"Há um problema no Douro que é a criação de valor”: a crise do vinho em Santa Marta de Penaguião

Esta quinta-feira, a emissão da Estrada Nacional 2 chegou a Santa Marta de Penaguião. Em direto do coração do Douro, o setor vitivinícola esteve em debate.
Hugo Santos Gonçalves
Hugo Santos Gonçalves Jornalista
23 abr. 2026, 16:15

No terceiro dia de emissão da Estrada Nacional 2, o Conta Lá faz paragem em Santa Marta de Penaguião. No coração do Douro, onde estão localizadas as célebres Caves Santa Marta, o concelho é conhecido pela produção de vinho. A crise que o setor atravessa foi tema de debate na emissão desta quinta-feira.

Foi a vinha que sustentou muitas das famílias de Santa Marta de Penaguião, afirmou a presidente da autarquia, Sílvia Silva. “Há uma década que o turismo teve um impulso enorme, mas, o nosso grande setor, e que durante anos sustentou as famílias penaguienses, foi a vinha.”

A autarca diz que, no município, há um atraso “natural” do setor que se prende com a baixa capacidade económica dos pequenos e médios agricultores. “No concelho de Santa Marta, a grande maioria são pequenos e médios agricultores, por isso, no que diz respeito à requalificação, à transformação e à renovação da vinha, isso nem sempre está ao alcance da bolsa de todos os penaguienses”, explica.

“Deixou-se de canalizar a produção para um só local. A cooperativa albergava todos os nossos vitivinicultores e conseguia fornecer-lhes o que eles necessitavam para manterem as suas famílias”, refere a presidente da autarquia.

Sílvia Silva acredita que o facto de a produção ter deixado de ser direcionada para a cooperativa Caves Santa Marta fragilizou o setor. “As nossas caves estão a passar por um período menos favorável e isso reflete-se nas pessoas que lá colocam as uvas. Isso penaliza bastante”, acrescenta.

No painel moderado pelo jornalista Luís Varela de Almeida participou também Luís Machado, antigo presidente do concelho e fundador da Associação de Municípios da Rota da Estrada Nacional 2 (AMREN2), que defende que o problema do setor é a organização. 

“O problema no Douro é um problema de organização. Organização entre o comércio e a produção, que é supervisionada pelo IVDP (Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto)”, afere Luís Machado.

O fundador da AMREN2 defende uma mudança no modelo de organização dos vinhos do Douro. “Defendo mais o modelo paritário entre a produção e o comércio, no sentido de perceberem qual é o caminho que tem de se fazer.”

O problema, para o antigo presidente de Santa Marta de Penaguião é a falta de criação de valor. “Não se consegue perceber como nós, tendo o vinho do Porto e tendo os DOC (vinhos de Denominação de Origem Controlada) mais famosos do país, internacionalmente premiados, não os conseguimos valorizar. Há um problema no Douro que é a criação de valor”, garante. Luís Machado defende também que “para se criar valor no produto, a quantidade tem de baixar”.

O ex-autarca liga a crise nas cooperativas e no vinho do Porto com os negócios das grandes superfícies comerciais. “Quando apareceram as grandes superfícies, os negócios tornaram-se fáceis e a produção tinha a possibilidade de vender muita quantidade e transformar isso em dinheiro. Esta forma de escoamento retirou a proximidade, retirou a procura de novos nichos de mercado”.

A solução para a crise do setor pode passar pela internacionalização e pela entrada noutros mercados mundiais. "O Douro tem de saber ir ao mundo”, aponta Luís Machado, “temos de procurar novos mundos e por isso é que o Douro vai estar uma semana no Japão, ainda este ano”.

“O excesso de produção é evidente”, afirma Artur Vaz, historiador e produtor de vinho, também presente neste painel. “Nos últimos 10 anos a região produziu, em média, perto de 250 mil pipas de vinho e cerca de 100 mil pipas não se venderam ou venderam-se muito mal”, esclarece.

Para além de escoar a produção, o historiador defende mais divulgação dos vinhos do Douro. “Não é só decretar que só se vai utilizar o excesso de vinho do Douro para produzir água ardente vínica, mas, simultaneamente, fazer muito mais divulgação, quer do vinho do Porto, quer dos DOC”.