REN alerta para atrasos nos projetos energéticos devido a “protesto autárquico”

A REN prevê quase duplicar a construção de ligações energéticas este ano, mas alerta que a demora nos licenciamentos e o “protesto autárquico” continuam a dificultar a execução dos projetos. Rodrigo Costa, CEO da empresa, reconhece que a contestação local às linhas de alta tensão é um problema generalizado no país e defende mais diálogo com o poder local.
Redação
Redação
02 jan. 2026, 10:58

Poste de alta tensão

O presidente executivo da REN – Redes Energéticas Nacionais, Rodrigo Costa, admite que a oposição das autarquias tem provocado atrasos na concretização de vários projetos energéticos, apesar de a empresa não enfrentar constrangimentos financeiros ou de recursos humanos. Em entrevista ao Expresso, publicada esta sexta-feira, o gestor sublinha que a principal preocupação da REN está nos licenciamentos e na contestação local.

“Não há possibilidade de fazer projetos que não estejam licenciados”, afirmou o CEO, explicando que, para além da demora nos processos administrativos, existe também resistência por parte do poder local. “Às vezes temos os terrenos, as licenças ambientais estão concedidas, mas temos atrasos que provêm do protesto autárquico. Por vezes tem legitimidade, mas muitas vezes também acontece para cativar o apoio das populações.”

Apesar disso, Rodrigo Costa considera que se trata de um problema relativamente generalizado no país, associado à rejeição social das infraestruturas energéticas. “Ninguém gosta de ver linhas de alta tensão, ninguém gosta que seja construída uma torre na sua propriedade ou na sua linha de vista. Compreendemos isso tudo. Mas as pessoas e as autarquias também têm de aceitar que a energia é necessária”, frisou, acrescentando que “não podemos querer ter eletricidade em alguns locais sem que as linhas passem pela propriedade de alguém”.

O CEO da REN recorda ainda que o transporte de eletricidade implica impactos inevitáveis. “A energia tem um custo. Quando é inverno, as linhas fazem barulho. É um barulho chato, ninguém gosta, mas não há forma de transportar energia elétrica sem ser por linhas de alta tensão.”

Construção de ligações pode duplicar em 2026

Para este ano, a REN prevê construir cerca de 430 quilómetros de ligações energéticas, quase o dobro dos 250 quilómetros executados em 2025, com especial enfoque no eixo de Sines e no do Fundão. “Não temos neste momento qualquer dificuldade financeira, nem em termos de recursos humanos. Estamos bem preparados. A grande preocupação é o licenciamento, é ter a certeza de que todos os projetos avançam”, afirmou.

Questionado sobre a forma de ultrapassar a oposição das autarquias, Rodrigo Costa destacou a importância do diálogo. “Temos tido alguma evolução positiva e acabamos por conseguir construir os projetos, com algumas alterações do percurso. Temos equipas na REN que fazem esse trabalho de contacto com as autarquias à procura de soluções.” Admitiu ainda que “as contrapartidas de apoio a projetos das autarquias ajudam a que se consiga encontrar soluções”, sublinhando, no entanto, que “a decisão é do Governo e do regulador, não é a REN que decide as compensações dadas pela passagem das linhas”.