Árvores derrubadas pelas tempestades podem levar a “verão terrível”: “Não vamos conseguir limpar tudo em tempo útil”
Portugal pode estar à beira de um “verão terrível” no que toca a incêndios. O alerta partiu das declarações recentes do ministro da Administração Interna e serviu de gancho para entrevista do especial informativo do programa Juca desta quarta-feira, feita ao secretário de Estado das Florestas, Rui Ladeira, que falou sobre o estado da floresta e a capacidade de resposta do país.
Rui Ladeira confirmou que o risco é real e que o tempo pode não chegar para resolver o problema: “Não vamos conseguir limpar tudo em tempo útil”, disse, apontando para a dimensão da área afetada pelas tempestades recentes, que pode variar entre os 24 mil e os 30 mil hectares.
O cenário agravou-se precisamente por causa dessas tempestades, que deixaram no terreno milhões de árvores caídas e uma enorme quantidade de material inflamável. No total, foram identificados cerca de 10 mil quilómetros com necessidade de limpeza, mas até agora apenas cerca de 3 mil foram intervencionados. O ritmo levanta preocupações à medida que o verão se aproxima.
Ainda assim, o convidado da Objetiva garantiu que o terreno está a ser trabalhado desde o início: “Estamos acelerados desde o primeiro dia”, afirmou, destacando o envolvimento de vários meios no terreno. “Têm estado centenas de homens e mulheres a trabalhar na desobstrução de caminhos”, acrescentou, numa operação que envolve sapadores florestais, autarquias, bombeiros e até o Exército.
A prioridade, sublinha, não é limpar tudo de forma uniforme, mas atuar onde o risco é maior: “A questão central é garantir a desobstrução das acessibilidades”, explicou, referindo-se sobretudo aos caminhos que permitem o acesso dos meios de combate e à remoção de madeira em zonas críticas.
Identificados 22 concelhos prioritários
Nesse sentido, foram identificados 22 concelhos prioritários, que concentram cerca de 96% da área mais afetada. E é aí que o Governo promete concentrar esforços e agir se for necessário. “Se essas áreas não estiverem intervencionadas, vamos tomar uma ação musculada como nunca existiu”, avisou, abrindo a porta a uma intervenção direta do Estado.
Ao mesmo tempo, há um apelo claro aos proprietários privados, que continuam a ser peça-chave neste processo. “Hoje quem quiser limpar a sua propriedade pode receber entre 1000 e 1500 euros por hectare”, explicou Rui Ladeira, destacando os incentivos criados para acelerar a remoção de material inflamável e valorizar a madeira caída.
Para apoiar este esforço, o Governo disponibilizou financiamento significativo: “Colocámos 40 milhões de euros à disposição” dos municípios mais afetados, permitindo contratar empresas, reforçar meios e intervir nas zonas mais sensíveis.
Além disso, foram distribuídos equipamentos pelo território, desde máquinas pesadas a tratores, para reforçar a capacidade de resposta local, tanto na prevenção como no combate.
No fundo, o risco está identificado e não depende apenas do Estado, segundo o membro do Governo: “É possível e necessário que cada um faça a sua parte”, reforçou, ecoando o apelo do ministro da Administração Interna para que haja uma mobilização geral, desde entidades públicas a proprietários.
Problema em "identificar os interlocutores"
O debate trouxe também à tona um problema estrutural mais profundo: a dificuldade em gerir o território. “Temos hoje um grave problema, que é conseguir identificar quem são os interlocutores”, admitiu Rui Ladeira, referindo-se à falta de registo e organização de muitas propriedades florestais, o que dificulta intervenções rápidas.
Ainda assim, o Governo garante que está a agir com base numa estratégia de longo prazo, com o plano Floresta 2050, que aposta na valorização e resiliência do setor.