O desafio de atrair jovens para a agricultura, “a profissão que vai ter sempre futuro”

Cada vez mais são levantadas questões na atividade agrícola sobre a atratividade, a fixação de talento jovem e o futuro do setor com a aplicação de tecnologia. Os temas foram abordados no espaço de conversa da tarde da emissão especial do Conta Lá, na FNA26.
Joana Amarante
Joana Amarante Jornalista
07 jun. 2026, 19:26

Ao longo dos dois dias de emissão do Conta Lá, do arranque da Feira Nacional de Agricultura muito se falou sobre os desafios da agricultura. No último debate do dia discutiu-se se o futuro do setor, a tecnologia e a renovação geracional. 

O painel de conversa “Futuro e Tecnologia” do Conta Lá no CNEMA, Centro Nacional de Exposições e Mercados Agrícolas, juntou José Azoia, Agricultor e especialista em agricultura regenerativa, João Matamouros Pinto, da Rovensa Next Portugal e Pedro Miguel Santos, da Consulai, uma Consultora especializada em agronegócio.

O primeiro tema falado prende-se com uma das abordagens mais usadas hoje em dia, a agricultura regenerativa. O jovem agricultor José Azoia, um dos convidados deste painel, começou por resumir o conceito no qual é especialista: na agricultura regenerativa trabalha-se com a principal ferramenta, o solo. Regenerar o solo, implica voltar às origens, mas com novas ferramentas e o agricultor acredita que esta abordagem é o caminho certo para o futuro do setor.

“Estamos a pegar muito em técnicas antigas mas com uma grande componente tecnológica que hoje em dia nos dá o suporte técnico e científico de que estas técnicas são eficazes”, explica José Azoia no debate moderado pela jornalista Estela Machado. 

E se para alguns é difícil explicar o uso de tecnologia na agricultura, Pedro Miguel Santos, da Consulai, uma empresa que “apoia todos os agentes que querem e pretendem modernizar e dar mais competitividade ao setor”, desmistifica o conceito: “pensamos logo em drones, sensores, mas na verdade a tecnologia no nosso setor é intrínseca à própria agricultura e passa por estes modelos de intensificação sustentável e de agricultura regenerativa, implica muito saber e conhecimento. Quando pensamos em novas variedades, bio-soluções, técnicas de colheita, dados, estamos a falar de tecnologia”.

O responsável da empresa afirma que Portugal tem tido uma adoção bastante interessante das ferramentas tecnológicas, mas que “apesar de tudo ainda é muito assimétrica” porque têm sido mais implementadas por agricultores com grandes explorações. Como causas para a pouca aposta na tecnologia identifica a fragmentação da propriedade, o envelhecimento da população agrícola e a pouca capacidade de investimento do país. 

João Matamouros Pinto, em representação da Rovensa Next Portugal, uma plataforma especializada em soluções biológicas para a agricultura, relembra os desafios atuais do setor: “somos cada vez mais forçados a produzir mais com menos, a preços mais baixos (...) mas o desafio é muito complexo porque passa não só pelas exigências da fileira produtiva como pelas exigências do consumidor que pede cada vez mais qualidade a preços mais baixos”.

E se um dos temas em destaque na agenda pública é o aumento do preço dos fertilizantes, esta empresa apresenta soluções biológicas que desenvolveu, à base de óleo de laranja “que permitem substituir, complementar ou otimizar outras soluções e é transversal a um conjunto de culturas”. 

Mas João Matamouros Pinto abordou outro obstáculo, o da fixação de talento jovem.

“Encontramos alguma dificuldade em fazer recrutamento e captação de talento mas é possível (...) a atividade produtiva obriga a quem está nela a ter um conjunto de valências de tal forma transversal e exigentes que tem de estar permanentemente atualizado e ter um conjunto de conhecimentos” que não se comparam aos de antigamente, esclarece.

José Azoia, que confessa que se instalou na agricultura “graças ao PDR” reitera a ideia, afirmando que “não temos jovens a vir para a nossa agricultura”. O jovem agricultor apela a que as pessoas deixem “a ideia de que a agricultura é uma atividade retrógrada, estamos na ponta da tecnologia, estamos na ponta da defesa do ambiente, não há ninguém que defenda mais o ambiente que não sejam os agricultores e somos a profissão que vai ter sempre futuro”. 

O painel de conversa terminou com uma reflexão sobre a percepção da sociedade face ao setor agrícola. 

Pedro Miguel Santos diz que “é importante deixar de passar a mensagem de que a agricultura é uma arte de empobrecer alegremente, é uma imagem absolutamente negativa do setor e não é verdade, é possível viver muito bem da agricultura” 

Afirma ainda que nos últimos anos o setor têm englobado profissionais de várias áreas, em muitas explorações vê “engenheiros informáticos, de dados, aeroespaciais, as mais variadas competências estão a ser trazidas para a agricultura”. 

O Conta Lá acompanha a maior feira de agricultura do país que decorre no CNEMA até dia 14 de junho.