Escavações no Alentejo ajudam a perceber que "Idade do Bronze foi um período em que indivíduos do sexo feminino ocupavam posições centrais"

Trabalho sobre sepulturas subterrâneas no concelho de Serpa, no Alentejo, coloca em causa algumas das pré-conceções que muitas vezes existem sobre o papel das mulheres. Estudo foi destacado numa revista científica internacional e no jornal francês "Le Figaro".
Tiago Oliveira Jornalista
27 mai. 2026, 08:00

A análise arqueológica de sepulturas assume não raras vezes um papel fulcral para entender a evolução dos filamentos comunitários ao longos dos milénios, com vários trabalhos a lançarem novas luzes sobre a organização das sociedades mais antigas. Algo que voltar a ganhar novos contornos no Baixo Alentejo, mais precisamente em Serpa, onde uma investigação permitu levantar um pouco o véu sobre o papel das mulheres por alturas da Idade do Bronze, há cerca de 3500 anos, e que questionam as ideias pré-concebidas sobre o seu papel.

"Os indivíduos do sexo feminino surgem consistentemente associados a maior quantidade e diversidade de oferendas, incluindo cerâmica, punções metálicos e, nalguns casos, armas, questionando a visão tradicional de que o acesso a bens de prestígio era exclusivo dos homens", sustenta a responsável pela investigação e arqueóloga Marta Borges."

Tendo como base a dissertação de mestrado em Arqueologia na Universidade do Minho, orientada pelos professores Ana Maria dos Santos Bettencourt e Hugo Aluai Sampaio, o trabalho arqueológico partiu então da análise de 57 hipogeus em sete locais no município alentejano. Tratam-se de "sepulturas escavadas na rocha, compostas por uma antecâmara de acesso a uma câmara funerária onde o corpo era depositado, por vezes acompanhado de espólio, e posteriormente selada. Fazem parte de sítios mais amplos, designados na literatura como povoados abertos, termo ainda em discussão, implantados em pequenas colinas, onde se identificam estruturas contemporâneas como fossas circulares de carácter funerário ou não, bem como, estruturas de cronologias mais antigas da Pré-história Recente", explica.

"O que este estudo nos permitiu foi demonstrar de forma clara e sistemática, em múltiplos sítios, que existem diferenças segundo o sexo biológico, na quantidade e diversidade das oferendas funerárias", sintetiza a arqueóloga. Os achados mostram que é provável que a posição de várias mulheres fosse bem menos subalterna do que as projeções sociais ao longo do tempo poderiam supor à partida e que, pelo contrário, tivessem posições dominantes e de prestígio.

Em Serpa, por exemplo, num dos hipogeus (Torre Velha 3) com sepulturas femininas, "estudos arqueometalúrgicos realizados por outros investigadores demonstraram que um dos punhais tinha uma composição em bronze típica de uma metalurgia mais desenvolvida do que a praticada no sul de Portugal nessa época, com rebites de prata de função puramente simbólica". Marta Borges elabora que a "Idade do Bronze é precisamente o momento em que surge esta nova metalurgia, tecnicamente difícil de alcançar e dependente de redes de troca de longa distância", pelo que "este punhal é evidência dessas redes". 

Diferentes e mais complexas

Já apesar de não serem frequentes, há "vários exemplos na Europa que apontam no mesmo sentido", revela a investigadora. É o caso da "Rapariga de Egtved", na Dinamarca, "uma jovem da Idade do Bronze sepultada com espólio muito rico, cujo estudo isotópico revelou que tinha percorrido grandes distâncias ao longo da sua vida". Mais próximo de nós, em Múrcia, na "cultura de El Argar, foi identificada uma sepultura feminina sob o pavimento de um edifício interpretado como um palácio, em que a mulher concentrava a maioria dos objectos de prestígio, incluindo um diadema de prata". Dois exemplos que elucidam como "certos indivíduos do sexo feminino ocupavam posições centrais" e a forma como "o registo funerário o reflecte". 

Marta Borges chama também a atenção para o risco de saltarmos diretamente para a conclusão (infundada) que estas mulheres eram guerreiras: "Porque a presença de armas numa sepultura não nos diz nada sobre o que o indivíduo fazia em vida", atira. "As oferendas funerárias reflectem o reconhecimento que a comunidade atribui ao indivíduo no momento da morte, não necessariamente as suas funções em vida. Cada sociedade constrói os seus próprios sistemas simbólicos e a ideia de que as mulheres pertencem ao espaço doméstico e os homens à guerra é uma construção cultural que não podemos projectar automaticamente no passado". Ou seja, importa realçar que "há 3500 anos, nesta região do Alentejo, as formas de reconhecimento social eram diferentes e mais complexas do que tendemos a assumir".

A dissertação originou um artigo científico agora publicado na revista internacional “Quaternary” e destacado pelo jornal francês “Le Figaro”, com Marta Borges a confessar que recebeu a notícia "com agrado, alguma surpresa", e como "um reconhecimento da importância da arqueologia preventiva, muitas vezes vista apenas como um obstáculo às obras, e do valor do património arqueológico que ela permite identificar e estudar". Até porque "o nosso património arqueológico é magnífico em todo o território nacional, temos sítios extraordinários de norte a sul do país", sublinha. 

O futuro passa agora pela "integração de análises isotópicas e de ADN antigo, que nos permitiriam testar hipóteses sobre mobilidade, dieta e relações de parentesco entre os indivíduos sepultados nos mesmos hipogeus, confirmando ou refutando algumas das hipóteses aqui levantadas". Tratam-se de "análises ainda pouco realizadas para o Bronze Médio do Sudoeste português", considera, "e que representariam um avanço significativo na compreensão destas comunidades".