Técnicos de intervenção social partilham “Histórias do Fim do Mundo” bem próximas
Quando começou a trabalhar num bairro onde há uma numerosa comunidade cigana, uma técnica de intervenção social conta que pensou se seria seguro estar ali sozinha. Passada uma década, verbaliza esse preconceito infundado que sentiu e sublinha que é da relação e do conhecimento que se tem com a realidade que se pode aspirar a deixar de ter juízos de valor generalizados.
Esta é uma das “Histórias do Fim do Mundo”, que podem ser ouvidas no espaço público, de profissionais que trabalham com pessoas em situação de vulnerabilidade nos concelhos da Covilhã, Gouveia, Vila Real, Porto e Bragança. Estão acessíveis através da leitura de um QR Code impresso em autocolantes espalhados por todo o país e pretendem alertar para as desigualdades sociais e territoriais observadas por quem intervém nessa área.
“A nossa expectativa é que mais pessoas percebam o que é o trabalho de intervenção social e a sua importância para uma sociedade mais justa e democrática, porque há centenas de equipas por todo o país a trabalhar nas mais variadas áreas sociais”, acentua, em declarações ao Conta Lá, Rosa Carreira, cofundadora da cooperativa de intervenção social Coolabora, quem tem o raio de ação na Covilhã, Fundão e Belmonte.
Até ao momento estão disponíveis curtos e ilustrativos testemunhos de 13 pessoas nos cinco concelhos abrangidos, mas prevê-se que mais “Histórias do Fim do Mundo” se vão juntando à campanha. “O conhecimento não tem que ver com necessidade de protagonismo ou de reconhecimento. Tem que ver com a necessidade de dar mais visibilidade a esta área de trabalho e assim dar-lhe força”, realça Rosa Carreira.

O telemóvel aponta para o código num autocolante num poste no centro da Covilhã e escuta-se uma outra técnica que partilha o dia em que ouviu o lamento de uma mulher em situação de pobreza extrema por a casa não ter condições para poder receber visitas da filha e, por isso, o contacto não ser próximo.
Segundo Rosa Carreiro, esse é um exemplo de “como uma conversa com uma mulher em situação de exclusão grave pode impactar de forma duradoura uma técnica de intervenção social na sua perceção do próprio trabalho” e como a experiência no terreno obriga a colocarem-se no lugar do outro para conseguirem fazer melhor o seu trabalho.
Além de alertar para as desigualdades sociais e para os seus impactos, a campanha “Histórias do Fim do Mundo” pretende promover a escuta e a reflexão sobre “as inúmeras histórias e vivências, inacreditáveis e invisibilizadas, que emergem do trabalho quotidiano destes e destas profissionais e das vidas das pessoas com quem trabalham, traduzindo as suas realidades, saberes e culturas”.
Os autocolantes com o QR Code têm estado a ser espalhados pelo país, com o intuito de ter uma rede de escuta acessível e distribuída em todo o território nacional. A iniciativa resultou de um desafio do projeto ProActCoP: Co-criar Conhecimento sobre/e ação para a Mudança nas Regiões do Interior, em parceria com a Universidade do Porto e entidades como a Coolabora, o Grupo Aprender em Festa de Gouveia e a EAPN Portugal.