“O objetivo é agarrar o visitante”: Santa Comba Dão quer transformar a EN2 num destino
No percurso pela Estrada Nacional 2, o projeto Nacional 2 - O País Que Conta chegou ao quilómetro 213, em Santa Comba Dão, onde o jornalista Luís Varela de Almeida conduziu um debate centrado num território que procura afirmar-se entre natureza, investimento e memória histórica. Num concelho marcado pela passagem da estrada que liga o país de norte a sul, a discussão revelou uma estratégia clara: transformar quem passa em quem fica.
Entre projetos de mobilidade suave, investimento industrial e valorização do património, Santa Comba Dão procura contrariar a lógica de atravessamento rápido. Ao longo do debate, ficou evidente que o desafio não é apenas atrair visitantes, mas criar condições para que permaneçam e, em alguns casos, para que regressem.
Natureza como porta de entrada e de permanência
A Ecopista do Dão tornou-se um dos principais pilares dessa estratégia. Com 49,6 quilómetros, construída a partir da antiga linha ferroviária da Beira Alta, a infraestrutura afirma-se como um eixo estruturante para o turismo sustentável.
Daniel Sousa, técnico de desporto do município, destacou que este investimento “abriu um bocadinho o horizonte para aquilo que é o turismo da bicicleta, o uso da bicicleta e o turismo sustentável”, sublinhando a importância de um percurso seguro e separado do tráfego automóvel.
A aposta estende-se ao Centro Cycling Princesa do Dão, que disponibiliza cerca de 120 quilómetros de percursos de BTT com diferentes níveis de dificuldade. A crescente procura confirma a tendência: “fins de semana prolongados, muito turista”, referiu, apontando para uma presença cada vez mais significativa de famílias e visitantes atraídos pela combinação entre natureza e atividade física.
Ao mesmo tempo, o município procura resolver limitações antigas, nomeadamente no acesso à ecopista a partir da estação ferroviária, e avançar com a ligação à Ecovia do Mondego, integrando diferentes formas de mobilidade e reforçando a atratividade do território.
Investimento global num território local
A afirmação do concelho não passa apenas pelo turismo. A presença da CCPA Portugal, antiga DIN, mostra como o interior pode acolher projetos industriais e científicos com dimensão internacional.
Rosa Gomes, diretora do laboratório Science to You, destacou a integração da empresa num grupo francês com presença global, sublinhando que “hoje o mundo é global, não existe Lisboa, Porto ou Santa Comba Dão”, defendendo a possibilidade de desenvolver tecnologia avançada fora dos grandes centros urbanos.
Com 94 colaboradores e três unidades industriais, a empresa prepara um investimento de seis milhões de euros numa nova unidade em 2026, a que se juntam dois milhões investidos no laboratório no ano anterior. Ainda assim, a fixação de talento continua a ser um desafio, sobretudo no que diz respeito à atração de profissionais vindos de outras regiões.
Apesar dessas dificuldades, a realidade local oferece argumentos próprios. A proximidade entre casa e trabalho — “às vezes 5 minutos no meio de Santa Comba Dão” — surge como exemplo de uma qualidade de vida que contrasta com os grandes centros urbanos e que pode funcionar como fator de retenção.
Uma estrada para parar e não apenas para atravessar
A presença da EN2 atravessa todo o debate, não apenas como eixo físico, mas como oportunidade estratégica. Para Armando Carvalho, coordenador do guia “Portugal de Norte a Sul pela Mítica Estrada Nacional 2”, o principal desafio passa por alterar a forma como a estrada é percorrida.
“O que nós procuramos é agarrar o máximo de tempo o visitante a cada ponto da estrada”, explicou, contrariando a tendência de fazer o percurso de norte a sul em poucos dias.
A imagem é clara: transformar a estrada numa “espinha de peixe”, onde o visitante é incentivado a sair do eixo principal e explorar o território envolvente. Essa lógica implica uma maior articulação entre municípios e agentes turísticos, capazes de criar experiências que prolonguem a estadia.
Ao mesmo tempo, a evolução do perfil de utilizadores — com mais estrangeiros e mais ciclistas — obriga a repensar infraestruturas e segurança, num percurso que nem sempre está preparado para novos modos de mobilidade.
Um território que se constrói também por dentro
Para além da atração de visitantes, o concelho enfrenta desafios internos, nomeadamente o envelhecimento da população. O programa “Mais Idade, Mais Atividade” envolve cerca de 250 seniores em atividades físicas regulares, promovendo não apenas saúde, mas também inclusão social.
Daniel Sousa sublinhou o impacto destas iniciativas nas freguesias mais isoladas: “quando chegamos a essas freguesias acabamos por ser uma luz ao fundo do túnel”, referiu, destacando o papel do desporto como elemento de proximidade e dinamização comunitária.
Neste contexto, a atividade física deixa de ser apenas uma prática individual para assumir uma dimensão coletiva, ligada à coesão social e à vitalidade do território.
Entre memória e futuro
A identidade de Santa Comba Dão foi também tema de reflexão, inevitavelmente associada a António de Oliveira Salazar. Perante a proposta de criação de um Centro Interpretativo do Estado Novo, os intervenientes convergiram na ideia de que a história deve ser compreendida e contextualizada, e não apagada.
“Não conseguimos mudar a história. Temos que saber tirar partido disso”, afirmou Armando Carvalho, defendendo uma abordagem que valorize o conhecimento. Rosa Gomes reforçou essa posição, sublinhando que “a história não se apaga”, devendo antes ser trabalhada como ferramenta de aprendizagem para as gerações mais jovens.
Entre natureza, investimento e identidade, Santa Comba Dão afirma-se como mais do que um ponto de passagem na Estrada Nacional 2. Num território que procura fixar pessoas, atrair visitantes e reinterpretar o seu passado, o desafio passa por transformar movimento em permanência e fazer da estrada um convite a ficar.