Roupa em segunda mão: “Comprar 20 peças por um euro não é consumo consciente"

Crescimento da procura por roupa em segunda mão levanta dúvidas até por profissionais do setor. Entre a sustentabilidade real e o consumo guiado por tendências, muito à boleia das redes sociais, abre-se a discussão sobre onde termina a consciência e começa o consumo por estar na moda.
 
João Nogueira
João Nogueira Jornalista
26 jan. 2026, 07:01

É segunda-feira, o relógio marca quase 10 horas da manhã. Estamos na Rua Alexandre Braga, no coração do Porto. De um lado, o histórico mercado do Bolhão, do outro uma loja de roupa em segunda-mão. Em frente à porta do espaço, dezenas de pessoas fazem fila até à abertura. Não são saldos ou uma liquidação. Muito pelo contrário, é o dia de lançamento de uma nova coleção de roupas em segunda-mão.

Hoje, no Porto, este cenário é cada vez mais recorrente: lojas cheias ao fim de semana, jovens à espera do dia de reposição e novas coleções, turistas que entram porque viram um vídeo no TikTok. A roupa usada deixou de ser sinal de falta e passou a ser, para muitos, sinal de consciência, seja ela ambiental, económica ou puramente estética.

Há uma década, este consumo também existia, mas era um gesto feito em silêncio. Atualmente, é uma prática visível e assumida, cada vez mais comum, impulsionada por novos públicos e valores e um mercado em crescimento.

É inegável que as lojas de roupa em segunda mão estão a crescer e os números confirmam-no. Em 2024, só uma das maiores redes do setor, a Humana, vendeu quase três milhões de peças em Portugal. Mas já lá vamos.

A mudança não aconteceu por acaso nem de um dia para o outro. Resulta do cruzamento entre crises económicas sucessivas, aumento do custo de vida, saturação da fast fashion e uma nova relação com o consumo. No centro da cidade, esta transformação é visível a cada esquina. Só no Porto, a Humana já conta com seis lojas. No país são mais de 20.

“Aquilo que sentimos é um crescimento claro e sustentado do interesse pela segunda mão”, afirma ao Conta Lá a responsável de comunicação da Humana Portugal, Filipa Rosa. “Mas o mais significativo é a quebra do preconceito. Há dez anos, ainda havia resistência. Hoje já não é assim”.

A Humana é uma das protagonistas deste movimento. Foi fundada na Dinamarca e em Portugal está desde 1998. Só em 2024, a Humana em Portugal recolheu 3.905 toneladas de roupa e colocou no mercado quase três milhões de peças.

Os números ajudam a perceber a escala do fenómeno, mas não contam toda a história. Entre a sustentabilidade ou o preço mais em conta, também há uma questão que se levanta: “será uma moda impulsionada pelas redes sociais?”.

“Há quem venha por motivos ambientais e quem venha porque precisa mesmo”, explicou Filipa Rosa. Essa diversidade de perfis sente-se claramente entre as várias lojas. 

No Porto, os espaços são preenchidos por estudantes, residentes antigos, imigrantes e turistas. Mas há um público que se destaca: os jovens.

“Sentimos muito isso na loja Vintage”, conta Mónica Monteiro, responsável pelas lojas da Humana no Porto. Localizada junto ao Bolhão, a Humana Vintage abriu em 2022, depois da marca perceber que o segmento já não cabia dentro das lojas familiares. “Havia uma procura muito específica. O vintage deixou de ser um nicho.”

Hoje, a loja funciona quase como um ponto de passagem obrigatório. “É das lojas com mais entradas na cidade”, diz Mónica. “E temos muitos clientes estrangeiros. Em certas alturas, metade fala inglês”, continuou.

A atração pelas peças está tanto na estética como na promessa de diferença. “As pessoas procuram peças únicas, coisas que não encontram nas grandes cadeias”, explica. “E também há nostalgia. Temos clientes mais velhos que entram aqui com os filhos e dizem: ‘eu usei isto nos anos 90’.”

A qualidade é outro argumento recorrente: “Há materiais que já nem se encontram. Tecidos mais resistentes, cortes diferentes”, acrescenta Mónica.

 

Vintage japonês e o “estar na moda”

Foto: Lígia Sousa a segurar um kimono vintage no seu estabelecimento no centro do Porto

Mas o universo da segunda mão no Porto não se esgota nas grandes cadeias. A poucos minutos dali, na zona dos Poveiros, a Mão Esquerda representa um modelo distinto: mais pequeno e pessoal.

“Aqui é sempre vintage”, afirma Lígia Sousa, fundadora da loja que está ali há oito anos, mas começou há 12. “As peças recentes são raríssimas. Normalmente trabalhamos com peças até ao ano 2000.”

Grande parte da roupa vem do Japão e é a própria Lígia que seleciona as peças. “Sou eu que vou lá buscar, mas aproveito as viagens como férias”, explica, antecipando uma das críticas mais frequentes: a sustentabilidade do transporte. “Percebo o argumento, mas tento minimizar o impacto.”

Aberta há quase 12 anos, a Mão Esquerda cresceu com a cidade. “No início, quase só vinham estrangeiros ou pessoas muito específicas”, recorda. “Hoje, entra muita gente que nem percebe logo que é uma loja de segunda mão”.

Para Lígia, o aumento da procura traz também contradições. “Há quem venha por consciência ambiental, há quem venha porque gosta mesmo e há quem venha porque está na moda”, diz. “A sustentabilidade também pode ser uma trend”, continua.

Essa tendência preocupa-a. “Comprar vinte peças por um euro não é consumo consciente, mesmo que seja em segunda mão. É repetir a lógica da fast fashion”.

A crítica é partilhada por quem trabalha no setor. “Uma peça reutilizada tem um impacto ambiental cerca de sete vezes inferior ao de uma peça nova”, sublinha Filipa Rosa que remata: “Mas só faz sentido se for usada durante muito tempo”.

O paradoxo é claro: a segunda mão cresce como resposta ao excesso de produção, mas pode, em certos casos, alimentar o mesmo ciclo de consumo rápido que pretende combater.

 

Peças fazem grande viagem e passam por triagem

Foto: Ármazem de triagem da Humana em Madrid

A viagem de uma peça, na Humana, começa, muitas vezes, num contentor de doação anónimo, espalhado pelas cidades. 

Dali segue para um centro logístico em Alcochete e depois para Madrid, onde é sujeita a uma triagem manual exaustiva. “Dividimos a roupa em cerca de 90 categorias”, explicou Filipa Rosa ao Conta Lá. “Avalia-se o estado, o tipo, a qualidade. O objetivo é maximizar a reutilização.”

As peças em melhor estado regressam às lojas. Outras entram em sistemas de desconto progressivo, como o “countdown”, em que o preço vai descendo ao longo das semanas. “Tentamos garantir acesso a diferentes públicos”, disse.