Estudo revela que utentes com menos recursos recebem menos horas de cuidados ao domicílio

Os utentes com menos recursos recebem apenas uma hora diária de cuidados de apoio domiciliário.

Agência Lusa
Agência Lusa Jornalista 27 Mar. 2026, 12:36
Estudo revela que utentes com menos recursos recebem menos horas de cuidados ao domicílio

Os utentes com menos recursos recebem apenas uma hora diária de cuidados de apoio domiciliário. É a conclusão de um estudo do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa que revelou desigualdades significativas no acesso e na qualidade dos cuidados prestados.
27 mar. 2026, 12:36 Estudo recomenda práticas como uso de tecnologia como teleassistência.

O acesso a serviços de apoio domiciliário depende da capacidade financeira, com utentes com menos recursos a receberem apenas uma hora diária de cuidados, enquanto o setor lucrativo oferece cobertura completa e cuidados personalizados, revela um estudo divulgado esta sexta-feira.

O estudo, realizado por Maria Irene Carvalho e Carla Ribeirinho, do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, analisou os modelos de Serviço de Apoio Domiciliário (SAD) existentes em Portugal e propõe medidas para reforçar a sua eficácia, integração e sustentabilidade.

Apesar da importância dos SAD para combater a solidão e permitir que pessoas idosas permaneçam no domicílio, o estudo nacional “(Re)Imaginar os Cuidados no Domicílio em Portugal” revelou desigualdades significativas no acesso e na qualidade dos cuidados prestados.

Dos 510 SAD analisados, 85,9% são organizações não lucrativas, 8,6% lucrativas e 5,5% mistas, segundo o estudo desenvolvido no âmbito do programa Science4Policy (S4P), financiado pelo PLANAPP – Centro de Planeamento e de Avaliação de Políticas Públicas, em Parceria com a Fundação para a Ciência e Tecnologia.

A investigação mostra que o setor lucrativo consegue oferecer cobertura diária completa e serviços personalizados, enquanto o setor não lucrativo enfrenta escassez de profissionais, custos logísticos elevados e dificuldade de recrutamento, afetando a resposta integral às necessidades dos utentes.

Segundo o estudo, os valores mensais pagos pelos utentes do setor não lucrativo situam-se entre 100 e 200 euros (28,2%) e entre 201 e 300 euros (34,1%), enquanto no setor lucrativo os valores são mais elevados, situando-se nos intervalos de 501 a mil euros e de 1.001 a 1.500 euros.

Em declarações à agência Lusa, Carla Ribeirinho afirmou que a desigualdade de acesso configura “uma séria ameaça à própria justiça social e à própria coesão social”.

“O que observámos foi que o setor lucrativo consegue oferecer cuidados personalizados e individualizados porque é pago para isso”, disse, explicando que as pessoas com recursos financeiros obtêm cobertura completa, 24 horas por dia, sete dias por semana, e acesso a serviços que vão além das necessidades básicas.

O setor não lucrativo, predominante em contextos rurais ou com menor capacidade financeira, oferece apenas cuidados essenciais, como higiene, alimentação ou tratamento de roupas.

A investigadora realçou que as pessoas não existem apenas do ponto de vista das necessidades básicas, notando que a média de cuidados no setor da economia social e solidária é de uma hora por dia, no máximo.

Apesar da capacidade instalada, o serviço não está a responder às expectativas das pessoas idosas e das suas famílias, disse, comentando ser curioso num país tão envelhecido haver vagas em serviços de apoio domiciliário.

“Não é porque ele não seja necessário, é porque não consegue cobrir necessidades integrais daquilo que é a existência humana. Nós não somos só barriga e não precisamos só de cuidados de higiene, e não precisamos certamente só uma hora por dia, durante os dias de semana”, frisou a investigadora.

“Se a isso se juntar uma situação de demência, pessoas completamente isoladas, sem rede de suporte social, pessoas com baixos rendimentos económicos e a rigidez também dos modelos de comparticipação do estado, isto é o húmus perfeito para a questão da desigualdade”, adiantou.

Carla Ribeirinho salientou que “a grande tendência europeia” é a desinstitucionalização, manter as pessoas em casa até o mais tarde possível, mas alerta que esta aposta “não pode ser só um discurso político”, tem de ser acompanhada de modelos que respondam às necessidades dos idosos e das suas famílias, diminuindo ao máximo as desigualdades no acesso a estes cuidados.

“Estamos a falar de dignidade humana, que as pessoas possam ter mais do que apenas o básico”, defendeu.

O estudo identifica ainda necessidade urgente de respostas integradas, alertando que “a falta de integração com unidades de saúde, cuidados continuados e serviços de reabilitação compromete a continuidade dos cuidados, sobretudo em casos complexos e a garantia do “ageing in place” (envelhecer em casa)”.

Entre as recomendações do estudo estão revisão do modelo de financiamento para ajustar à complexidade e ao território, valorização das equipas, capacitação de profissionais, integração de cuidadores informais, reforço do planeamento comunitário, diversificação dos serviços e uso de tecnologia como teleassistência.

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