“Queremos turismo de janeiro a dezembro”: Lamego procura fixar visitantes e afirmar-se além dos picos sazonais
Esta segunda-feira, a emissão da Estrada Nacional 2 fez paragem em Lamego, levando para o centro do debate o presente e o futuro do turismo nesta cidade duriense. Em direto, a jornalista Mariana Rebelo Silva moderou uma conversa que reuniu Hugo Maravilha, vice-presidente da Câmara Municipal de Lamego, o cónego Filipe Pereira, diretor de Turismo da Diocese, e Miguel Duarte, diretor da Escola de Hotelaria e Turismo do Douro.
Ao longo da emissão, ficou clara uma ideia comum: Lamego tem potencial, mas enfrenta desafios estruturais que impedem uma afirmação turística mais consistente ao longo de todo o ano.
Um dos pontos centrais da discussão foi o Plano Estratégico de Turismo que o município está a desenvolver. “É fundamental pensar o turismo a médio e longo prazo”, sublinhou Hugo Maravilha, defendendo que a cidade não se pode limitar à projeção da emblemática Festa de Nossa Senhora dos Remédios. “Lamego não pode cingir-se à Festa dos Remédios. Nós queremos turismo de janeiro a dezembro”, afirmou, acrescentando que a diversidade de eventos ao longo do ano deve ser melhor integrada numa estratégia global.
Ainda assim, há sinais positivos. O vice-presidente destacou o crescente interesse de operadores turísticos pela região e melhorias ao nível das acessibilidades, nomeadamente com o futuro IC26, que ligará Lamego a Trancoso. “Será mais fácil chegar a Lamego e até sair daqui. Vai ser uma mais-valia para o território”, referiu.
Do lado da Diocese, o cónego Filipe Pereira chamou a atenção para um dos principais entraves: a dificuldade em fixar visitantes. “Temos excursionistas que vêm e vão no mesmo dia, não ficam alojados aqui”, explicou. Apesar disso, o turismo religioso continua a ser uma âncora importante, com destaque para os peregrinos oriundos de Espanha, Argentina e Brasil. Também o turismo fluvial, que traz, por exemplo, visitantes de países como os Estados Unidos e a Alemanha, desempenha um papel importante na região.
A dimensão histórica e espiritual de Lamego foi também destacada, com o responsável a recordar que o local de peregrinação remonta ao século XIV, tendo a primeira capela sido construída no século XVIII. Ainda assim, há margem para melhorar a experiência dos visitantes, nomeadamente ao nível da inclusão. A requalificação da Mata dos Remédios está já a ser pensada nesse sentido: “Queremos torná-la acessível a todos. Hoje ainda não é um espaço de turismo de natureza inclusivo”, admitiu.
A formação e a valorização dos recursos humanos foram outro dos temas em destaque. Miguel Duarte alertou para a necessidade de garantir percursos formativos completos e alinhados com o território. A Escola de Hotelaria e Turismo do Douro tem apostado na construção de uma identidade gastronómica própria, baseada nos produtos e saberes locais. “Queremos que a gastronomia seja um elemento de atração turística”, afirmou, acrescentando que o objetivo passa também por criar uma espécie de biblioteca de conhecimento sobre os produtos, fornecedores e tradições da região.
Esta ligação entre formação e território é vista como essencial, mas enfrenta dificuldades. “Há áreas menos apelativas, como o serviço de mesa, onde é preciso um esforço maior de captação”, explicou o diretor, apelando ao envolvimento das empresas do setor.
Também Hugo Maravilha reconheceu o problema da falta de mão de obra qualificada. “Apesar de termos uma escola de hotelaria, faltam-nos recursos humanos. Muitos acabam por sair para outras zonas do país onde conseguem ganhar mais dinheiro”, disse.
Apesar dos desafios, os intervenientes convergiram na ideia de que Lamego tem uma oferta rica e diversificada. O património histórico, o turismo religioso e o enoturismo são pilares fundamentais, mas a gastronomia surge como um elemento transversal. “Quem visita Lamego acaba por descobrir os produtos locais”, destacou o cónego Filipe Pereira, apontando exemplos como a Bôla de Lamego, os vinhos e o espumante.
No final, ficou uma síntese simples, mas reveladora das várias perspetivas: para o cónego, o essencial é “a história e o património”, para Miguel Duarte, “as pessoas”, e para o vice-presidente, o grande desafio continua a ser transformar visitas passageiras em estadias prolongadas. “Lamego trata bem quem nos visita. Falta fazer com que fiquem cá mais tempo”, concluiu.