“É o regaço da mãe”: manto de 15 mil flores dá nova vida à Romaria das Boas Novas em Mazarefes

Entre a fé, a memória e o reencontro, há uma tradição que resiste ao tempo em Mazarefes, no concelho de Viana do Castelo. Todos os anos, pela altura da Páscoa, a freguesia volta a vestir-se de festa para celebrar a Romaria da Senhora das Boas Novas e São José, um momento que é, mais do que uma celebração, parte da sua identidade.
Regina Ferreira Nunes
Regina Ferreira Nunes Jornalista
04 abr. 2026, 08:00

As origens perdem-se no tempo, como tantas vezes acontece com as tradições mais antigas. Sabe-se, porém, que esta devoção começou por ser dedicada à Senhora dos Prazeres. Com o passar dos séculos e com a partida de muitos homens para o mar, para os Descobrimentos ou para o Brasil, a invocação alterou-se, e com ela, também o seu significado, como explica Tozé Mesquita, músico e membro da Comissão de Festas. “As pessoas aguardavam boas-novas, isto é, boas notícias dos seus entes queridos”, acrescenta. A designação que perdura até hoje nasce desse sentimento, da esperança de um regresso, de uma carta, de uma vida que continuava longe.

É essa mesma ligação que perpetua esta romaria. Mais do que um evento religioso ou festivo, trata-se de um momento de identidade e pertença. “É a festa das festas”, resume Tozé Mesquita. É também o tempo do reencontro, sobretudo para muitos emigrantes que escolhem esta altura, coincidente com a Páscoa, para regressar à terra. Entre celebrações litúrgicas, convívios e tradições, a freguesia transforma-se num espaço de partilha onde o espírito familiar se sobrepõe ao resto.

Este ano, a celebração ganha forma num dos elementos mais simbólicos da festa: um manto com cerca de 15 mil flores, suspenso sobre uma parte da freguesia. A inspiração parte do manto da imagem da Senhora das Boas Novas azul, pontuado por pequenas estrelas brancas, mas a proposta vai além de uma simples recriação. Trata-se de uma metáfora construída pela própria comunidade “para nós, o manto representa a proteção sagrada, o regaço da mãe onde podemos sempre voltar”, descreve.

Durante cerca de cinco meses, criou-se uma rotina na freguesia: ao final do dia, depois do trabalho ou da escola, juntavam-se diferentes gerações para dar forma às flores que compõem o manto. Crianças, adultos e idosos partilharam o mesmo espaço, o mesmo objetivo e a mesma dedicação de quem constrói algo maior. “Há crianças de sete ou oito anos que participam, até pessoas já reformadas que ficam até tarde. Criou-se um espírito de comunidade e de entrega que já não via há muitos anos”, sublinha. As flores, artificiais e manufaturadas, carregam um simbolismo próprio. Associadas à simplicidade e ao conforto, tornaram-se matéria-prima desta construção, num equilíbrio entre o efémero e o duradouro.

A romaria destaca-se pela sua componente coletiva, mas também por uma tradição que se aproxima, cada vez mais, das novas formas de comunicação. É o caso do vídeo promocional “Bordar a Romaria”, que acompanha os bastidores da preparação da festa através do olhar de uma criança. A ideia nasceu de Osvaldo Mesquita, um jovem designer da terra, e rapidamente se transformou num projeto que saiu do papel. Com uma narrativa visual cuidada o projeto procura captar a essência do que não se vê: o trabalho, o esforço e a dedicação que antecedem os dias maiores. “Dentro daquele pano cabem todas as atividades, todos os desejos e toda a ajuda para que a romaria aconteça”, resume Tozé Mesquita. A componente artística estende-se também à banda sonora, composta por músicos da terra, numa fusão de sonoridades tradicionais, como o cavaquinho, o bombo ou o acordeão. No total, cerca de 250 pessoas estiveram envolvidas neste processo, entre figurantes e equipas técnicas e criativas. 

Antes mesmo dos dias principais da romaria, há um momento que marca o arranque simbólico das celebrações. Este sábado (4 de abril), a freguesia reúne-se para a chamada “Noite da Floração”, altura em que o manto floral começa a ganhar forma nas ruas de Mazarefes. Mais do que uma colocação, trata-se de um momento partilhado pela comunidade, que antecipa o que virá a seguir.

A romaria decorre oficialmente entre os dias 10 e 13 de abril, com um programa que cruza tradição religiosa, cultura e animação. Uma das grandes novidades deste ano é o Desfile das Mordomias, que estreia na noite de sábado (11 de abril). Nele participam mulheres de várias gerações, num momento onde se celebra a memória e a continuidade da tradição.

A programação combina tradição e modernidade, com atuações das cantoras Cláudia Pascoal e Rita Guerra, bem como de bandas locais e grupos tradicionais. A expectativa para esta edição, refere, é elevada. A organização espera uma forte adesão, sobretudo de romeiros, que mantêm viva a tradição de percorrer a pé o caminho até ao santuário, muitos vindos das zonas ribeirinhas de Viana do Castelo. São eles que, geração após geração, preservam a essência da romaria, isto é, pedir, agradecer ou esperar.

Tal como referido, a celebração tem origem na peregrinação, na promessa e na fé, sendo considerada a primeira grande romaria do périplo alto-minhoto. Numa época em que muitas tradições se perdem, Mazarefes continua a bordar a sua, ponto por ponto, flor por flor.