Sara Sapateiro, a mais jovem barrista certificada nos Bonecos de Estremoz: “O artesanato continua muito vivo e é pena não haver mais apoios"
A identidade da cidade de Estremoz, no distrito de Évora, molda-se numa arte cuja existência remonta ao século XVIII. As primeiras referências datam por volta de 1770, numa terra abundante em barro, em que as mulheres aproveitavam este material para criar figuras religiosas, santinhos a quem se prestava devoção e que marcavam presença assídua nas casas alentejanas.
Num trabalho que não era reconhecido enquanto ofício na época, hoje, três séculos depois, a arte ganha significado com o reconhecimento da produção de Figurado em Barro de Estremoz enquanto Património Cultural Imaterial da UNESCO desde 2017. São atualmente 16 os artesãos a assumir este ofício, entre eles Sara Sapateiro, a mais jovem barrista certificada a produzir os Bonecos de Estremoz.
“A primeira vez que eu tive contato com os bonecos foi na escola, aos oito anos. É costume aqui aprender sobre a história do boneco e no fim fazíamos um apito”, recorda ao Conta Lá.
A artesã confessa que depois dessa experiência não teve mais contacto com a arte até que chegou o dia, 14 anos depois: “Ao conhecer a minha sogra, em 2015, ela já faz Bonecos de Estremoz há mais de 30 anos e percebeu que eu gostava de artes, começou a puxar por mim, eu experimentei, fiz umas peças que nem sequer terminava mas três anos depois, com 22 anos, decidi que me ia dedicar a isto a tempo inteiro”.
Foi em 2024 que a jovem se tornou na mais jovem barrista certificada no Figurado em Barro de Estremoz. “Estive sempre a aprender, fiz também uma formação sobre a Olaria de Estremoz, essa está mesmo em extinção”, explica
Tal como na escola, a primeira peça que produziu enquanto artesã foi um apito, mas hoje são entre as mais de 100 figuras inventariadas que vai replicando a tradição, sempre com um toque próprio.
“Os bonecos contam o quotidiano do Alentejo, da vida rural, da história. O que faço mais e o que mais me pedem são os amores cegos e as primaveras. Também figuras religiosas, o Santo António, os presépios, é o que tem mais saída”, refere.
No caso de “Amor é Cego”, uma das peças centrais desta arte alentejana, representa-se um cupido com olhos vendados. Já na “Primavera” a figura ostenta um arco decorado com flores de cores vivas. Há ainda os “Fidalgos”, numa representação humorística e alegórica das classes mais abastadas e da burguesia, com trajes garridos e uma sátira à elite com toque de crítica social.
Tudo peças que exigem habilidade mas também paciência, num “processo moroso”, diz Sara Sapateiro. “Demora cerca de quatro, cinco dias a fazer. Primeiro, temos que modelar a figura, normalmente, nunca faço só uma peça de uma vez, faço logo duas ou três. Depois há tempos de secagem que temos de respeitar, para conseguir monta o corpo sem estragar”, detalha.
Com barro que vai buscar a Reguengos de Monsaraz, uma vez que os tempos áureos de extração de barro em Estremoz ficaram lá atrás, cada peça “primeiro seca ao ar para tirar a humidade, depois vai a uma cozedura que dura 24 horas a 950 graus". "E depois de cozer ainda há a fase da pintura, em que temos de pintar tudo à mão, com as tintas de água”, continua a artesã.
Um trabalho minucioso e cada dia mais reconhecido, graças à distinção da UNESCO e à “crescente procura e informação já da parte do cliente” mas que ainda não permite ser fácil “viver do artesanato”.
“É mesmo o gosto que se tem pelo que se faz, eu adoro os bonecos”, admite Sara Sapateiro, que alimenta esta paixão “num quarto a mais" que tem em casa e com a ajuda da sogra.
Aos 30 anos, a artesã apela a mais apoios para manter vivas tradições como a dos Bonecos de Estremoz.
“Em Portugal o artesanato continua muito vivo e é a pena não haver mais apoios. É importante haver apoios para os jovens também continuarem com as tradições, pelo menos para iniciarem a aprendizagem, porque normalmente são coisas que levam anos até a pessoa ficar a fazer um trabalho minimamente razoável, e se a pessoa não tiver apoios, não for incentivada, é muito mais difícil. E acho que por isso é que também, muitas das vezes, as tradições acabam por se irem perdendo um pouco”, expõe.
No caso de Sara Sapateiro, a artesã espera conseguir vir a ter um atelier próprio. Para já, a mais recente conquista foi ver os seus trabalhos expostos no Centro Interpretativo para a Valorização e Salvaguarda do Boneco de Estremoz, com a mostra “Moldar o Legado”, patente até ao dia 21 de junho.