“Antes de haver Cristiano Ronaldo, havia o Vinho do Porto”: o Douro como embaixador do país
A emissão da Estrada Nacional 2 chegou esta sexta-feira ao quilómetro 88, no concelho do Peso da Régua. No Conta Lá, o setor vitivinícola e o vinho do Porto como representante de Portugal estiveram em destaque.
José Manuel Gonçalves participava neste painel e fala sobre a importância histórica do setor na Régua. “A região do Douro viveu fechada durante muitas décadas, porque a sua preocupação e grande missão era produzir o vinho. Todo o processo de valorização, de rotulagem, de comercialização, é feito a jusante daqui, portanto, vivíamos numa região assente na monocultura”, aponta o presidente da autarquia do Peso da Régua.
“Durante muitos anos nós enviávamos o vinho para o Porto, e depois ele ia para todo o mundo. E o vinho do Porto ainda hoje é dos maiores embaixadores” de Portugal, defende José Manuel Gonçalves.
Também Rui Paredes, presidente da Casa do Douro e presente neste painel, indica o Douro como embaixador do país. “Esta atividade representa 64% das exportações do país. O Douro foi sempre o grande embaixador do país. Antes de haver Cristiano Ronaldo, havia o vinho do Porto. A nossa identidade era o vinho do Porto.”
Para o autarca do Peso da Régua, o grande desafio da região é manter a sustentabilidade económica do setor vitivinícola. “Temos de dar sustentabilidade aos mais de 17 mil que mantêm este território como património da humanidade. Esta é a jóia da coroa e o maior legado que recebemos e temos o dever de o manter em condições económicas, ambientais e sociais para que possa ser transmitido às gerações futuras.”
Para haver renovação de gerações na produção vinícola, José Manuel Gonçalves diz que é necessário que quem comercializa o vinho pense no retorno financeiro de quem o produz. “Aqueles que comercializam têm de perceber que não são o fim de linha. Para conseguirem garantir e ter o produto, eles têm de olhar com preocupação para os nossos produtores desta região”, refere.
Rui Paredes reforça que os viticultores não podem continuar a ser o parente pobre do setor. “Estamos a trabalhar num conjunto de propostas para que possa dar ao viticultor uma maior rentabilidade da sua atividade, nós queremos a dignidade da atividade. Quando não se ganha o pão, perde-se a dignidade e quando se perde a dignidade, acho que muito pouco tem o Homem”, reitera o presidente da Casa do Douro.
Crescer para fora
O presidente da autarquia da Régua assinala também a necessidade de se fixarem valores de remuneração da produção vinícola.
“Esta cultura tem custos acrescidos de produção, e, não podemos competir pelo preço, temos de competir pela qualidade. Mas, não podemos ter um negócio onde quem hoje anda na vinha não sabe a que preço vai ser remunerado, nem qual a parte da produção vai ser valorizada e transformada em vinho do Porto, que é o que produz maior rendimento”, afirma José Manuel Gonçalves.
Neste painel moderado pelo jornalista Luís Varela de Almeida, Rui Paredes denuncia ainda a falta de visão estratégica no investimento. “Em Portugal, 70% do território é de baixa densidade, e, no litoral, mais propriamente no Porto, Lisboa e Algarve, o investimento ronda os 70%, em 12% do território. O resto fica para o interior. É muito pouco”, assegura.
O presidente da Casa do Douro critica também o centralismo dos centros urbanos de Lisboa e do Porto, que, diz, estão a “crescer para fora” das cidades. Quando isso acontece, “é preciso criar infraestruturas, ou seja, é preciso construir uma ponte, arranja-se 500 milhões para construir uma ponte, ou mil milhões para construir outra ponte em Lisboa, na saúde, temos de criar mais hospitais, quando já existem estas infraestruturas aqui no interior”.
Segundo Rui Paredes, a associação da indústria do vinho, ViniPortugal, estar sediada em Lisboa é um “exemplo flagrante” deste centralismo, uma vez que “80% das exportações do setor estão acima do Douro”.
Associadas também aos problemas do setor vinícola estão as dificuldades de fixação de jovens e de talento no interior. Apesar de todos os esforços de captação de iniciativas, “sentimos o litoral a ser um íman, que capta a nossa massa crítica, os jovens, e transforma todo o interior num grande lar de idosos”, afirma Rui Paredes.