“Precisamos muito que o Governo nos ajude”: Alcácer do Sal aponta a falta de apoios após as cheias

Quatro meses depois da tempestade Kristin, Alcácer do Sal continua a recuperar dos prejuízos causados pelas cheias do Rio Sado. Em entrevista ao jornalista Pedro Miguel Costa, no âmbito do projeto Nacional 2 - O País Que Conta, a presidente da câmara, Clarisse Campos, criticou a falta de apoios do Governo a empresas e comerciantes, contestando diretamente as declarações do primeiro-ministro sobre a resposta financeira no pós-tempestade.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
27 mai. 2026, 18:01

No percurso pela Estrada Nacional 2, o projeto Nacional 2 - O País Que Conta chegou a Alcácer do Sal, onde o jornalista Pedro Miguel Costa acompanhou uma presidência aberta da autarca Clarisse Campos, quatro meses depois das cheias provocadas pela tempestade Kristin. Num concelho ainda marcado pelos danos deixados pela subida das águas do Rio Sado, a entrevista acabou por revelar um território que continua a recuperar com meios limitados, enquanto cresce a contestação à resposta do Governo no pós-catástrofe.

Entre habitações destruídas, negócios encerrados e dezenas de milhões de euros em prejuízos, a presidente da câmara descreve um esforço de reconstrução sustentado sobretudo pela população, comerciantes e serviços municipais. Apesar de reconhecer eficácia na fase de emergência, Clarisse Campos acusa o executivo de falhar no apoio à recuperação económica do concelho e contesta diretamente as declarações recentes do primeiro-ministro, Luís Montenegro, sobre os apoios às empresas afetadas.

“O pós está a ser muito duro”

A tempestade que atingiu Alcácer do Sal em fevereiro obrigou ao adiamento da própria presidência aberta em que decorreu a entrevista. Quatro meses depois, os sinais da destruição continuam visíveis e o processo de recuperação permanece longe de concluído.

“O concelho já está a erguer-se, mas com muito, muito trabalho e muito esforço”, afirmou Clarisse Campos, descrevendo uma recuperação suportada sobretudo por comerciantes, empresários e moradores locais que tentam reconstruir habitações e negócios afetados pelas cheias.  

Segundo a autarca, esse esforço tem sido feito praticamente sem apoio externo. “É um esforço que é só das pessoas de Alcácer, de quem vive no concelho. Não é um esforço que seja acompanhado pelos nossos governantes”, criticou, assumindo uma das críticas mais duras ao acompanhamento político da situação desde a tempestade.  

Ainda assim, Clarisse Campos faz uma distinção clara entre a resposta inicial e aquilo que se seguiu à emergência. “Durante a fase de socorro, nós tivemos sempre muita ajuda de todas as entidades, inclusivamente do Governo”, reconheceu, antes de concluir: “o pós é que está a ser muito duro”.  

Empresas continuam sem apoios apesar das promessas

A principal crítica da presidente da câmara dirige-se à ausência de apoios financeiros para empresas e comerciantes afetados pelas cheias. Enquanto proprietários de habitações inundadas começaram a receber verbas através da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR), a situação dos negócios locais continua praticamente sem resposta. “Os particulares, os comerciantes, até ao momento receberam zero”, afirmou, garantindo que a autarquia acompanha diariamente a situação dos empresários do concelho.  

A resposta surge no mesmo dia em que o primeiro-ministro afirmou no Parlamento que mais de 90% das candidaturas de apoio às empresas já tinham sido liquidadas. Clarisse Campos rejeitou diretamente essa leitura quando confrontada com as declarações de Luís Montenegro. “Não, não é possível”, respondeu, contrapondo a realidade do concelho às palavras do chefe do Governo.  

Para a autarca, os números apresentados pelo executivo poderão refletir mecanismos indiretos de apoio, como medidas de layoff ou verbas associadas ao Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), mas não indemnizações efetivas pelos prejuízos causados pelas cheias.

“A verdade é esta: os comerciantes receberam zero por parte do Governo e as empresas também não têm sido apoiadas”, insistiu.  

Uma cidade obrigada a começar do zero

O impacto económico das cheias continua a refletir-se na vida quotidiana da cidade. Clarisse Campos descreve uma quebra abrupta na estabilidade de muitas famílias e comerciantes locais. “Houve uma interrupção há quatro meses e uma grande quantidade de pessoas teve de começar praticamente do zero”, afirmou.  

Em alguns casos, a recuperação acabou mesmo por não acontecer. A Casa Avanesa, estabelecimento histórico ligado à papelaria, fotografia e brinquedos, é um dos exemplos mais simbólicos dessa realidade.

“A informação que nós temos é que eles não vão abrir”, revelou a presidente da câmara, associando diretamente o encerramento à ausência de apoios financeiros capazes de permitir a recuperação do negócio.  

Para a autarca, Alcácer do Sal enfrenta uma situação particularmente exigente porque, apesar da menor dimensão face a outros municípios afetados, conseguiu rapidamente validar candidaturas e concluir vistorias técnicas, sem que isso se tenha traduzido numa resposta financeira proporcional.

“Estamos diariamente a correr atrás do prejuízo”

A dimensão dos danos obrigou a autarquia a reformular prioridades políticas, financeiras e estratégicas para os próximos anos. Até ao momento, o município recebeu pouco mais de três milhões de euros, um valor muito distante dos cerca de 80 milhões de euros de prejuízos estimados apenas nas infraestruturas municipais. “Nós andamos diariamente a correr atrás do prejuízo, literalmente”, afirmou Clarisse Campos.  

Segundo a presidente da câmara, projetos inicialmente previstos para o mandato tiveram de ser suspensos para concentrar recursos na recuperação das zonas afetadas pelas cheias. “Sabemos que vamos passar quatro anos a trabalhar para reabilitar”, admitiu, reconhecendo que a reconstrução passou a dominar a estratégia municipal.  

A resposta da autarquia passa agora por mobilizar equipas técnicas internas, recorrer a candidaturas e acelerar intervenções com os recursos disponíveis, numa tentativa de minimizar os impactos acumulados desde fevereiro.

“No fundo, é o que vamos fazer: tentar tirar daquilo que foi negativo algo de positivo para a cidade”, concluiu.  

Quatro meses depois da tempestade Kristin, Alcácer do Sal continua a tentar recuperar de um dos momentos mais difíceis da sua história recente. Entre obras por concluir, empresas sem apoio e uma estratégia municipal obrigada a mudar de rumo, o concelho enfrenta agora um processo de reconstrução que, segundo a própria autarca, está longe de terminado e que continua a depender, sobretudo, do esforço de quem ali vive e trabalha.