Interior continua a perder jovens apesar da vontade de ficar: "Faltam condições para construir uma vida autónoma”

Quase 80% dos jovens rurais querem ficar no interior, mas a falta de transportes, emprego e serviços públicos continua a dificultar a permanência. Um estudo europeu revela que a ligação à família e à comunidade é o principal motivo para querer continuar nestes territórios.
João Nogueira
João Nogueira Jornalista
14 mai. 2026, 11:55

A ideia de que os jovens têm que sair do interior, para estudar, trabalhar e construir as suas vidas é uma prática presente e quase óbvia no nosso país. Mas um novo estudo europeu lança conclusões que afinal esta tendência está a mudar de forma silenciosa nas zonas rurais. O problema é tudo o que falta nessas regiões.

A conclusão surge de uma investigação realizada em 14 países europeus entre 2019 e 2023, coordenada pelo professor universitário Francisco Simões, convidado do espaço de informação do programa Juca, a Objetiva.

O estudo revela que quase 80% dos jovens entre os 18 e os 30 anos pretendem permanecer nos territórios onde cresceram. Uma vontade forte e marcada sobretudo pela ligação afetiva às comunidades, mas que acaba travada por problemas de mobilidade, emprego, habitação e falta de serviços públicos.

“Os resultados foram verdadeiramente surpreendentes”, admitiu Francisco Simões. O investigador explica que os estudos internacionais das últimas duas décadas apontavam precisamente para o contrário: a saída dos jovens para os grandes centros urbanos. “O que este estudo vem mostrar é que os jovens pretendem permanecer e procuram condições nesse sentido”, afirmou.

E há uma razão central para isso: a proximidade. Família, amigos, vizinhos, apoio informal e sentimento de pertença surgem como os fatores mais fortes na decisão de ficar. “O fator mais importante para permanecer é precisamente o vínculo afetivo às comunidades”, explicou o coordenador científico do estudo.

Segundo Francisco Simões, este apoio social tem hoje um peso ainda maior porque muitos jovens enfrentam dificuldades em autonomizar-se, sobretudo nos centros urbanos, onde os custos de vida e da habitação continuam a aumentar. Nos meios rurais, apesar das limitações, existe uma rede de apoio próxima que acaba por compensar parte dessas dificuldades.

“O apoio informal tende a ser maior nos meios rurais”, explicou. E isso torna-se particularmente importante para jovens casais ou famílias em início de vida, por exemplo no apoio aos filhos ou na gestão do dia a dia.

O estudo mostra ainda que esta ligação à comunidade influencia outros aspetos fundamentais da vida dos jovens: desde a satisfação com a vida no interior até à participação em voluntariado, associações ou projetos locais. “O fator que de forma mais consistente estava relacionado com resultados positivos na transição para a vida adulta era precisamente a qualidade do apoio social”, sublinhou.

A investigação identificou a mobilidade como um dos principais bloqueios à permanência dos jovens nas zonas rurais. Muitos vivem no interior, mas trabalham diariamente em cidades próximas, dependendo quase exclusivamente do automóvel para manter essa ligação.

“Ter carro próprio foi considerado o fator mais importante para encontrar emprego”, revelou Francisco Simões. Mais importante, até, do que a experiência profissional, os contactos ou os próprios serviços públicos de emprego.

A falta de transportes públicos eficientes, sobretudo ferroviários, aparece como uma das grandes fragilidades dos territórios de baixa densidade. “Quanto mais remoto é um determinado lugar, mais crucial se torna a questão dos transportes”, alertou o investigador.

O problema agrava-se porque muitos destes jovens vivem em zonas onde os serviços públicos têm vindo a desaparecer ao longo dos anos. Encerramento de repartições, menos respostas na saúde, menos apoio social e menos estruturas de emprego acabam por aumentar o isolamento e dificultar a fixação.

E os números mostram isso mesmo: apenas 18% dos jovens inquiridos recorrem aos serviços públicos de emprego. A maioria encontra trabalho através de redes informais, familiares, amigos ou conhecidos, o que muitas vezes perpetua empregos precários, pouco qualificados e com poucas perspetivas de progressão.

“A inexistência de apoio formal dificulta a permanência”, resumiu Francisco Simões. Além da procura de emprego, o investigador lembra que estes serviços são também fundamentais na formação profissional e na reconversão de competências, sobretudo numa altura em que muitos jovens têm qualificações mais elevadas do que as oportunidades existentes nos seus territórios.

 

Falta de oportunidades de emprego

Aliás, o estudo identifica precisamente esse desfasamento: os jovens rurais estão hoje mais qualificados, mas o mercado local continua sem conseguir acompanhar essa evolução.

Perante este cenário, o coordenador científico defende políticas públicas mais próximas da realidade dos territórios rurais. E deixa três prioridades claras: melhorar acessibilidades, reforçar a participação ativa dos jovens nas comunidades e criar novos modelos de prestação de serviços públicos.

No caso português, aponta diretamente à ferrovia. “A inexistência de uma rede ferroviária mais densificada dificulta o acesso ao emprego para quem vive em zonas mais remotas”, afirmou.

Outra das soluções passa por envolver os jovens na resolução de problemas concretos das suas comunidades, criando uma ligação mais forte ao território. Segundo o investigador, os jovens que participam em projetos locais acabam por manter laços mais duradouros com o interior e, em muitos casos, regressam mais tarde.

Francisco Simões defende ainda modelos inovadores de apoio público, já aplicados noutros países europeus, como os chamados “serviços móveis”. Nestes casos, equipas ligadas ao emprego, apoio social ou saúde deslocam-se regularmente entre localidades rurais para garantir proximidade com a população jovem.

Outra hipótese passa pela criação de “portas únicas”, concentrando vários serviços num único espaço para simplificar o acesso e reduzir burocracias.

As conclusões do estudo surgem numa altura em que Portugal e Espanha avançam com o projeto transfronteiriço Cross Rural Hub, financiado com 3,2 milhões de euros de fundos europeus. O objetivo é reforçar emprego, inovação social e retenção de talento em territórios rurais de baixa densidade até 2028, através de programas-piloto e novos serviços nas regiões do interior português e da Extremadura espanhola.