Ricardo Catarro distinguido com prémio internacional de fotografia analógica. “O verdadeiro valor de um fotógrafo é criar diferente”
Enquanto milhões de fotografias são captadas, editadas e partilhadas todos os dias em poucos segundos, Ricardo Catarro continua a carregar manualmente rolos de película para dentro das suas câmaras. Numa época em que a inteligência artificial consegue criar imagens cada vez mais realistas e em que a perfeição parece estar à distância de um clique, o fotógrafo de Almeirim escolhe um caminho aparentemente mais difícil. Não por nostalgia, nem por resistência à tecnologia, mas porque acredita que algumas das coisas mais importantes na fotografia continuam a não poder ser reproduzidas por um algoritmo: a emoção, a autenticidade e a verdade de um momento.
Uma recente distinção internacional na categoria Best Analogue Photo do Way Up North Photo Contest - concurso internacional integrado no encontro Way Up North, realizado em Viena e considerado um dos mais prestigiados da área da fotografia de casamento e do storytelling visual - assumiu um significado especial por premiar a vertente analógica que tem vindo a ganhar cada vez mais espaço no seu trabalho e voltou a chamar a atenção para o seu percurso. Tal como já tinha ocorrido, aliás, em 2024, quando foi distinguido como Melhor Fotógrafo Europeu de Casamentos e integrou a lista dos 30 “Rising Stars” da fotografia mundial de casamento da revista norte-americana Rangefinder.
Mas importa vincar que a história de Ricardo Catarro não é apenas a de um fotógrafo premiado. É a de alguém que encontrou na fotografia uma forma de compreender melhor as pessoas e de preservar aquilo que desaparece demasiado depressa.
Muito antes dos prémios internacionais, dos casamentos fotografados em diferentes países ou das publicações especializadas que destacaram o seu trabalho, existia apenas um rapaz curioso que passava algum tempo a explorar uma máquina fotográfica comprada pelo pai. No início dos anos 2000, a fotografia era apenas uma descoberta, um espaço de experimentação sem objetivos profissionais definidos. “Queria apenas brincar com esta arte”, recorda. Não existiam planos de carreira nem sonhos de reconhecimento internacional. Existia apenas o prazer de observar o mundo através de uma lente.
Licenciado em Gestão, Ricardo nunca imaginou que a fotografia pudesse vir a ocupar um lugar central na sua vida. Durante anos foi apenas uma paixão cultivada nos tempos livres. Aprendeu sozinho, investiu no primeiro equipamento e continuou a fotografar sem pensar que aquilo pudesse transformar-se numa profissão.
O rumo da sua vida mudou em 2015, quando se encontrava desempregado e surgiu a oportunidade de trabalhar numa empresa ligada à fotografia de casamentos. O que parecia uma solução temporária acabou por revelar algo mais profundo. “Precisava de dinheiro, uma empresa precisava de um fotógrafo para a área dos casamentos e assim nasceu o bichinho por esta área”, conta. Dois anos depois decidiu avançar sozinho e construir o próprio caminho, consolidando uma carreira que o levou a fotografar casamentos dentro e fora de Portugal, e a conquistar reconhecimento internacional.
Fotografar pessoas
Quem visita o seu portefólio encontra imagens marcadas pela luz, pela emoção e pela atenção ao detalhe. Mas encontra também algo menos tangível, uma preocupação constante em contar histórias. Ricardo fala frequentemente da influência que o cinema, a música, as viagens e as experiências de vida tiveram na construção do seu olhar. Mais do que criar imagens visualmente apelativas, interessa-lhe compreender pessoas e transformar emoções em memórias duradouras. Talvez por isso não goste particularmente de se definir apenas como fotógrafo de casamentos. O casamento é o contexto. As pessoas são o verdadeiro tema.
Ao longo dos anos foi experimentando diferentes linguagens visuais, explorando abordagens documentais e procurando uma identidade própria. Hoje sente que o seu trabalho passa por equilibrar diferentes influências, mas existe uma ideia que permanece inalterada: quando fotografa procura sempre captar algo genuíno. “Quando fotografo alguém, procuro trazer à tona a verdadeira natureza da pessoa que está à minha frente”, explica.
Essa procura exige muito mais do que conhecimento técnico. Exige empatia, observação e capacidade para compreender aquilo que nem sempre é dito. Exige perceber pequenos gestos, olhares e emoções que surgem sem aviso. E foi precisamente fora da fotografia que encontrou uma das experiências que mais o ajudou a desenvolver essa sensibilidade, porque “ser pai" ensinou "a gerir muito melhor as emoções humanas e isso fez com que fotografar casamentos ficasse cada vez mais fácil e mais bonito”.
A paternidade alterou profundamente a forma como vê os outros. Ao lidar diariamente com o crescimento dos filhos, passou a observar as emoções humanas de forma diferente. Essa aprendizagem acabou por se refletir também no trabalho. Fotografar pessoas significa lidar com inseguranças, expectativas, alegrias e vulnerabilidades. Significa compreender que cada indivíduo transporta uma história própria. Com o tempo, a fotografia acabou por lhe ensinar algo que vai muito além da composição, da técnica ou da luz. “Percebi que todos nós temos inseguranças e que cada pessoa tem a sua realidade, a qual merece todo o nosso respeito.”
A procura pela verdade
Nos últimos anos, essa procura pela autenticidade levou-o a aproximar-se cada vez mais da fotografia analógica. “A inteligência artificial apareceu na área da fotografia no início de 2021 e estabeleceu-se em força em 2022”, recorda. A transformação tecnológica levou-o a refletir sobre aquilo que distingue verdadeiramente um fotógrafo. Para si, a resposta nunca esteve nas ferramentas. Está na capacidade de criar algo pessoal. “O verdadeiro valor de um fotógrafo é criar diferente, pensar e construir diferente do nosso vizinho”, considera.
Foi precisamente essa convicção que o aproximou da película e que o fez valorizar, cada vez mais, aquilo que considera ser a honestidade inerente ao processo analógico. E elabora: “Numa era em que tudo pode ser manipulado digitalmente, em que se consegue construir falsa arte, comecei a entender que a fotografia analógica traz associada a verdade.”
A palavra verdade surge repetidamente quando fala deste tema. Não como uma crítica ao digital, mas como uma defesa da autenticidade. Na fotografia analógica não existe a mesma margem para corrigir erros. Cada disparo exige atenção. Cada decisão tem consequências. “No digital conseguimos sempre salvar uma fotografia que saiu com alguns erros. No analógico é bem mais difícil.”
Paradoxalmente, é precisamente essa dificuldade que o atrai. A necessidade de esperar pela revelação, de gerir cuidadosamente cada fotografia e de aceitar a incerteza tornou-se parte do processo. “A espera faz com que pensemos muito mais e acaba por ser um processo que traz um prazer enorme associado.”
A beleza da imperfeição
Num tempo dominado pela procura incessante da perfeição, Ricardo Catarro continua a encontrar valor naquilo que é imperfeito. A ideia atravessa a sua forma de fotografar e também a forma como olha para a vida. “A imperfeição torna-nos únicos”, afirma. Mais do que isso, acredita que “o erro pode abrir portas inesperadas e revelar caminhos que não estavam previstos.”
Quando questionado se existe alguma fotografia tecnicamente imperfeita, mas emocionalmente impossível de repetir, a resposta surge sem hesitação: “A maior parte das minhas fotografias são imperfeitas tecnicamente e todas elas emocionalmente impossíveis de repetir.” A explicação aparece logo a seguir e resume grande parte daquilo em que acredita: “Nada na vida é estanque e todos os momentos só acontecem uma vez.”
É essa consciência da fragilidade dos instantes que continua a orientar o seu trabalho. Para Ricardo, uma fotografia memorável nasce quando luz, enquadramento e momento se encontram da forma certa. Não existe fórmula capaz de garantir que isso aconteça. E talvez seja precisamente essa imprevisibilidade que torna a fotografia tão fascinante.
Apesar dos prémios, das distinções e do reconhecimento internacional, continua a olhar para a fotografia como um processo de aprendizagem permanente. Gostaria de explorar a fotografia de arquitetura e de continuar a desenvolver o trabalho que realiza na área dos casamentos, tanto em Portugal como no estrangeiro. Mas quando fala sobre o futuro, as ambições profissionais surgem sempre acompanhadas por uma prioridade mais importante. Quer continuar presente na vida dos filhos. Quer crescer enquanto pessoa. Quer tornar-se um pai melhor.
Talvez seja precisamente aí que se encontra o verdadeiro fio condutor da sua história. Não nas câmaras, nos prémios ou nas fotografias, mas na capacidade de observar os outros com curiosidade, empatia e respeito. Depois de anos a acompanhar pessoas em alguns dos momentos mais importantes das suas vidas, Ricardo Catarro chegou a uma conclusão simples: “Cada pessoa tem a sua realidade e cada uma delas merece ser vista”.