“O alerta vermelho não salvou a vida de um trabalhador”: a cultura de prevenção funciona em Portugal?

O país ficou devastado pela passagem da tempestade Kristin. Aos incontáveis prejuízos, somaram-se cinco mortes. Especialista lançou petição pedindo mudança na lei para robustecer resposta a catástrofes.

João Nápoles
João Nápoles Editor-executivo
31 jan. 2026, 08:00

“Pelo menos desde domingo era possível antecipar que naquela quarta-feira seria impossível não haver danos”, começa por nos dizer Duarte Costa. No entanto, “o alerta vermelho não salvou a vida de um trabalhador”, lamenta o especialista em alterações climáticas.

Em Portugal, os sistemas de prevenção têm tudo para funcionar. “Essa parte correu bem. Portugal e o IPMA (Instituto Português do Mar e da Atmosfera) têm bons instrumentos para prever o tempo, em termos de modelos climáticos”, afirma Duarte Costa. Miguel Miranda, que dirigiu o IPMA durante dez anos, entre 2013 e 2023, acredita que “a previsão esteve na sua posição mais performante”. “Os meios hoje em dia são bastante sofisticados. O modelo do Centro Europeu é seguido por toda a gente”, acrescenta.

O problema, refere Duarte Costa, “começa quando não há uma decisão preventiva em função dos dados e daquilo que são os alertas”. O especialista elenca ações como “interditar a circulação de pessoas, exigir um recolher obrigatório em determinados municípios, em determinados horários, para proteger as vidas e bens, e recomendações de trabalho obrigatório. Isto poderia prevenir alguns dos danos e sobretudo salvar vidas, que é o mais importante nestas situações”.

O exemplo que dá é o do trabalhador que faleceu enquanto distribuía pão, em Vila Franca de Xira. “Quando temos um alerta vermelho, temos que ficar em casa, temos que nos proteger a nós e aos nossos bens, e temos que mudar a nossa rotina”, refere o embaixador do Pacto Europeu pelo Clima.

Isto porque, explica o pico desta tempestade aconteceu de madrugada. Se acontecesse noutro horário, dificilmente a vida e a rotina das pessoas teria sido diferente, e com prejuízos catastróficos.

 

 

"Claro que numa tempestade como esta era impossível não haver danos, depois de haver vento desta força", reconhece Duarte Costa. Miguel Miranda completa: "a nossa resposta a situações de risco nunca vai acabar com o risco, não é possível. Por mais que façamos investimentos nas infraestruturas, na informação e na transmissão de informação, nunca conseguiremos acabar com o risco".

Mas, como já tinha sido reportado, há especialistas que esperavam outra atitude das autoridades. Duarte Costa defende que, no mínimo, a comunicação, também por parte da Proteção Civil, devia ter sido mais eficaz. Para o especiacista, é preciso explicar as consequências às pessoas e às empresas. "Não é só mandar um SMS a dizer que vão ter rajadas 140 km hora. Porque isso significa árvores que caem, cabos e postos que caem, telhados que levantam voo, portanto as pessoas vão ficar sem telhado em casa. E se os cabos de eletricidade caem e as antenas de telemóvel caem, a pessoa pode ficar desconectada", diz.

Aprender com a catástrofe

Miguel Miranda não aponta dedos à gestão desta crise. Para o diretor executivo do Atlantic International Research Centre, o problema é mais estrutural. "Quando nós falamos, por exemplo, de telhados arrancados, de estádios destruídos, em extensões muito grandes do território, não é uma coisa que se pudesse calcular em meia hora ou duas horas de trabalho. Não é a proteção civil que vai agora reposicionar as casas que estão instaladas em leitos de cheia", refere.

O ex-presidente do IPMA defende que, para o país ser capaz de gerir melhor estas situações, deve repensar a forma de reconstrução, com estruturas mais resistentes do que as que vão substituir. "E eu não tenho a crença que isso vá acontecer, porque a experiência pessoal que tenho já é bastante longa, mesmo nas áreas afetadas, por exemplo, por incêndios florestais, que têm impactos brutais em casas, moradias isoladas no meio praticamente da floresta, reconstrói-se exatamente no mesmo sítio, sabendo todos os intervenientes que é um local de risco elevado", lamenta.

Duarte Costa acredita que são precisas medidas mais robustas e que este evento extremo mostrou que "nós não temos uma cultura preventiva, sobretudo ao nível dos decisores políticos, mas também ao nível dos cidadãos e das empresas, sobre um alerta vermelho, não podemos enfrentar um alerta vermelho e esperar que corra tudo bem".

O embaixador climático propõe, por via de uma petição, uma alteração à Lei de Bases da Proteção Civil, que permita às autoridades a autonomia de definir uma situação de calamidade, que não dependa de uma ordem do Governo. "De facto há um estado de calamidade, mas nós já sabíamos que estes municípios iam entrar numa calamidade", lembra. Para Duarte Costa, teria ajudado que a Proteção Civil pudesse tomar decisões preventivas. "Decisões bastante corajosas, mas que são necessárias para proteger vidas. E esta cultura não existe entre os decisores políticos".

 

 

 

A ciência explica-nos que Portugal está numa zona vulnerável face às alterações climáticas. Por isso, alerta Duarte Costa, "temos de começar a robustecer os mecanismos que temos e coragem para agir preventivamente. E ter uma cultura de prevenção, salva a nossa vida", acredita o especialista em alterações climáticas.