“Portugal vai sempre atrás do prejuízo”: economista alerta para riscos do plano de resiliência de 22,6 mil milhões de euros
O novo programa governamental de 22,6 mil milhões de euros marca uma viragem na forma como Portugal responde a crises, mas expõe também fragilidades estruturais que continuam por resolver. A leitura é do economista Ricardo Valente, que vê uma mudança de paradigma, mas deixa avisos claros sobre riscos na execução.
Em declarações à jornalista Estela Machado, na rubrica Objetiva do programa Juca, o professor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto considerou que o plano “muda o paradigma” ao abandonar uma lógica de resposta a crises, como aconteceu com o PRR, para passar a uma abordagem de “gestão de risco”
Para o economista, esta mudança resulta de um reconhecimento implícito: “o país demonstrou que não tem capacidade de resposta” perante fenómenos como incêndios, tempestades ou falhas estruturais. “Portugal vai sempre atrás do prejuízo e não tem mecanismos de prevenção”, afirmou
A aposta passa agora por antecipar riscos e reforçar áreas críticas como a proteção civil, a cibersegurança ou as infraestruturas essenciais, numa tentativa de preparar o país para cenários cada vez mais frequentes e menos previsíveis.
Ainda assim, o desenho do programa levanta dúvidas. “O diabo está nos detalhes”, alertou, sublinhando a necessidade de clarificar o papel do investimento privado e dos municípios, num plano em que uma fatia significativa do financiamento dependerá de parcerias e contributos externos
Ricardo Valente aponta também para o risco de centralização, questionando até que ponto os municípios terão margem real de decisão sem comprometer os seus próprios orçamentos.
Entre as apostas mais claras está o reforço da economia como motor da coesão territorial, nomeadamente através dos parques industriais. “Não adianta nada queixarmo-nos da desertificação se não levarmos economia, emprego e oportunidades”, afirmou
Mas é ao nível das medidas estruturais que surgem os impactos mais diretos. A criação de um seguro sísmico obrigatório representa uma mudança significativa: o risco deixa de estar concentrado no Estado e passa a ser assumido por empresas e cidadãos. “Passamos a ter uma despesa anual adicional”, explicou, levantando dúvidas sobre a equidade da medida em territórios com níveis de risco muito distintos
O plano inclui ainda mecanismos legais para resposta a cenários de crise, como guerras ou situações de escassez, alinhando Portugal com estratégias já adotadas noutros países europeus. “Deixamos de ser reativos e passamos a ser preventivos”, sintetizou
Com um horizonte de execução até nove anos, o programa ultrapassa ciclos políticos e aposta em medidas estruturais. A criação de uma agência de coordenação será determinante para garantir transparência e avaliação de resultados, um ponto crítico quando estão em causa montantes desta dimensão.
Ricardo Valente reconhece a mudança de rumo, mas deixa um aviso claro: sem execução eficaz, o risco é repetir o padrão – ambição no papel, falhas no terreno.