“Braga”, o asteroide descoberto por um português na Suíça

“Braga” é o nome do asteroide registado no boletim da União Astronómica Internacional a 25 de maio. A descoberta foi feita pelo português José de Queiroz, que eternizou o nome da cidade da sua infância. O astrónomo é também um dos fundadores do Observatório Mirasteilas, em Falera, um dos maiores observatórios suíços abertos ao público.
Ana Rita Cristovão
Ana Rita Cristovão Jornalista
15 jun. 2026, 07:00

A primeira vez que José de Queiroz observou o asteroide 729512, na altura ainda sem o nome oficial de “Braga”, foi no dia 1 de abril de 2011. Uma descoberta em pleno dia das mentiras, mas que não deixou espaço para brincadeiras, até porque no que diz respeito à descoberta de asteroides, as dúvidas têm de ser sempre bem esclarecidas.

“Descobri o asteroide em 2011, mas ele tem de ser observado e tem de se medir a posição durante vários anos. Quando o asteroide está em oposição ao sol, faz uma linha com a Terra, como acontece com o ‘Braga’, e isso só acontece a cada 4,1 anos, então temos de ir fotografando muito bem, obter a órbita dele”, explica ao Conta Lá José de Queiroz.

Natural de Lisboa, mas com o coração entregue a Braga, terra onde passou a infância, emigrou para a Suíça após a revolução de 25 de Abril de 1974. Deixou o Porto, onde na altura estudava engenharia, para ir “tomar conta de crianças”. Dedicou-se mais tarde à hotelaria, mas um outro destino já estava escrito nas estrelas.

“Lembro-me perfeitamente que estava a dar na televisão um programa em que apresentavam um telescópio que fazia tudo sozinho, com um programa eletrónico de nova geração, os 'GoTo', então mandei vir um, meti na varanda e comecei a observar o céu. Fiquei espantado”, confessa.

Foi a partir da comuna de Falera, onde habita e onde se localiza uma das mais procuradas estâncias de ski dos Alpes Suíços (o chamado cantão de Grisões), que José de Queiroz viu no céu “qualquer coisa de especial” e não quis ficar por ali.

“O que é que eu fiz? Procurei na internet alguma associação de astronomia e encontrei um endereço, fui lá com o meu telescópio que ninguém conhecia e ficaram todos fascinados. Na altura, entrei na sociedade astronómica aqui dos Grisões, tinha cerca oito pessoas idosas já naquele estado assim relaxado, pacato, sem fazer nada e decidi começar a dar um bocado de dinâmica. Meti-os a observar o céu e começou assim a minha aventura na astronomia”, recorda José de Queiroz ao Conta Lá.

Apelidando-se de “astrónomo amador”, foi porém o empenho do português que levou à criação de um dos maiores observatórios suíços abertos ao público, o Observatório Mirasteilas, em Falera.

“Em 2002 resolvi fazer um encontro de astrónomos na região, organizei um programa com colóquios, foi um fluxo de gente maravilhosa, foi a primeira ‘Star Party’, um sucesso. Vi que realmente havia um potencial muito grande para a astronomia. Então meti-me em contacto com o governo local e disse 'e se a gente construísse um observatório?’. Apoiaram a ideia e no espaço de três anos fizemos o projeto, tivemos o apoio da comuna e com 1,4 milhões de francos suíços conseguimos levar este observatório para a frente, foi uma euforia muito grande”, lembra ao Conta Lá o português. 

José de Queiroz assumiu a direção do observatório a partir de 2006, mas, mesmo assim, quis acrescentar ainda mais contributo à comunidade científica, precisamente com a observação e identificação de asteroides. É hoje um dos cerca de 700 creditados no mundo pelo Minor Planet Center (organização que opera sob a alçada da União Astronómica Internacional) para a identificação destes corpos celestes.

“É um trabalho muito bonito, mas muito rigoroso. Até hoje, já consegui descobrir seis asteroides. Um dei o nome da estância de turismo daqui, Falera, outro é a capital dos Grisões, outro dei o nome da minha filha, Márcia, outro chamei de Mirasteilas, o nome do observatório e que significa ‘observa as estrelas’, depois sugeri o Graubünden, o maior cantão da Suíça em extensão territorial, e claro, a minha cidade natal, Braga”, enumera.

Este último é, para José de Queiroz, o mais especial. À espera desde 2011, foi este ano, a 25 de maio que José viu o nome aceite pela União Astronómica Internacional, perpetuando assim o nome de Braga nos registos oficiais da astronomia mundial.

“É um feito histórico, é uma alegria, são momentos que a gente não consegue descrever. Hoje em dia é muito difícil descobrir coisas novas porque os Estados Unidos têm um programa muito sofisticado com os satélites que estão lá em cima, fazem a cobertura do céu digitalizado, tudo que se mexe, e há milhões de observações de asteroides que são enviados ao Minor Planet Center todos os dias. E portanto, para nós, astrónomos amadores, é muito difícil porque muitas vezes quando descobrimos um asteroide passados uns dias dizem-nos que 'esse já foi descoberto' ”, expressa Jose de Queiroz.

Voltando ao asteroide ‘Braga’, está situado no cinturão principal de asteroides, entre Marte e Júpiter, com um diâmetro estimado de cerca de um quilómetro e uma órbita estável, sem qualquer risco conhecido para a Terra, garante o português.

“Tem uma rotação à volta do sol e está a 240 milhões de anos de distância, com um período de 4,1 anos. Mas estes asteroides não se passa nada com eles porque estão dependentes da força gravitacional do planeta Júpiter, que é o maior planeta do sistema solar e através da sua gravitação eles giram ali à volta. São 1,5 milhões ou mais os que existem, que são o resto do material que não se formou durante a fase da criação do nosso sistema solar, esse material ficou ali naquele anel e não foge dali”, clarifica.

Só quando há colisão entre asteroides é que “são expulsos do anel e vêm numa órbita indeterminada. E aí podem passar ou cruzar a órbita do nosso planeta, então podem ser perigosos. Mas para isso a nossa principal função, certificados pelo Minor Planet Center, é precisamente fazer essas observações, e todos os dias vemos os asteroides que foram descobertos e ajudamos a definir a órbita desses asteroides, é assim que isso funciona, uma comunidade mundial em que se ajudam uns aos outros”, acrescenta José de Queiroz.