurso é um bocadinho enganoso, mas acaba por ser rápido”, explicou. “Ainda apanhámos vento na primeira parte e depois vento pelas costas na parte final, que é o mais importante.”
Salomé Rocha segurou a vantagem até à meta
Na prova feminina, Salomé Rocha entrou como principal candidata à vitória e acabou por cortar a meta em 1 hora e 13 minutos. José Regalo recordava, antes da partida, o currículo da atleta olímpica da maratona, mas também os problemas físicos e cirurgias que marcaram os últimos anos da carreira. “Está paulatinamente a regressar à competição”, dizia, destacando ainda que a atleta atravessa “uma segunda fase” do seu percurso profissional.
Ao contrário da corrida masculina, marcada por mudanças constantes de ritmo, a prova feminina foi construída sobretudo na persistência. Salomé Rocha tentou várias vezes ganhar vantagem sobre a Mónica Silva, mas encontrou sempre resposta imediata da adversária. “Mónica Silva é uma atleta dura, não é fácil ultrapassá-la”, precedia José Regalo logo nos primeiros quilómetros.
A análise acabou por se confirmar. Sempre que Salomé tentava acelerar, Mónica mantinha-se próxima, resistindo sem entrar totalmente no ritmo da adversária. “A Mónica não reage por impulso”, descrevia José Regalo. “Enquanto a Salomé tenta ganhar metros, a Mónica parece ser mais regular e não vai muito na conversa.”
A luta prolongou-se durante praticamente toda a corrida e transformou-se numa batalha de resistência física e psicológica. Em vários momentos, Salomé Rocha ganhava alguns metros; pouco depois, Mónica voltava a aproximar-se.
“Há uma fatura mental disto”, observava João Nápoles. “A Salomé faz por manter um ritmo elevado, olha para trás e não tem propriamente ganhos disso.” Mesmo assim, a corredora acabaria por conseguir segurar a vantagem nos quilómetros decisivos e cortar a meta isolada.
No final, a atleta de Vizela fez questão de agradecer a Hélio Santos, que a acompanhou durante a prova e ajudou na hidratação ao longo do percurso. “Foi fantástico durante a prova”, afirmou. A vencedora destacou também a dureza particular da corrida no Douro. “É uma prova desafiante, mas ao mesmo tempo, o facto de irmos sempre ali à beira-rio torna tudo um pouquinho mais fresco, mais leve”, explicou.
Depois da vitória, Salomé Rocha falou ainda do período complicado que atravessou nos últimos anos e da importância do apoio recebido no regresso à competição. “Tenho colegas de treino e treinadores que, após uma fase bastante difícil, não me deixaram baixar os braços”, disse.
A atleta garantiu ainda ter cumprido os objetivos para esta edição. “O objetivo era correr bem, correr rápido ao mesmo tempo, e acho que consegui as duas coisas.”
Uma prova que vai muito além da corrida
Ao longo do dia, a Meia Maratona do Douro Vinhateiro voltou a mostrar porque ultrapassa há muito o lado puramente competitivo. Entre atletas de elite, corredores amadores e milhares de participantes na caminhada, o Douro transformou-se novamente num ponto de encontro entre desporto, turismo e celebração coletiva.
Nos quilómetros finais, os atletas da frente cruzavam-se já com participantes da caminhada junto ao Museu do Douro, enquanto recebiam aplausos improvisados vindos das margens do rio. A mistura entre competição e ambiente festivo acabou por marcar uma prova onde os corredores partilharam o percurso com milhares de pessoas espalhadas pela região ao longo de todo o dia.
Num cenário marcado pelas vinhas, pelo rio e pelas estradas sinuosas do Douro, a prova voltou a afirmar-se como uma das mais emblemáticas do atletismo português. Mais do que a luta pela vitória, a Meia Maratona do Douro Vinhateiro continua a distinguir-se pela experiência única de correr numa das paisagens mais marcantes do país.