“Não deve ser só a rentabilidade a decidir”: Douro carrega há décadas a ânsia de voltar a ter ferrovia até Barca d’Alva

Há 27 quilómetros de Linha do Douro que continuam sem comboio desde 1988, mas entre a população cresce a expectativa de reabertura. Entre moradores que dizem que “faz falta” e visitantes que regressam pela paisagem, a ligação à fronteira com Espanha, em Barca d’Alva, permanece como promessa. A Infraestruturas de Portugal aponta 2028 como possível ponto de viragem.
 
João Nogueira
João Nogueira Jornalista
19 abr. 2026, 08:00

Contam-se pelos dedos de uma mão os metros que separam a casa de Virgínia Guedes dos carris da linha do Douro. A proximidade é tão curta que, nos mais de 50 anos em que a idosa vive ali, a ferrovia é como se fosse o seu quintal. O som dos comboios não a incomoda, admite. “Muito menos hoje, que são menos”.

No início de maio vai até ao Porto por causa de uma consulta. O comboio continua a servir-lhe para isso, para consultas, visitas, rotinas. Mas há um destino, no sentido contrário, que ficou para trás nos carris: a fronteira com Espanha. 

“Se tivesse o comboio para lá, ia logo. Até tenho saudades. Cheguei a ir muitas vezes”, diz, sem hesitar, quando se fala na possibilidade de voltar a apanhar o comboio até Barca d’Alva, como fazia “há muitos anos”, para ir “aos rebuçados e às laranjadas”.

A partilha de Virgínia ao Conta Lá foi feita junto à estação do Pocinho, última estação ativa da Linha do Douro. Naquele ponto, é o ritmo dos comboios que chegam e partem que parece gerar movimento entre a população, que já é pouca.

Foto: Virgínia Guedes junto à estação do Pocinho, última estação da Linha do Douro (João Nogueira/Conta Lá)

O que também marca aquelas pessoas é a falta de ritmo que se prolonga desde 1988, desde que foram fechado 27 quilómetros daquela linha, até Barca d’Alva.

Para Celso Ferreira, a resposta é direta: “Faz falta”. Lembra-se de usar a linha “muitas vezes” e não tem dúvidas de que a ligação faria diferença no dia a dia. Hoje, quem quer chegar a Barca d’Alva tem de contornar o território por estrada, por percursos longos e pouco diretos. “É uma volta muito grande”, disse o morador. E nem todos têm alternativa: “Tiraram tudo. Não há autocarros ao meio-dia”.

A ausência da linha não pesa apenas na mobilidade. Também se sente na forma como o território se esvaziou. Ilda Cascais recorda um tempo em que ali “era tudo ferroviários”. O marido foi maquinista, como tantos outros.

Hoje, fala de casas fechadas, bairros abandonados e de uma linha que era mais do que transporte: “Era um passeio bonito”, partilhou, com um complexo de habitações fechado e cimentado. “Aqui viviam famílias que trabalhavam nos comboios”, disse.

Foto: Ilda Cascais com um antigo complexo habitacional de ferroviários atualmente encerrado (João Nogueira/Conta Lá)

 

2028 pode ser ponto de viragem

No início do ano, a Infraestruturas de Portugal avançou em exclusivo ao Conta Lá que espera que em 2028 possam arrancar as obras de reativação do troço há décadas esperado.

Enquanto os locais relembram o passado e partilham a ânsia de voltar a ver o comboio a prosseguir viagem até à fronteira com Espanha, a estação do Pocinho enche-se de quem chega de fora. Turistas de máquina fotográfica na mão, famílias, grupos organizados. 

A Linha do Douro nunca teve tanta procura. Dados da Comboios de Portugal enviados ao Conta Lá mostram um crescimento acentuado: em 2025, viajaram mais de 1,6 milhões de passageiros nos serviços regionais e inter-regionais, mais do dobro face a 2023

Nos meses de maior procura, entre a primavera e o outono, as carruagens enchem-se sobretudo de visitantes, atesta a empresa.

Mas nem só de turistas se faz a viagem. Há também quem regresse depois de muito tempo. Cristina Santos é um desses casos. Já perdeu a conta às vezes que fez o percurso. Volta pelas paisagens “lindas”, mas também pela história que a linha carrega. 

Foto: Antigo apeadeiro do Pocinho e linha ferroviária que ladeia com apeadeiro renovado (João Nogueira/Conta Lá)

E lembra-se de quando o comboio seguia para lá do Pocinho. “Já fiz”, conta, recuando mais de 15 anos, numa viagem que incluiu piquenique e paragens pelo caminho. “Faz falta, porque também dava a conhecer muito mais”.

Joaquim Ribeiro voltou 20 anos depois para “desbloquear memórias” e encontrou uma paisagem “igual”, quase intocável. Já Adrião Mendes, que o acompanhava, estreou-se e saiu convencido de que estava perante “uma das regiões mais bonitas de Portugal”. Ambos reconhecem, no entanto, que o perfil mudou: “Agora são mais os turistas”.

Essa transformação é visível, mas não apaga outras leituras. Para Joaquim, a reabertura até Barca d’Alva “faz sempre sentido”, mesmo que a linha seja cada vez mais turística. E deixa um aviso: “Não deve ser só a rentabilidade a decidir”, acrescentando que o Estado não deve “ignorar a história” e cultura que a região carrega e que foi construída também à boleia daquele comboio.