“O Xico era a melhor pessoa do mundo”: amigos transformam aniversário em festival para celebrar figura mítica

Concertos, DJ sets, performances e karaoke vão ocupar as DAMAS no próximo dia 6 de junho para celebrar a memória de Xico da Ladra, uma das figuras mais marcantes da cena cultural underground de Lisboa, num festival criado por amigos, que pretende recuperar o espírito de liberdade, partilha e comunidade que o tornou uma presença incontornável da noite lisboeta.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
15 mai. 2026, 08:00

Durante anos, havia uma espécie de certeza informal na noite lisboeta: quem saísse para ouvir música, dançar ou simplesmente atravessar a madrugada acabaria, mais cedo ou mais tarde, por encontrar Xico da Ladra. Não tinha discos editados nem procurava protagonismo, mas tornou-se presença habitual em espaços como o Laboratório, o Estrela d’Ouro, o Banco ou as DAMAS, onde DJs, músicos, atores, escritores e artistas acabavam inevitavelmente por se cruzar à sua volta.

Agora, quase seis anos depois da sua morte, amigos, artistas e público vão voltar a reunir-se para o celebrar. No dia 6 de junho, as DAMAS recebem a “Festa do Xico, CRL!”, um festival de um dia com concertos, performances, karaoke e DJ sets criado para manter viva a memória de uma das figuras mais acarinhadas da noite lisboeta.

“O Xico era a melhor pessoa do mundo”, resume, em entrevista ao Conta Lá, Elísio Sousa, um dos organizadores do evento e amigo de Xico da Ladra. “Era genuinamente simpático, com valores e ideais humanistas e progressistas, com quem era fácil falar e, invariavelmente, ser levados a crescer e a sermos melhores.”

Nascido em Albergaria-a-Velha com o nome João Ricardo Machado Matos, chegou a Lisboa para estudar, trazendo já uma obsessão por discos, livros e descoberta cultural. Cresceu num bairro operário e, segundo Elísio Sousa, todos os trocos que juntava acabavam investidos em música e literatura. Foi também em Lisboa, na Feira da Ladra, que nasceu a alcunha que o tornaria conhecido.

“Tornou-se especialista em comprar discos por 1 euro e escreveu um manifesto sobre como o fazer”, recorda o organizador. No texto, Xico aconselhava, por exemplo, a “não mostrar que se tem dinheiro”, a “fazer cara de gato das botas” durante as negociações e até a aparecer na feira entre as 9h00 e as 11h00 para aumentar as hipóteses de encontrar discos raros. Foi dessa relação com a Feira da Ladra que nasceu o “da Ladra” do nome artístico e também uma parte importante da sua identidade cultural.

Uma figura central da Lisboa underground

Mais do que DJ ou programador cultural, quem o conheceu descreve-o como alguém que ligava pessoas, projetos e espaços. “A sua presença era como uma estrela polar onde gravitavam todos os projetos mais underground e criativos de Lisboa”, afirma Elísio Sousa.

Entre 2016 e 2017, participou ativamente nas 89 sessões culturais do ciclo “Estrela Decadente”, no bairro Estrela d’Ouro, onde concertos, leituras, debates e DJ sets se prolongavam muitas vezes até ao dia seguinte. Segundo o organizador, a música escolhida por Xico ajudava a criar uma atmosfera de liberdade e experimentação difícil de reproduzir hoje.

A cidade, acredita, mudou bastante desde então. “Sítios mais bairristas e tradicionais começaram a desaparecer”, lamenta. Associações e espaços culturais alternativos frequentados por Xico foram fechando ou transformando-se em locais “descaracterizados”, num contexto marcado pela subida dos preços e pela transformação da cidade.

Ainda assim, a memória de Xico continuou viva entre quem se cruzou com ele. Após a sua morte, em 2020, centenas de pessoas participaram no funeral em Albergaria-a-Velha, num encontro que começou em tom de despedida e acabou transformado numa festa improvisada no bairro onde cresceu.

A ideia de criar um festival em sua homenagem surgiu mais tarde, depois de um comentário lançado pelo músico Rodrigo Vaiapraia. “Há tanto festival sem critério, como é que ainda não há um festival em honra ao Xico?”, recorda Elísio Sousa. O desabafo acabou por transformar-se em desafio.

“Uma festa alegre, livre e sem preconceitos”

A “Festa do Xico, CRL!” acontece no dia 6 de junho, um dia depois do aniversário de Xico, e vai ocupar duas salas das DAMAS com dezenas de artistas e atividades, entre concertos, DJ sets, karaoke e performances. Entre os nomes confirmados estão Benja, Primeira Dama, Acid Acid, Marlon Ruivo, Violeta Luz, The Youths e Tânia Afonso.

Mas os organizadores insistem que o mais importante não é o cartaz, mas sim, o espírito da festa. “Uma festa com o espírito do Xico é uma festa alegre, despretensiosa, com liberdade e onde todas as expressões artísticas têm espaço, sem preconceitos nem snobismos”, explica Elísio Sousa. “É uma festa coletiva, feita voluntariamente e com muito amor e amizade”, acrescenta, recordando o grito que Xico popularizou entre amigos: “A-MI-ZA-DE!!!”

A receita do evento será doada à SOS Racismo, uma escolha que os organizadores relacionam diretamente com os valores de Xico. “Era uma pessoa racializada, antifascista e antirracista, e isso fazia parte da sua identidade”, afirma. O festival termina com a abertura da famosa mala amarela onde Xico transportava os discos para os seus DJ sets, fechada desde a sua morte e reaberta apenas para o alinhamento final da noite. Talvez seja essa a forma mais próxima de o trazer de volta a Lisboa por mais umas horas.