O desafio de atrair jovens para a agricultura, “a profissão que vai ter sempre futuro”
Ao longo dos dois dias de emissão do Conta Lá, do arranque da Feira Nacional de Agricultura muito se falou sobre os desafios da agricultura. No último debate do dia discutiu-se se o futuro do setor, a tecnologia e a renovação geracional.
O painel de conversa “Futuro e Tecnologia” do Conta Lá no CNEMA, Centro Nacional de Exposições e Mercados Agrícolas, juntou José Azoia, Agricultor e especialista em agricultura regenerativa, João Matamouros Pinto, da Rovensa Next Portugal e Pedro Miguel Santos, da Consulai, uma Consultora especializada em agronegócio.
O primeiro tema falado prende-se com uma das abordagens mais usadas hoje em dia, a agricultura regenerativa. O jovem agricultor José Azoia, um dos convidados deste painel, começou por resumir o conceito no qual é especialista: na agricultura regenerativa trabalha-se com a principal ferramenta, o solo. Regenerar o solo, implica voltar às origens, mas com novas ferramentas e o agricultor acredita que esta abordagem é o caminho certo para o futuro do setor.
“Estamos a pegar muito em técnicas antigas mas com uma grande componente tecnológica que hoje em dia nos dá o suporte técnico e científico de que estas técnicas são eficazes”, explica José Azoia no debate moderado pela jornalista Estela Machado.
E se para alguns é difícil explicar o uso de tecnologia na agricultura, Pedro Miguel Santos, da Consulai, uma empresa que “apoia todos os agentes que querem e pretendem modernizar e dar mais competitividade ao setor”, desmistifica o conceito: “pensamos logo em drones, sensores, mas na verdade a tecnologia no nosso setor é intrínseca à própria agricultura e passa por estes modelos de intensificação sustentável e de agricultura regenerativa, implica muito saber e conhecimento. Quando pensamos em novas variedades, bio-soluções, técnicas de colheita, dados, estamos a falar de tecnologia”.
O responsável da empresa afirma que Portugal tem tido uma adoção bastante interessante das ferramentas tecnológicas, mas que “apesar de tudo ainda é muito assimétrica” porque têm sido mais implementadas por agricultores com grandes explorações. Como causas para a pouca aposta na tecnologia identifica a fragmentação da propriedade, o envelhecimento da população agrícola e a pouca capacidade de investimento do país.
João Matamouros Pinto, em representação da Rovensa Next Portugal, uma plataforma especializada em soluções biológicas para a agricultura, relembra os desafios atuais do setor: “somos cada vez mais forçados a produzir mais com menos, a preços mais baixos (...) mas o desafio é muito complexo porque passa não só pelas exigências da fileira produtiva como pelas exigências do consumidor que pede cada vez mais qualidade a preços mais baixos”.
E se um dos temas em destaque na agenda pública é o aumento do preço dos fertilizantes, esta empresa apresenta soluções biológicas que desenvolveu, à base de óleo de laranja “que permitem substituir, complementar ou otimizar outras soluções e é transversal a um conjunto de culturas”.
Mas João Matamouros Pinto abordou outro obstáculo, o da fixação de talento jovem.
“Encontramos alguma dificuldade em fazer recrutamento e captação de talento mas é possível (...) a atividade produtiva obriga a quem está nela a ter um conjunto de valências de tal forma transversal e exigentes que tem de estar permanentemente atualizado e ter um conjunto de conhecimentos” que não se comparam aos de antigamente, esclarece.
José Azoia, que confessa que se instalou na agricultura “graças ao PDR” reitera a ideia, afirmando que “não temos jovens a vir para a nossa agricultura”. O jovem agricultor apela a que as pessoas deixem “a ideia de que a agricultura é uma atividade retrógrada, estamos na ponta da tecnologia, estamos na ponta da defesa do ambiente, não há ninguém que defenda mais o ambiente que não sejam os agricultores e somos a profissão que vai ter sempre futuro”.
O painel de conversa terminou com uma reflexão sobre a percepção da sociedade face ao setor agrícola.
Pedro Miguel Santos diz que “é importante deixar de passar a mensagem de que a agricultura é uma arte de empobrecer alegremente, é uma imagem absolutamente negativa do setor e não é verdade, é possível viver muito bem da agricultura”
Afirma ainda que nos últimos anos o setor têm englobado profissionais de várias áreas, em muitas explorações vê “engenheiros informáticos, de dados, aeroespaciais, as mais variadas competências estão a ser trazidas para a agricultura”.
O Conta Lá acompanha a maior feira de agricultura do país que decorre no CNEMA até dia 14 de junho.