Jardim Botânico de Coimbra quer combater a “imperceção vegetal”

O Jardim Botânico da Universidade de Coimbra assinala o Dia Internacional do Fascínio das Plantas, celebrado a 18 de maio, com visitas guiadas, oficinas e atividades abertas ao público, numa iniciativa que pretende aproximar as pessoas do mundo vegetal.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
18 mai. 2026, 08:00

As plantas estão em todo o lado, mas raramente são realmente vistas. Entre rotinas urbanas, vidas digitais e dias passados entre ecrãs, o contacto com o mundo vegetal tornou-se menos frequente e menos espontâneo. É precisamente contra essa “imperceção vegetal” – a tendência humana para ignorar as plantas no quotidiano – que o Jardim Botânico da Universidade de Coimbra volta a assinalar o Dia Internacional do Fascínio das Plantas, celebrado a 18 de maio, com um conjunto de atividades abertas ao público.

“O Dia Internacional do Fascínio das Plantas surge precisamente para contrariar aquilo que a ciência descreve como ‘imperceção botânica ou vegetal’: a tendência humana para ignorar as plantas no nosso quotidiano”, explica a Diretora do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, Teresa Girão, em conversa com o Conta Lá. “Vivemos cada vez mais em contextos urbanos e digitais, o que contribui para um certo distanciamento do mundo vegetal.”

Apesar de muitas vezes passarem despercebidas, Teresa Girão lembra que as plantas sustentam praticamente todos os equilíbrios essenciais à vida. “Produzem o oxigénio que respiramos, são a base da cadeia alimentar, regulam o clima, mantêm os solos e fornecem matérias-primas essenciais, da alimentação à medicina”, sublinha. “Sem plantas, simplesmente não existiria vida tal como a conhecemos.”

A diretora considera que a crescente distância entre as pessoas e a natureza continua a ser um desafio, sobretudo entre as gerações mais novas, cujas rotinas decorrem maioritariamente em ambientes urbanos e digitais. Ainda assim, acredita que esse afastamento não é irreversível. “Também vemos um interesse renovado quando existem oportunidades de contacto direto e experiências significativas com a natureza”, afirma. “Criar essas oportunidades é, por isso, fundamental.”

Jardins botânicos como “espaços de ciência viva”

Mais do que locais de passeio ou contemplação, os jardins botânicos assumem hoje um papel cada vez mais ligado à investigação, educação ambiental e comunicação de ciência. “Os jardins botânicos são hoje espaços de ciência viva”, defende Teresa Girão. “Funcionam como pontes entre investigação, educação e sociedade.”

Segundo a responsável, estes espaços têm vindo a ganhar importância não só na conservação de espécies e na investigação científica, mas também na promoção da literacia ambiental e de comportamentos mais sustentáveis. “São espaços privilegiados de contacto direto com a biodiversidade, fundamentais para inspirar uma relação mais consciente com a natureza”, acrescenta.

As alterações climáticas são outro dos fenómenos já visíveis no trabalho diário do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra. Teresa Girão refere alterações nos ciclos de floração e frutificação das plantas, bem como uma maior vulnerabilidade a pragas e doenças, sinais que têm vindo a ser acompanhados pela instituição.

“Estes efeitos reforçam a importância do papel dos jardins botânicos como observatórios das alterações climáticas e como agentes ativos na conservação de espécies em risco”, afirma. A diretora admite também que a literacia ambiental em Portugal continua a apresentar fragilidades, apesar do crescimento da consciência ecológica nos últimos anos. “Persistem lacunas no conhecimento sobre ecossistemas, biodiversidade e sustentabilidade”, alerta. “É essencial investir numa educação contínua, que vá além da escola e envolva diferentes públicos.”

Dar visibilidade ao mundo vegetal

Para assinalar o Dia Internacional do Fascínio das Plantas, o Jardim Botânico da Universidade de Coimbra promove, no dia 18 de maio, três iniciativas gratuitas com inscrição obrigatória.

O programa começa com o “Sprint botânico: Nos bastidores do Jardim”, uma visita que permite acompanhar o trabalho diário de manutenção, conservação e cuidado das inúmeras espécies presentes no espaço. Mais do que mostrar plantas, a iniciativa pretende também tornar visível o trabalho científico e técnico que normalmente permanece longe do olhar do público.

Segue-se a oficina “Colher plantas: as fundações da botânica”, dedicada aos principais procedimentos de recolha de amostras para herbário e destinada a estudantes de Biologia da Universidade de Coimbra. Já ao final do dia, os visitantes poderão participar numa visita guiada à Estufa Tropical, conhecendo a história do espaço e algumas das coleções mais emblemáticas do Jardim Botânico.

Para Teresa Girão, atividades abertas ao público continuam a ser fundamentais para aproximar ciência e natureza. “O conhecimento torna-se mais relevante quando é experienciado”, afirma. “Atividades abertas ao público permitem traduzir ciência em experiências acessíveis, despertando curiosidade e compreensão.”

No final, o objetivo passa por fazer com que os visitantes saiam do Jardim Botânico a olhar para as plantas de forma diferente, não apenas como cenário, decoração ou paisagem, mas como parte essencial da vida quotidiana e do equilíbrio do planeta. “Gostaríamos que levassem um olhar renovado sobre as plantas – mais atento, mais curioso e mais informado. E, idealmente, que saíssem com vontade de contribuir, no seu dia a dia, para a proteção da biodiversidade e a sustentabilidade do planeta", conclui Teresa Girão.