Árvores caídas pela tempestade Kristin viram exposição de arte em Leiria
O Centro de Artes Villa Portela, em Leiria (CAVP), inaugura no sábado uma exposição de fotografia experimental a partir da residência artística desenvolvida por Sofia Silva com árvores centenárias que caíram na depressão Kristin.
“A fala do tronco” é apresentada no edifício dos Laboratórios Criativos do CAVP, após quatro meses de residência da artista, que foi desafiada a documentar árvores centenárias dos jardins que foram atingidos pelo mau tempo.
Segundo o município de Leiria, o trabalho seguiu o mote “Sem flash, sem obturador, sem câmara”, tendo Sofia Silva recorrido a vestígios deixados pela tempestade: troncos, raízes, fungos, líquenes, folhas, cinzas, serradura e solo.
A partir desse material e utilizando técnicas da fotografia experimental, processos fotográficos sustentáveis e criação de biomateriais, a artista desenvolveu uma instalação multidisciplinar centrada na matéria orgânica enquanto “elemento ativo de criação artística”, explorando “novas possibilidades de relação entre imagem, natureza e memória”.
O resultado são quimigramas, cromatografias do solo, cianotipias, antotipias, objetos escultóricos e suportes orgânicos produzidos a partir de celulose bacteriana, propondo uma reflexão sobre ecologia, fotografia e sustentabilidade.
Um dos núcleos centrais da exposição desenvolvida por Sofia Silva recorre à técnica da cromatografia do solo e de outros materiais, utilizada para revelar indícios do microbioma terrestre.
“Através deste processo tornam-se visíveis padrões, vestígios e redes subtis de comunicação entre árvores, fungos e sistemas radiculares, conduzindo o visitante a uma reflexão poética e sensorial sobre inteligência ecológica, interdependência e os modos invisíveis de relação que sustentam o mundo natural”.
“Mais do que documentar uma catástrofe natural”, procura-se “imaginar novas possibilidades de regeneração, simbiose e continuidade entre humanos, plantas e ecossistemas invisíveis”.
Outra intenção da mostra é “a reflexão crítica sobre a herança da fotografia e sobre a urgência de práticas artísticas mais sustentáveis”, recuperando processos fotográficos lentos, artesanais e efémeros, como “gesto de resistência ao imediatismo tecnológico contemporâneo”.
Entre as árvores atingidas pela tempestade de 28 de janeiro de 2026 estão dois cedros-do-Atlas centenários, árvores notáveis que caíram no jardim do CAVP.
A exposição “A fala do tronco” tem inauguração agendada para as 16:00 de sábado e fica patente até 30 de agosto, com participação do artista convidado Alexandre de Magalhães e co-curadoria de Ana David Mendes.
A partir da personagem “Log lady”, da série “Twin Peaks”, de David Lynch, Alexandre de Magalhães apresenta em Leiria fotografias de grande formato, numa peça que resulta da encenação e ativação de um colar de folhagens do tronco de melaleuca, espécie arbórea australiana existente no parque da Villa Portela.