“Há muitas árvores a morrer”: tempestades do início do ano ainda estão a provocar estragos na agricultura

O comboio de tempestades que passou por Portugal em janeiro e fevereiro, ainda se faz sentir por esta altura. Na agricultura, foram apontados prejuízos na ordem dos 550 milhões de euros, contudo os efeitos da catástrofe natural podem ser ainda maiores.
Joana Amarante
Joana Amarante Jornalista
07 jun. 2026, 12:51

O segundo dia de emissão especial do Conta Lá arranca com um debate sobre “O Impacto das Tempestades”. Para discutir este tema foram convidados da jornalista Estela Machado,  Luís Seabra, Presidente da Associação dos Agricultores do Ribatejo (AAR), Domingo dos Santos, Presidente da Associação Nacional das Organizações de Produtores de Frutas e Hortícolas (FNOP) e Vasco Estrela, Vice-Presidente da CCDR-Centro. 

Vasco Estrela, em representação da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, começa por contextualizar que a região ainda se tenta reerguer dos incêndios de 2025, ao mesmo tempo que resolve os problemas que agora, em 2026, as tempestades causaram. 

“Neste momento ainda estamos a tramitar processos dos incêndios de 2025, tivemos quase 6 200 candidaturas que estiveram abertas até abril deste ano”, avança o vice-presidente.

Relativamente ao comboio de tempestades ressalva que a resposta do organismo aos entraves têm sido “satisfatória” tendo em conta que “a CCDR sempre esteve desde a primeira hora no terreno com acompanhamento de todas as situações” e dando como exemplo o desenvolvimento imediato de uma plataforma para reportar prejuízos.

Referindo-se aos danos até 10 mil euros, informa que a CCDR-C tem “mais de 60% dos processos devidamente tramitados” e encaminhados para o IFAP, Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas, para pagamento. 

O responsável da CCDR Centro afirma ainda que os primeiros pagamentos foram realizados no início de março e “já estão pagos cerca de 4 milhões de euros”. 

Mas a realidade é que na agricultura, só 1% dos danos foram já suportados pelo Estado. 

Nesse sentido, Luís Seabra, da AAR, não desvaloriza a resposta imediata das entidades, mas explica que “ainda neste momento estão a ocorrer trabalhos no campo de recuperação de situações infraestruturais que só agora estão a dar sinal”, mencionando o problema das cheias na Azambuja. 

Na fileira hortofrutícola as zonas mais afetadas foram do Centro até ao Algarve, com maior incidência na região do Ribatejo e Oeste e o Sudueste Alentejano. 

Domingos dos Santos, também produtor do Oeste e Vice-presidente da CAP, dá um exemplo concreto: “no Oeste temos culturas permanentes, pomares de pêra e maçã, nas quais não se viu o resultado de excesso de água no imediato e só agora estamos a sentir. As plantas estão debilitadas porque as raízes ficaram submersas em água muito tempo, (...) há muitas árvores a morrer”, explica o Presidente da FNOP .

Sobre os apoios financeiros, Domingos dos Santos afirma que “se o país quer voltar a ter uma atividade altamente exportadora estas situações têm de ser amparadas” e acrescenta que “se não houver apoio à produção nacional para termos essa capacidade de resposta às exigências do consumidor nacional, quem vai ser penalizado vai ser sempre o consumidor”.

No que diz respeito ao PTRR, para o setor hortofrutícola o responsável espera que “seja a oportunidade que não nos deram no PRR, porque no PRR não houve verbas para a agricultura”. Diz também que este fundo é uma oportunidade para produzir mais alimentos e que “a agricultura já provou que é uma atividade que consegue esgotar os quadros comunitários e fazer o país avançar”. O Presidente da FNOP, não tem dúvidas de que a “fatia” destinada ao setor vai ser completamente executada. 

Luís Seabra, em representação dos agricultores do Ribatejo, termina com o alerta de que os problemas do país não são só na agricultura, dando como exemplo o troço da A1 que ruiu com as tempestades. Tendo como base esse caso, avisa que “as infraestruturas no Ribatejo e no Vale do Tejo estão completamente degradadas e é bom que 2026 seja o ano de arranque” para a sua manutenção.

Vasco Estrela, da CCDR Centro, espera que a tragédia tenha servido de ensinamento e garante, em conclusão no debate, que “se o país não encarar este setor como estratégico e decisivo para o seu desenvolvimento vamos ter circunstâncias muito difíceis para o futuro”.

De 6 a 14 de junho, Santarém é o grande palco para a agricultura nacional, com destaque para os pequenos frutos.