Figueiró dos Vinhos tem "um autêntico barril de pólvora” após tempestades

O presidente da Câmara de Figueiró dos Vinhos alerta que o concelho continua a ser “um barril de pólvora” devido ao material lenhoso deixado pelas tempestades e defende que os incentivos à limpeza florestal devem tornar-se permanentes. O concelho foi incluído nas ajudas do Governo para limpeza de terrenos por apresentar risco elevado.
João Nogueira
João Nogueira Jornalista
21 mai. 2026, 11:59

Há centenas de hectares por limpar, dezenas de quilómetros de caminhos ainda obstruídos e toneladas de madeira caída espalhadas pela floresta. Em Figueiró dos Vinhos, o cenário deixado pelas tempestades do início do ano continua a preocupar a autarquia, numa altura em que o risco de incêndio aumenta com a chegada do verão. “Temos um autêntico barril de pólvora instalado no território”, disse o presidente da câmara, Carlos Lopes, que considera fundamentais as novas ajudas do Governo para apoiar a limpeza dos terrenos privados.

O tema esteve em destaque esta quarta-feira no espaço informativo do programa Juca, a Objetiva, que abordou as limpezas de terrenos e os apoios criados pelo Estado após as tempestades que atingiram a região Centro no início do ano. Carlos Lopes notou que Figueiró dos Vinhos acabou por ser integrado na lista dos municípios abrangidos pelas ajudas governamentais, depois de inicialmente ter ficado de fora.

“O concelho de Figueiró dos Vinhos não estava abrangido por esta medida, que nós entendemos que é estruturante e muito importante para estes territórios atingidos por esse monstro que nos entrou porta adentro no dia 28 de janeiro”, afirmou o autarca. “Conseguimos fazer prevalecer os nossos argumentos e foi com muito agrado que recebemos a informação de que o concelho também passaria a ser contemplado”.

Para contexto, o Governo anunciou recentemente um pacote de 40 milhões de euros destinado a apoiar proprietários na limpeza de terrenos nas zonas mais afetadas pelo mau tempo. A medida prevê comparticipações até 1500 euros por hectare para quem proceda à remoção de árvores caídas, sobrantes florestais e desobstrução de caminhos.

Segundo a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, os proprietários não terão de apresentar faturas ou comprovativos de despesa, bastando fotografias que comprovem os trabalhos realizados. A candidatura aos apoios decorre até 29 de junho.

Segundo Carlos Lopes, a autarquia identificou cerca de 800 hectares que necessitam de intervenção urgente. O presidente da câmara acredita que o incentivo poderá ser decisivo para convencer muitos proprietários privados a avançar com os trabalhos de limpeza.

“Este incentivo é extremamente importante porque muitos proprietários até este momento não tinham grande motivação, nem capacidade financeira para intervir”, referiu, acrescentando que, "a partir do momento em que existe este apoio, ficam criadas condições para sensibilizar os proprietários a fazerem a limpeza dos terrenos.”

Grande parte das áreas afetadas pertence precisamente a privados, o que, segundo o autarca, dificultou a resposta nos últimos meses. Carlos Lopes defende que o combate ao risco de incêndio exige uma responsabilidade partilhada entre Estado, autarquias e proprietários.

“Quer a parte pública quer a parte privada têm essa obrigação, mas nem todas as pessoas têm condição económica para poder intervir. Agora existem mecanismos que permitem avançar para essa desobstrução e para uma paisagem mais organizada”, disse o autarca.

Apesar de reconhecer a importância das medidas agora anunciadas, o autarca considera que os apoios chegam tarde face ao risco que o concelho enfrenta à entrada do verão: “Estas medidas já deviam estar implementadas. Estamos à espera que tudo seja formalizado para podermos trabalhar em definitivo nesta matéria”.

Carlos Lopes defende ainda que este tipo de apoios não deve surgir apenas depois de fenómenos extremos, mas sim fazer parte de uma estratégia permanente de prevenção e gestão florestal: "Não podemos estar à espera de novas tragédias para voltar a agir. Para prevenir incêndios precisamos limpar, e para limpar precisamos de incentivos".

O presidente daquela autarquia admite que 2026 poderá ser particularmente complicado em termos de incêndios rurais, sobretudo devido à enorme quantidade de material lenhoso acumulado no solo após as tempestades. Ainda assim, garante que o município vai continuar a acelerar os trabalhos de limpeza.