“Podemos estar perante uma crise alimentar”: setor hortofrutícola alerta para cenário “insustentável” após aumento dos custos na produção

O responsável da Torriba, Gonçalo Escudeiro, alertou para o risco de uma crise alimentar devido ao aumento dos custos dos combustíveis e fertilizantes, defendendo medidas urgentes de apoio à agricultura portuguesa. 
João Nogueira
João Nogueira Jornalista
20 mai. 2026, 11:15

A subida dos preços dos combustíveis e dos fertilizantes está a deixar o setor agrícola português sob forte pressão e os produtores admitem que o país pode estar a aproximar-se de uma crise alimentar. O alerta foi deixado por Gonçalo Escudeiro, representante da organização de produtores hortofrutícolas do Ribatejo, Torriba, durante o especial de informação do programa Juca desta terça-feira.

A organização representa cerca de 150 produtores numa área total de seis mil hectares e, segundo o responsável, a situação atual está a tornar-se insustentável para muitas explorações agrícolas, sobretudo nas culturas ligadas à indústria de congelados e ao tomate para conserva.

“Se continuarmos nestas condições, com problemas no transporte de fertilizantes e combustíveis, sem dúvida que podemos estar perante uma crise alimentar”, afirmou, acrescentando mesmo que "não será uma crise apenas nacional, mas sim à escala global”.

O tema chegou à discussão também depois dos protestos desta terça-feira em Estrasburgo, onde agricultores europeus se manifestaram em frente ao Parlamento Europeu para exigir respostas urgentes da União Europeia. No mesmo dia, Bruxelas apresentou um plano de ação para os fertilizantes, com medidas imediatas de apoio ao setor e estratégias de longo prazo para reduzir a dependência europeia das importações.

Mas para Gonçalo Escudeiro, o problema já está no terreno e exige respostas rápidas. O responsável explica que a combinação entre aumento dos custos e escassez de matérias-primas está a criar um cenário particularmente delicado para os agricultores portugueses: “A menor disponibilidade de combustíveis e fertilizantes faz disparar os preços. E as regiões mais frágeis começam logo a sofrer primeiro”.

 

Portugal a responder de forma lenta

O dirigente da Torriba considera ainda que Portugal está a responder de forma muito mais lenta e limitada do que outros países europeus. E aponta diretamente à falta de medidas nacionais de apoio ao setor: “Espanha já tem um pacote de 500 milhões de euros. Portugal fala em cerca de 20 milhões. Para estarmos em igualdade de circunstâncias precisávamos de pelo menos cinco vezes mais”.

Segundo Gonçalo Escudeiro, o cenário atual é até mais preocupante do que aquele vivido no início da guerra da Ucrânia. Na altura os mercados conseguiram reagir melhor e houve respostas mais rápidas das entidades governamentais e das próprias cadeias de distribuição: “Hoje temos um impacto global muito maior e os mercados não estão a conseguir reagir. Estamos perante uma enorme ineficiência das entidades governamentais”.

O responsável explica que muitos produtores já tinham contratos fechados antes da escalada dos preços dos combustíveis e fertilizantes, sobretudo nos setores hortofrutícolas ligados à transformação industrial.

É o caso da produção de tomate para concentrado ou da batata destinada a produtos congelados e fritos: “Os contratos foram assinados em janeiro e fevereiro, antes deste aumento brutal dos custos. Neste momento, os agricultores estão completamente desenquadrados da realidade”.

As consequências começam já a sentir-se nas contas das explorações agrícolas. Gonçalo Escudeiro estima que os custos tenham aumentado entre 500 e 700 euros por hectare apenas nos últimos tempos.

“Estamos a falar de milhões de euros adicionais quando multiplicamos isto pelos seis mil hectares representados pela nossa organização”, explicou.

 

"Escassez pode acontecer de um momento para o outro"

E o receio não é apenas o preço. O setor teme também uma eventual rutura no abastecimento de fertilizantes e combustíveis nos próximos meses. O dirigente admite que a escassez “pode acontecer de um momento para o outro” e acusa o mercado de alimentar fenómenos especulativos: “As pessoas deixam de conseguir comprar aos preços que estão a ser praticados”.

Apesar das críticas, Gonçalo Escudeiro reconhece que a União Europeia terá inevitavelmente de avançar com soluções estruturais, como a aposta em fertilizantes de base biológica e em modelos agrícolas menos dependentes de mercados externos.

Mas insiste que esse debate não resolve a urgência atual: “Essas soluções são importantes e têm de ser trabalhadas. Mas neste momento o que precisamos é de garantir matérias-primas para os próximos meses”.