O futuro de “um falso interior”: Lousã quer atrair pessoas, talento e investimento

O programa Estrada Nacional 2 parou esta sexta-feira em Lousã. Durante o debate, Lousã apresentou-se como um território que procura contrariar a ideia de “falso interior” através da criatividade, da regeneração das aldeias, da cultura, do investimento e da atração de novos habitantes.
Sofia Dias Olmedo
Sofia Dias Olmedo Jornalista
08 mai. 2026, 13:29

Ao quilómetro 261 da Estrada Nacional 2, Lousã recebeu o 15.º dia do programa Estrada Nacional 2 com um debate que acabou por refletir aquilo que a própria estrada representa: uma travessia entre memória e futuro, tradição e inovação, litoral e interior. Falou-se de criatividade, empreendedorismo, regeneração de aldeias, publicidade, cultura e qualidade de vida.

Grande parte da conversa passou inevitavelmente pelo Licor Beirão e pela história da marca que nasceu na Lousã. José Redondo recordou que “o Licor Beirão começou com uma história de amor” entre a sua mãe e o seu pai, e descreveu este último, o fundador da empresa, como alguém que muitos consideram “o pioneiro do marketing”. 

Num tempo em que a publicidade estava longe da dimensão atual, as estratégias eram simples, mas eficazes. “Ele ia a Lisboa trabalhar com os distribuidores e normalmente levava 2 ou 3 amigos com ele e a sua obrigação era irem a meia dúzia de cafés pedir Licor Beirão”, contou, descrevendo uma espécie de marketing espontâneo antes mesmo de o conceito existir.

A irreverência da marca também nascia da personalidade do fundador. “Ele era um homem do reviralho”, ou seja “era contra tudo o que Salazar fazia”, lembrou José Redondo, numa intervenção em que ficou evidente o peso que a publicidade teve no crescimento da empresa. “Chegaram a avisar para ele parar com a publicidade porque senão ia abrir falência”, disse. 

Ainda assim, a aposta manteve-se ao longo das décadas. “O valor que gastamos em publicidade é uma grande percentagem das vendas, mas temos o retorno”. E acrescenta: “quando as empresas têm crise, o primeiro que costumam fazer é cortar na publicidade. Nós nunca faríamos isso”.

Hoje, o Licor Beirão vende cerca de oito milhões de garrafas por ano, mas José Redondo reconhece que a marca precisou de se reinventar. “Segui o negócio do meu pai. Mas não podia continuar a seguir as pisadas exatas do meu pai em certos aspetos. Houve uma renovação da marca”, explicou.

Foi nesse contexto que surgiu o “Caipirão”, pensado para aproximar a bebida de públicos mais jovens. “Começámos a pensar numa dinâmica mais jovem através da invenção do Caipirão”, afirmou, acrescentando que “há momentos em que se tem de dar as rédeas da criatividade aos mais novos”.

Essa capacidade de comunicação e reinvenção foi destacada também por José Serra, fundador da Silveira Tech, que apontou o Licor Beirão como um caso raro de inteligência publicitária em Portugal. Para o empreendedor, “o Licor Beirão tem mérito ao fazer um jogo de guerrilha na publicidade”. 

 

Devolver vida às aldeias de um “falso interior”

O debate acabou por avançar naturalmente para a questão do interior e da desertificação. José Serra defendeu que recuperar aldeias não pode significar apenas criar alojamentos turísticos: “A recuperação de uma aldeia não é simplesmente recuperar casas e alugá-las a turistas. A aldeia tem de produzir riqueza”, afirmou.

O projeto Silveira Tech procura precisamente criar comunidades onde as pessoas possam viver e trabalhar remotamente. “As pessoas vão para lá para trabalhar, importa haver um espaço de coworking. A aldeia vai ganhar vida por essa via”, explicou.

Na sua perspetiva, Portugal nem sequer tem um interior verdadeiramente distante. “O nosso interior é um interior falso. O percurso mais distante que se percorre é 200 km”, disse, defendendo que o problema passa sobretudo pela falta de oportunidades e de condições para fixar pessoas fora dos grandes centros urbanos. 

“Resolver o problema da habitação em grandes centros urbanos passa por atrair pessoas ao interior”, afirmou, acrescentando que “pessoas com menos dinheiro conseguem ter uma casa muito melhor no interior.”

José Redondo partilhou uma visão semelhante sobre a importância das acessibilidades. Para o empresário, “ao não haver acessos é que o interior se torna mesmo interior. Não havia necessidade de o ser”.

 

A preservação da serra através da cooperação e de atividades culturais e desportivas

A regeneração das aldeias da serra foi outro dos temas centrais da conversa. Catarina Serra, cofundadora do projeto Cerdeira, explicou que viver e trabalhar numa aldeia implica inevitavelmente uma lógica comunitária. 

“Existe uma espécie de comunidade em que todos têm de zelar pelo bem da aldeia”, afirmou. Numa zona particularmente vulnerável aos incêndios, essa responsabilidade coletiva torna-se ainda mais evidente. “Quando temos um projeto numa aldeia aqui não podemos ignorar o vizinho”, disse.

Sérgio Alves, diretor executivo do projeto, insistiu na necessidade de respeitar a identidade da serra. “Não faz sentido termos um projeto que não enquadre no seu contexto. Nós é que nos temos de adaptar às condições da serra, da fauna e da flora”, afirmou. O grande desafio, acrescentou, está em encontrar “equilíbrio entre autenticidade e crescimento num lugar que não deve perder a alma”.

A dimensão cultural e identitária da serra surgiu através da intervenção do músico e compositor João Francisco, que se dedica à recolha de histórias e rituais antigos das aldeias de xisto. 

Num registo diferente, José Redondo falou ainda da ligação improvável da Lousã ao rugby. “O Rugby é o desporto rei de Lousã”, afirmou, recordando os primeiros tempos em que tentou introduzir a modalidade na vila. “Os meus alunos riram-se todos por verem uma bola torta!”, contou. Ainda assim, “a partir daí criou-se um núcleo, um clube” e a modalidade acabaria por ganhar raízes profundas no concelho.

 

Investimento numa região que se encontra “no limbo entre litoral e interior”

O presidente da Câmara Municipal da Lousã, Vítor Carvalho, destacou o potencial da Estrada Nacional 2 enquanto eixo turístico e económico. “A rota da N2 é uma rota que tem muito por explorar, muito investimento a ser feito”, afirmou, revelando existir “uma aposta clara na melhoria daquela estrada e em transformar aquela rota numa rota turística”.

O autarca sublinhou ainda a importância de captar investimento e novos habitantes para o concelho. “Queremos afirmar o território como um bom destino para empreender e para viver”, disse, acrescentando que “90% dos contactos” feitos pelo município com investidores “foram concretizados”.

Outro dos temas centrais foi o Metro Mondego, cuja operação arrancou recentemente. Apesar dos danos provocados pelas tempestades do inverno, Vítor Carvalho garantiu que “as primeiras análises que são feitas de forma mais interna dizem-nos que o serviço está a ser um sucesso, que está a ter uma enorme procura”.