“Estamos a ficar para trás na transição energética”: a burocracia está a impedir a transformação do país

Em declarações à jornalista Estela Machado, na rubrica Objetiva do programa Juca, Filipe Araújo, especialista em energia, admite que Portugal está a perder “uma grande oportunidade” na transição energética devido à burocracia. Sublinha, porém, que há investimento privado interessado em apostar no território, o que permitiria alavancar o interior do país e alcançar a soberania energética. 
Ana Rita Cristovão
Ana Rita Cristovão Jornalista
06 mai. 2026, 12:29

Cerca de 7% do território continental tem hoje capacidade para acelerar projetos solares e eólicos que contribuiriam para o caminho de transição e reforço energético nacional. A conclusão é do relatório técnico da Avaliação Ambiental Estratégica para Zonas de Aceleração de Energias Renováveis, que apresenta um mapa verde de zonas do país onde projetos destes possam ser licenciados sem avaliação de impacte ambiental. 

No entanto, o especialista em energia e ex-vice presidente da Câmara do Porto, Filipe Araújo, admitiu ao Conta Lá, na rubrica Objetiva do programa Juca, que o problema não é “encontrar território” mas sim a burocracia.

“O que temos é um país parado à custa da burocracia. À custa da burocracia, à custa de todos os problemas criados em instalar até baterias onde estamos a ficar atrasados, estamos a ficar para trás na transição energética”, alerta o especialista, acrescentando que “se não acelerarmos, dificilmente cumpriremos as metas do Plano Nacional 2030”.

Recorde-se que o Governo quer reduzir para metade a dependência energética do país num prazo de oito anos. Também nesse sentido, Portugal e Espanha avançaram com a criação de um Observatório Ibérico da Energia. No entanto, os dois países estão em posições diferentes. “Para termos uma ideia, em 2025 Portugal praticamente esteve parado na instalação de parques fotovoltaicos ou eólicas em comparação com a vizinha Espanha que teve anos recorde”, sublinha Filipe Araújo.

A oportunidade da transição energética para o interior do país

O ex-vice-presidente da Câmara do Porto alerta ainda que o país está a perder a oportunidade do investimento privado.

“O território existe (…) a realidade não tem a ver com a escolha do território, tem a ver com toda a burocracia e impedimentos que têm surgido. E estamos a perder a oportunidade, estamos a perder dinheiro de investimento privado interessado em investir no território, milhares de milhões de euros que privados pretendem investir para tornar Portugal ainda mais independente energeticamente. E isso podia estar hoje a transformar o território”, alerta, nomeadamente com a criação de empregos, o que permitiria, por exemplo “aproximar o interior de novas indústrias e novos trabalhos” ou até “criar condições para energia mais barata para as pessoas que vivem junto desses parques”.

“Se quisermos pensar como se faz esta transição, precisamos de dinheiro. Se temos investidores privados interessados em investir (…) o que precisamos é que esses investidores quando vão instalar-se no território deixem algo lá, especialmente no interior”, acrescenta, referindo a oportunidade para “propiciar investimentos no território que ajudem a colmatar esta diferença entre litoral e interior, aportando valor e ter um interior mais preenchido de pessoas e oportunidades. Há aqui uma enorme oportunidade e estamos a perdê-la”.

Questionado sobre se há hoje condições para avançar com a tão debatida transição energética, Filipe Araújo, defende que há outro caminho sem ser o de esperar fundos vindos da Europa: “Temos condições, temos um país que tem vento, sol, água, oceano, temos capacidade para fazer a transição doutra forma, temos é de tomar decisões”.

O especialista admite propõe ainda a criação de uma “Via Verde” que seja capaz de “atrair investimento privado, capacitar a rede elétrica para conseguir acomodar estes investimentos e, com isto, passarmos par um país com soberania energética, com capacidade para competir para outros países, porque a temos, sem dúvida”.