“Mais de 60% das vítimas não denunciam”: bullying continua escondido nas escolas portuguesas

A Escola EB D. Martinho Vaz de Castelo Branco recebeu, no dia 6 de maio, uma ação do projeto “Todos Pintamos Contra o Bullying”, promovido pela Giotto e pelo Instituto de Apoio à Criança, que juntou cerca de 90 alunos, o artista urbano Oker e a cantora Mimicat, numa iniciativa de sensibilização que procurou usar a arte como ferramenta de prevenção e reflexão sobre o bullying nas escolas.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
09 mai. 2026, 07:00

O bullying continua a crescer nas escolas portuguesas e os sinais mais preocupantes já não se limitam à agressão física ou verbal. Ansiedade, comportamentos autolesivos, isolamento e até ideação suicida surgem cada vez mais associados a situações prolongadas de violência entre pares, numa realidade que continua muitas vezes invisível dentro das escolas.

Só em 2025, a Linha SOS Criança e Jovem do Instituto de Apoio à Criança (IAC) recebeu 89 apelos relacionados com bullying, dos quais 30 associados a cyberbullying, um aumento significativo face ao ano anterior. Mas os números revelam apenas parte do problema. “Muitos alunos continuam a não denunciar estas situações — mais de 60% das vítimas não o fazem”, alerta a Coordenadora de Marketing, Comunicação & Projetos do IAC, Anabela Reis, em conversa com o Conta Lá.

Foi precisamente para tentar quebrar esse silêncio que a Escola EB D. Martinho Vaz de Castelo Branco recebeu, no dia 6 de maio, uma ação do projeto “Todos Pintamos Contra o Bullying”, promovido pela Giotto em parceria com o IAC. A iniciativa juntou cerca de 90 alunos, o artista urbano Oker e a cantora Mimicat numa tarde onde pintura, música e sensibilização serviram de ponto de partida para falar sobre violência, exclusão e empatia.

O mural desenvolvido na escola nasceu a partir da obra “A Cadeira Suspensa”, vencedora de um desafio nacional lançado pela Giotto a escolas de todo o país. Entre mais de 150 turmas participantes, os alunos da Escola EB 2,3 Aristides de Sousa Mendes destacaram-se por uma proposta visual construída com diferentes materiais e técnicas, onde palavras associadas ao bullying contrastavam com mensagens de confiança, esperança e autoestima.

Para Oker, o que mais impressionou foi precisamente a forma como os alunos conseguiram traduzir um tema complexo numa linguagem visual clara. “A narrativa visual construída é particularmente eficaz: a utilização da cor, aliada a mensagens positivas e de esperança, funciona como um verdadeiro ‘escudo protetor’ face às palavras de ódio associadas ao bullying”, explica o artista.

Entre o silêncio, o medo e a dificuldade em agir

Apesar da crescente atenção ao tema, o IAC alerta que continua a faltar uma resposta consistente ao fenómeno nas escolas portuguesas. Segundo Anabela Reis, muitas situações só chegam aos pais ou aos serviços especializados quando já se prolongam há demasiado tempo. “É transmitido que as escolas manifestam uma grande incapacidade em encontrar soluções para algumas das situações denunciadas”, afirma.

Os casos acompanhados pela Linha SOS revelam uma realidade cada vez mais agressiva e emocionalmente pesada. “Muitos dos casos acompanhados estão associados a impactos significativos na saúde mental: quadros de ansiedade, depressão, comportamentos autolesivos e até ideação suicida surgem frequentemente ligados a um histórico de situações de bullying prolongadas”, explica Anabela Reis.

Ao mesmo tempo, cresce o número de jovens que recorrem à Linha SOS apenas para desabafar. Para o IAC, isso revela não só sofrimento emocional, mas também dificuldade em encontrar adultos de referência com quem consigam falar.

A identificação precoce continua a ser um dos principais desafios. Alterações de humor, isolamento, medo de ir à escola, quebra no rendimento académico ou recusa em participar podem ser sinais de alerta, mas muitas vezes confundem-se com comportamentos associados à adolescência. Por isso, a responsável defende que mais importante do que procurar sinais isolados é criar espaços seguros de escuta e confiança.

Além disso, o problema tornou-se mais complexo com o crescimento do ambiente digital. Entre os casos reportados surgem situações de assédio online persistente, ameaças e divulgação não consentida de imagens íntimas, aumentando a exposição e o impacto sobre as vítimas.

Pode a arte mudar comportamentos?

A pergunta surge inevitavelmente sempre que aparecem iniciativas de sensibilização dentro das escolas: até que ponto têm impacto real? Para Oker, o efeito destas ações vai além do momento simbólico. “Tudo o que contribua para sensibilizar, alertar e orientar promove inevitavelmente a reflexão crítica sobre o tema”, afirma. E acrescenta: “Quando essa reflexão é feita de forma participada e em contexto de comunidade, o seu efeito tende a ser ainda mais significativo e duradouro.”

Durante o trabalho com os alunos, o artista encontrou um ambiente marcado pela colaboração e pelo respeito mútuo. “Houve um ambiente de respeito, colaboração e boa disposição, sempre com uma postura muito educada e sem conflitos relevantes”, recorda. Essa experiência acabou por influenciar também a forma como decidiu representar visualmente o tema.

“Pensei num grupo de amigos, quase como um clã de heróis, valorizando a entreajuda e o espírito de união, numa lógica de ‘um por todos e todos por um’”, explica. A intenção era criar uma linguagem acessível aos mais novos, onde a amizade funcionasse como elemento de proteção face ao bullying.

Também o IAC acredita que este tipo de iniciativas pode produzir efeitos concretos, mas apenas quando existe continuidade. “Estas ações não se limitam à transmissão de informação. Promovem reflexão, empatia e responsabilização”, afirma Anabela Reis, sublinhando a importância das dinâmicas participativas e da adaptação dos conteúdos às diferentes idades.

Desde 2024, o projeto “Todos Pintamos Contra o Bullying” já envolveu mais de 35 mil alunos, mais de 800 escolas, centenas de professores e quase três mil famílias. Ainda assim, o IAC alerta que ações isoladas tendem a ter apenas impacto momentâneo. “Para garantir mudanças efetivas, é fundamental assegurar continuidade após as ações de sensibilização”, defende Anabela Reis. Isso implica acompanhamento regular dos alunos, intervenção junto de vítimas e agressores, reforço das competências socioemocionais e maior articulação entre escola, famílias e serviços especializados.

Porque, apesar dos murais, das campanhas e das sessões de sensibilização, continua a haver milhares de alunos que permanecem em silêncio, muitas vezes sem que a escola consiga perceber o que lhes está a acontecer.