“Quando se remove o género como barreira, o talento emerge naturalmente”: o caso da Parques Tejo
Hoje, 8 de março, assinala-se o Dia Internacional da Mulher. Mais do que uma data simbólica, é também um momento de reflexão sobre as desigualdades que continuam a marcar a vida profissional e pessoal de muitas mulheres. Apesar dos avanços legislativos e de uma presença crescente no mercado de trabalho, as diferenças persistem, seja no acesso a cargos de decisão, na distribuição do trabalho doméstico ou no tempo disponível para lazer.
Em Portugal, estas assimetrias continuam bem visíveis. Como se observa na datasheet ‘Entre Trabalho e Lazer: A Persistência das Desigualdades de Género na Gestão do Tempo’, publicada em 2024 por Maria João Guedes, do Observatório Género, Trabalho e Poder, as mulheres dedicam menos tempo ao trabalho remunerado e mais tempo ao trabalho doméstico não pago do que os homens. Num dia útil típico, os homens dedicam cerca de 67% do seu tempo ao trabalho remunerado, enquanto as mulheres ficam pelos 64%. Em contrapartida, estas despendem cerca de 20% do seu tempo em tarefas domésticas não remuneradas, face a apenas 13% no caso dos homens.
Esta diferença prolonga-se para o tempo livre. De acordo com os dados do mesmo estudo, os homens continuam a dispor de mais tempo para lazer e atividades recreativas do que as mulheres. Mesmo ao fim de semana, quando seria expectável uma distribuição mais equilibrada, as mulheres continuam a assumir a maior parte do trabalho doméstico e de cuidados. A consequência é uma desigualdade estrutural na gestão do tempo: enquanto muitos homens concentram parte significativa dos seus fins de semana em atividades de lazer, as mulheres continuam a dedicar grande parte desse período a tarefas domésticas e trabalho não remunerado.
A liderança feminina ainda é exceção
Este cenário ajuda a explicar por que razão a presença de mulheres em cargos de liderança continua a ser limitada. Mesmo entre profissionais qualificadas ou em posições hierárquicas elevadas, as mulheres continuam a dedicar mais tempo ao trabalho doméstico do que os homens, o que pode afetar o acesso a oportunidades de progressão profissional.
É neste contexto que o caso da Parques Tejo surge como uma raridade estatística. A empresa municipal responsável pela gestão do estacionamento e da mobilidade em Oeiras tem, atualmente, um Conselho de Administração maioritariamente feminino: Mara Duarte é presidente do Conselho de Administração desde novembro de 2025 e Dina Aguiar é administradora executiva. Num setor historicamente associado ao masculino, como o da mobilidade e transportes, esta configuração continua a ser pouco comum.
Em entrevista ao Conta Lá, Mara Duarte refere que a presença de duas mulheres em funções executivas representa mais do que uma coincidência. A responsável considera que se trata de um sinal de mudança estrutural e não apenas uma exceção feliz. “No setor da mobilidade, que continua a ser predominantemente masculino, a Parques Tejo demonstra que quando as organizações valorizam competência, visão estratégica e serviço público, a liderança feminina surge naturalmente”.
Segundo a responsável, esta realidade não resulta de um episódio isolado, mas de uma evolução gradual da organização e da própria cultura institucional. “Na Câmara Municipal de Oeiras e na Parques Tejo vivemos a paridade como prática, não como slogan”, explica. Mara Duarte sublinha ainda que a legislação que estabelece quotas mínimas de representação feminina ajudou a acelerar a mudança, mas não é suficiente por si só para transformar as organizações. Na sua leitura, “a lei criou um ponto de partida - não um ponto de chegada”, sendo a mudança real consequência da valorização da competência e da diversidade nas equipas de liderança.
Diversidade que influencia decisões
Dentro da Parques Tejo, a presença feminina no topo da hierarquia é vista também como um fator que influencia a forma como as decisões são tomadas.
A administradora executiva da empresa, Dina Aguiar, revela que o seu trabalho consiste em acompanhar diariamente as diferentes áreas de atividade e destaca a importância da diversidade nos processos de decisão. Na sua perspetiva, “não porque as mulheres decidam ‘melhor’ ou ‘pior’, mas porque trazem diversidade de perspetivas, experiências e sensibilidades”, algo que acaba por contribuir para decisões mais equilibradas e para uma cultura interna mais colaborativa.
Essa visão reflete-se também na cultura organizacional que a administração procura promover dentro da empresa. De acordo com a administradora, a conciliação entre vida profissional e pessoal deve ser entendida como um princípio transversal. Aguiar defende que essa preocupação deixa de ser “um problema das mulheres” e passa a integrar a cultura da organização como um todo, acrescentando que o objetivo é promover um ambiente de trabalho colaborativo e não competitivo.
Da liderança à estrutura da empresa
A presença feminina não se limita ao topo da hierarquia. De acordo com Dina Aguiar, cerca de metade das direções de departamento da Parques Tejo são atualmente ocupadas por mulheres, resultado de uma estratégia de desenvolvimento interno e de recrutamento baseada no mérito.
A responsável explica que esta evolução não surgiu de forma repentina. Pelo contrário, é o resultado de um processo gradual de valorização de talento dentro da organização. Como refere, “é fruto de políticas consistentes de recrutamento transparente, desenvolvimento interno e valorização do mérito”.
Segundo a administradora executiva, a empresa nunca estabeleceu quotas internas para atingir este equilíbrio. Ao invés disso, a seleção de lideranças baseia-se em critérios claros, tais como “competências técnicas, ética profissional, visão estratégica e capacidade de trabalho em equipa”. E acrescenta: “quando se remove o género como barreira, o talento emerge naturalmente”.
Apesar destes avanços, Dina Aguiar reconhece que o setor da mobilidade continua a ser tradicionalmente masculino e que persistem obstáculos culturais à igualdade plena. Na sua análise, “o principal obstáculo continua a ser cultural. A mobilidade é vista como um setor ‘duro’ e historicamente associado ao masculino”. Ainda assim, a presença crescente de mulheres em funções operacionais, como motoristas ou fiscais de estacionamento, mostra que essa realidade começa a mudar.
O papel da autarquia nas escolhas
A composição da administração da Parques Tejo resulta de nomeações realizadas pelo acionista municipal, a Câmara Municipal de Oeiras. Sílvia Breu, vereadora da Câmara, expõe ao Conta Lá que o processo de escolha teve como base critérios técnicos e profissionais.
De acordo com a responsável, “a nomeação assentou em critérios de competência, experiência profissional relevante e capacidade de liderança estratégica”, tendo sido avaliados fatores como conhecimento do setor, capacidade de execução e compromisso com o interesse público.
Além disso, a predominância feminina no Conselho de Administração da Parques Tejo também não resultou de uma política de quotas, “mas sim da identificação das pessoas mais qualificadas para o exercício das funções”. Ainda assim, a autarquia dispõe de instrumentos estratégicos orientados para a promoção da igualdade. Entre eles está o Plano Municipal para a Igualdade e Não Discriminação, que estabelece orientações para reforçar uma cultura institucional mais inclusiva nas diferentes áreas da governação local.
Para Sílvia Breu, a presença feminina em posições de liderança pode ter efeitos positivos na gestão das organizações públicas. A vereadora considera que a pluralidade contribui para melhorar os processos de decisão, defendendo que “a diversidade de perspetivas promove abordagens mais inclusivas e contribui para uma cultura organizacional mais equilibrada”.
Entre o símbolo e a mudança
Apesar de exemplos como o da Parques Tejo, os dados mostram que a igualdade plena continua longe de ser alcançada. A sobrecarga doméstica feminina, a desigual distribuição do tempo e as diferenças no acesso ao lazer ou à participação cívica continuam a limitar oportunidades e trajetórias profissionais.
O estudo do Observatório Género, Trabalho e Poder conclui que combater estas assimetrias exige políticas públicas que incentivem uma partilha mais equilibrada das responsabilidades domésticas e promovam a conciliação entre vida profissional, familiar e pessoal.
No setor da mobilidade, onde as lideranças femininas continuam a ser raras, o caso da Parques Tejo mostra que a presença de mulheres em cargos executivos é possível e pode trazer novas perspetivas à gestão pública.
Se essa presença se tornará regra ou continuará a ser exceção, é uma pergunta que permanece em aberto. No Dia Internacional da Mulher, a resposta depende menos de datas simbólicas e mais da capacidade das organizações e da sociedade em transformar igualdade formal em igualdade real.