"É fulcral retirar toda a madeira do terreno para proteger a floresta"

Luís Calaim, perito florestal, realçou à jornalista Estela Machado, na rubrica Informação Objetiva, do programa Juca, a dificuldade de preparar atempadamente os terrenos para evitar os incêndios e alertou para a matéria que vai ficar na floresta, que será atacada por insetos e que não terá mais uso algum. Destacou ainda que o tema devia ser considerado uma urgência nacional.
Inês Miguel
Inês Miguel Jornalista
Redação
Redação
31 mar. 2026, 11:30

A Comissão Europeia aprovou esta segunda-feira um pacote de 250 milhões de euros de ajudas estatais ao setor florestal em Portugal para reflorestar áreas afetadas e compensar proprietários, com subvenções e válido até 31 de dezembro de 2029.

Luís Calaim, perito florestal, refere que são 60 milhões de euros por ano para reforçar e apoiar o Plano Estratégico da Política Agrícola Comum (PEPAC) de Portugal, um programa europeu de apoio e de incentivo ao desenvolvimento, ao investimento e à compensação dos agricultores. Estão em causa subvenções diretas sob a forma de prémios fixos pagos durante um período de 15 a 20 anos, com o objetivo de incentivar novos investimentos florestais e compensar perdas de rendimento dos proprietários de terrenos.

O responsável realçou à jornalista Estela Machado, na rubrica Informação Objetiva, do programa Juca, que o dinheiro será distribuído pelos agricultores ou pelos produtores florestais que integram o Plano Estratégico da Política Agrícola Comum de Portugal. "Existem outros programas de apoio que são muito interessantes dados pelo Fundo ambiental, tal como a Floresta Ativa, que é um programa que chega aos pequenos proprietários. Para se chegar através do PEPAC aos apoios dos pequenos proprietários, estes têm que estar agregados em zonas de intervenção florestal ou em Indicação Geográfica Protegida, por isso não é um programa acessível a todos. Este apoio parece que chegou na altura indicada, mas foi pedido há bastante tempo, antes das tempestades", afirma.

Este dinheiro é para todo o território nacional e é para apoiar um dinheiro que já tinha sido perdido anteriormente. "Servirá não só para a florestação de terras agrícolas e não agrícolas, mas também de terras que têm mato, que não são produtivas e que o agricultor poderá plantar espécies florestais para compensar... Em vez de mato, tem floresta e consegue tirar algum rendimento. Também será uma proteção à floresta para novas calamidades que possam surgir, como os incêndios", elabora.

Luís Calaim admite que este ano há mais medo e mais perigo na floresta. Refere que uma maneira a minimizar os riscos aos incêndios passa por retirar todo o material lenhoso, árvores caídas, que estão no terreno das tempestades. "Vê-se que os caminhos estão desobstruídos mas a madeira está lá. Ou seja, se ocorrer um incêndio, apanhando estas áreas, poderá ser uma calamidade muito grande naquela zona. Vamos tentar ter tempo para agir. Acredito que cada município, freguesia, cada associação de produtores florestais vai fazer o seu caminho, contudo vai ser muito complicado porque já temos o calor a começar a apertar", revela. "É fulcral retirar toda a madeira do terreno para proteger a floresta", acrescentou.

Luís Calaim abordou a questão das doenças potenciadas pela queda de arvores, porque "os insetos transformam a madeira em pó e a madeira fica sem utilização nenhuma e isso pode ser um problema porque senão há utilização da floresta, a madeira fica lá". 

Destacou ainda que ainda há muito por fazer no Parque de Sintra – Cascais quando se estima a queda de 250 mil árvores. "É um trabalho que vai durar anos, só de retirar aquele material. Todos os anos temos os incêndios, que é a nossa guerra, este ano estamos com uma dificuldade que é os antecedentes e aquilo que aconteceu e tudo isto pode arrastar-se para períodos mais longos. Devia ser mesmo urgência nacional, investirmos todos e dedicarmos todos os nossos esforços para que este ano não aconteça". Sobretudo quando estamos perante uma tragédia quase anunciada "que muitos acham que vai acontecer", concluiu.