Anafre alerta para lacunas no PTRR: “É necessário mais apoio às freguesias e falta financiamento para desobstrução de vias"

A Associação Nacional de Freguesias elogia medidas do PTRR para comunicações, mas alerta para a falta de financiamento para equipamentos essenciais em catástrofes. Apesar do reforço tecnológico previsto, as freguesias dizem continuar sem meios para desobstruir vias em situações de emergência.
Agência Lusa
Agência Lusa
29 abr. 2026, 14:34

O presidente da Associação Nacional de Freguesias alertou esta quarta-feira que falta no PTRR financiamento para equipamentos de desobstrução de vias em caso de catástrofe e considerou positivas as medidas para que todas as freguesias tenham sistemas de comunicação.

Em declarações à Lusa, Francisco Branco de Brito considerou “muito positiva” a inclusão no PTRR - Portugal, Transformação, Recuperação e Resiliência de medidas “fundamentais” que dizem respeito à comunicação e à energia, “reivindicações que a Anafre tinha manifestado ao Governo”.

Segundo o plano, para assegurar “comunicações locais mesmo em cenários de falha das infraestruturas terrestres”, ainda em 2026 será desenvolvido o programa nacional “Freguesias Ligadas”, dotando todas as freguesia de um conjunto mínimo de meios de comunicação redundantes: um telefone SIRESP (sistemas nacionais de comunicações de emergência), um telefone-satélite e uma ligação de dados Starlink.

“Precisamos de resolver esta situação rapidamente. Estes telefones SIRESP são uma resposta e é por isso que os sistemas de comunicação Starlink também são uma ajuda. Até porque já foram testados, foram a resposta que rapidamente conseguiu ser encontrada no terreno para conseguir responder a esta matéria e é por isso que vemos também com bons olhos que estejam incluídos nesta proposta”, disse.

O autarca salientou que, durante as tempestades ocorridas em janeiro e fevereiro, foi muito sentida a falta de meios de comunicação, quando muitas localidades ficaram isoladas e os presidentes das Junta de Freguesia “foram a entidade no terreno que conseguiu gerir esta situação com os poucos meios que tinham”. Muitos deles “sentiram a dificuldade em conseguir comunicar com os serviços municipais de proteção civil”.

Francisco Branco de Brito salientou, contudo, que o plano não contempla outra das reivindicações da Anafre - uma linha de financiamento para que estas autarquias possam comprar equipamento para desobstrução de vias, necessidade que se sentiu muito no terreno e ainda se sente.

“Ainda não houve oportunidade de ter essa linha no PTRR, vamos continuar em diálogo com o Governo para que possa ser criado esse financiamento por outra via, porque entendemos que é necessário e que ficou provado que será um investimento certeiro numa resposta que o país precisa de ter”, defendeu.

Francisco Branco de Brito exemplificou com o concelho de Ourém, no distrito de Santarém, onde a associação esteve há pouco tempo e que ainda “tem 600 quilómetros de vias florestais por desimpedir”.

“Já tem investimento para o fazer, o município já está em articulação com as freguesias, mas, se as freguesias já tivessem essa capacidade, este problema seria muito menor e já estaria a resposta no terreno desde a primeira hora”, considerou.

“Nós precisamos ter uma resposta mais robusta do ponto de vista das freguesias e para isso precisamos naturalmente de financiamento”, acrescentou, realçando que “foi com a ajuda de populares e com os seus meios que se conseguiu desimpedir muitas das vias que ficaram impedidas com a tempestade”.

Em relação às linhas gerais do plano, o representante considerou que é fundamental que o Estado consiga estar mais bem preparado para estas situações, como o apagão de há um ano e as tempestades, outras catástrofes que possam surgir, sismos e incêndios rurais e urbanos.

“O PTRR parece um programa inteligente para conseguir responder, tendo em conta todo este contexto e tendo em conta que estamos a falar de uma grande máquina, que é o Estado, e a dificuldade enorme que o nosso país tem do ponto de vista de financiar o que quer que seja”, considerou o autarca social-democrata.

O PTRR - anunciado pelo Governo em fevereiro, na sequência das tempestades que fizeram 19 mortos e centenas de desalojados, sobretudo nas regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo - vai ter um envelope financeiro global de 22,6 mil milhões de euros e um horizonte temporal até 2034.

O montante resulta de fundos públicos nacionais (37%), financiamento privado (34%) e fundos europeus (19%), de acordo com um documento síntese distribuído na apresentação, que decorreu no Pavilhão de Portugal, em Lisboa.

O PTRR está dividido em três pilares (recuperar, proteger e responder), 15 domínios e 96 medidas.

Para responder a calamidades, o plano prevê 46 milhões de euros para o reforço da comunicação das freguesias e ainda 50 milhões de euros para o reforço das capacidades digitais e tecnológicas dos municípios.