Artur Fonseca sonha em abrir um museu rural em Santarém: “Vá-se embora com o dinheiro que eu fico com isto”
Em Secório, no concelho de Santarém, existe um lugar onde o passado continua presente todos os dias. Não é um museu oficial nem um espaço institucional, é o resultado da dedicação persistente de um homem que decidiu, sozinho, preservar aquilo que o tempo tem deixando para trás. É na garagem de casa que Artur Fonseca, com 80 anos, guarda cuidadosamente os objectos dum tempo que não voltará a ver.
Entre alfaias agrícolas, balanças antigas, candeias de petróleo, carroças, ferramentas de ofícios esquecidos e utensílios a que já poucos reconhecem utilidade, vive um museu rural com mais de 300 peças. Nunca chegou oficialmente a existir, mas resiste graças à dedicação do secoriense, que vê nos objetos uma vida inteira dedicada à ruralidade.
Artur Fonseca começou a trabalhar no campo com apenas oito anos, numa época em que a infância terminava cedo. “Trabalhei com estas alfaias todas”, recorda ao falar das peças. Há mais de meio século começou a colecionar aquilo que os vizinhos descartavam, não por negócio, mas pela necessidade de “preservar as coisas antigas”, revela ao Conta Lá.
Durante 49 anos distribuiu pão pelas localidades vizinhas de Secório. A carrinha parava, a conversa surgia e acabou por conhecer grande parte da população que, sabendo o gosto que tinha pelos objetos antigos, deram-lhe peças que habitavam nos sótãos e em arrecadações, para juntar ao seu espólio.
Assim nasceu na garagem da própria casa, sem plano nem nome, o museu rural que um dia ainda sonha ver num outro espaço. Entre os objetos há histórias que não esquece, como a cadeira do barbeiro, onde em pequeno cortava o cabelo, que o transportam para os “sopapos que levava na cabeça” para ficar quieto.
A memória de cada peça
Noutras peças reconhece o peso do trabalho duro, como nos trilhos para debulhar trigo, tarefas do azeite, ferramentas de carpinteiros, sapateiros e ferreiros. Objetos que são memórias vivas de profissões que agora repousam por ali, preservadas com “muito carinho e respeito”, destaca.
O espaço ocupa dois grandes barracões junto à sua casa e, apesar da dimensão da coleção, admite nunca ter vendido uma única peça, nem mesmo quando lhe ofereceram 45 mil euros pelo conjunto dos objetos expostos na garagem. “Vá-se embora com o dinheiro que eu fico com isto”, respondeu na altura.
O valor, explica, não é monetário, é emocional. Todos os dias sai de casa, entra na garagem e reorganiza objetos, limpa a poeira e muda peças de lugar. “Dá-me uma coisa cá dentro”, confessa: “Gosto de ver isto.”
O sonho prometido, nunca realizado
Várias vezes políticos locais prometeram transformar o espólio num museu rural aberto ao público. Nos últimos 50 anos, vários autarcas da região visitaram o espaço e elogiaram a coleção, mas os projetos nunca passaram do entusiasmo inicial. “É mal empregado isto acabar aqui”, diz. “Quando eu fechar os olhos, ninguém sabe o que é metade destas coisas”, acrescenta.
Os filhos não pretendem continuar com o legado, deixando o homem de 80 anos com um único medo: que a memória coletiva rural que colecionou desapareça. Porque, no fundo, não é apenas pela coleção dos objetos que tem o sonho de abrir um museu, mas sobretudo pela necessidade de preservar a memória de um país agrícola. Com profissões manuais e saberes transmitidos pela prática e não pelos livros, que entretanto quase desapareceram.
“Daqui a bocado ninguém sabe o que isto é”, repete. Ainda assim, não perde completamente a esperança de ver as peças expostas “como deve ser”. O que implica estarem certificadas e acessíveis ao público, para que as novas gerações compreendam como era viver antes das máquinas, da pressa e da tecnologia.
Até lá, continua com o ritual diário. Entra na garagem, repleta de ferro, madeira e memórias e permanece ali, guardando silenciosamente um tempo que insiste em não deixar desaparecer.