“Começam a ser coisas em vias de extinção”: a única fábrica portuguesa de lápis resiste há mais de um século

Entre máquinas antigas, prensas e memórias com mais de um século, a Viarco preserva em São João da Madeira um património raro: é a única fábrica de lápis em Portugal. Num mercado cada vez mais globalizado, o setor aposta na valorização do legado industrial para garantir o futuro de um objeto que atravessa gerações.
Regina Ferreira Nunes
Regina Ferreira Nunes Jornalista
06 mar. 2026, 08:00

No interior de um edifício industrial em São João da Madeira, o som das máquinas mistura-se com o cheiro da madeira acabada de cortar. Ali, a Viarco continua a fabricar lápis com minas moldadas, tábuas ranhuradas e prensas que comprimem a chamada “sanduíche” de madeira antes do corte final. É a única fábrica de lápis em Portugal, estatuto que, para o administrador, José Vieira, não se traduz numa “carga” simbólica, mas sim na continuidade de um ofício e na preservação de um património.  

“Não há aqui nenhuma responsabilidade acrescida por ser a única fábrica de lápis do país”, afirma. O que existe, diz, é um compromisso em “fazer coisas que riscam e coisas que pintam”, numa área que, ao longo de mais de um século, atravessou guerras, crises e transformações no mercado. 

A história da produção nacional de lápis remonta ao início do século XX, quando a primeira unidade, a Portugália, foi fundada em Vila do Conde pelo comendador Figueiredo Faria, com apoio do engenheiro francês Jules Cacheux. A instabilidade provocada pela Primeira Guerra Mundial e pela Grande Depressão de 1929 e 1931 acabaria por ditar a vulnerabilidade na atividade da fábrica. A empresa seria mais tarde adquirida pela família Vieira e transferida, nos anos de 1940, para São João da Madeira, onde se consolidou como uma referência do setor.

Ao longo das décadas, o contexto político e económico moldou o percurso da fábrica. Durante o Estado Novo, as restrições à importação protegeram a produção interna. Com a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, o mercado abriu-se à concorrência internacional. “A empresa deparou-se com uma concorrência altamente especializada”, recorda José Vieira. A transformação do comércio tradicional, com a ascensão das grandes superfícies, acentuou a pressão sobre os produtores de menor dimensão.

“Nos anos 80 e 90 as pessoas faziam as suas compras nas papelarias e, entretanto, apareceram as grandes superfícies comerciais o que fez com que, em vez de haver 100 papelarias ou 200 papelarias, passou a existir um grupo, dois grupos, três grupos”, afirma.

O momento mais preocupante surgiu entre 2008 e 2009, com a perda de um cliente que representava cerca de 40% da faturação: “a lógica passava pelo encerramento da atividade”, admite. A solução encontrada passou pela aquisição da empresa por José Vieira e pela esposa e pela redefinição da estratégia. A aposta deixou de assentar exclusivamente no volume de produção e passou a integrar a valorização do património industrial e a "experimentação" criativa.

A fábrica passou a ser vista também como um espaço de “arqueologia industrial” e abriu as suas portas a residências artísticas. José Vieira confessa que as fábricas de lápis começam a ser “coisas em vias de extinção”. A antiga chapelaria deu lugar a um atelier onde artistas dos mais diversos cantos do mundo trabalham e experimentam materiais. Deste cruzamento entre o conhecimento técnico e a criação contemporânea nasceram novos produtos, alguns mais próximos de serem um objeto lúdico do que da ferramenta que tradicionalmente se conhece. 

“Podíamos produzir protótipos quase de forma artesanal, testá-los e validá-los diretamente com quem nos visita”, explica. A diferenciação tornou-se uma estratégia num mercado global dominado por grandes marcas internacionais e por produtos de baixo custo. “Estamos no meio de dois blocos gigantes”, descreve. 

 

Mas como se faz um lápis?  

Apesar da diversificação e dos avanços, o processo mantém-se inalterado ao longo do tempo. A produção de um lápis começa na mina, uma mistura de argila ou caulino com grafite ou pigmentos, que é moldada em fios, seca e, no caso do grafite, cozida a mais de mil graus. Depois, é colocada entre duas tábuas de madeira, formando uma “sanduíche” que é prensada, cortada e moldada num formato final.  Entre secagens, cozeduras, envernizamentos e impressões, o processo pode demorar de duas a três semanas. Os equipamentos instalados permitem, se necessário, produzir até 100 mil lápis por dia, embora atualmente a produção seja ajustada à procura e à diversidade de artigos fabricados.

Num mercado global dominado por grandes marcas internacionais e por produtos de baixo custo, a empresa posiciona-se num segmento intermédio. José Vieira fala numa “concorrência absolutamente global” e numa concentração que levou ao desaparecimento de várias fábricas noutros países. Ao Conta Lá, José Vieira afirma que Espanha chegou a ter cinco unidades e já não produz lápis de grafite ou de cor, nos Estados Unidos restam poucas, de um total de 17 que existiram.

Como diz o provérbio, “o lápis mais fraco é melhor do que a memória mais forte”. Numa época dominada pelo digital, José Vieira acredita que este objeto continuará a ter o seu lugar: “quanto mais digitais nos tornamos, mais importante é saber escrever à mão, desenhar, pensar”, sustenta. Para o administrador, a escrita e o desenho são competências estruturantes para o desenvolvimento humano e para preservar a criatividade e o espírito crítico, “ou seja, nós, sem essas competências humanas, não seríamos capazes de chegar aonde chegamos” (...) “Se nós não usarmos aquilo que são as nossas capacidades motoras e intelectuais, vai haver uma degradação segura daquilo que é o ser humano do futuro”. 

José Vieira afirma ainda que “um lápis não é apenas um lápis”. Este objeto é capaz de traçar uma linha contínua de cerca de cinco quilómetros, resultado de um processo que envolve inúmeras matérias-primas. Mais do que uma ferramenta escolar, considera, é um instrumento de criação que liga a mão à imaginação, numa era em que quase tudo passa pelo ecrã.