“A nossa média de pernoita é de um dia e meio”: o desafio de fazer ficar quem passa por Viseu
No nono dia de emissão da Estrada Nacional 2, o Conta Lá fez paragem em Viseu. No Km 172 desta rota, debateu-se a importância da gastronomia local na atração de turismo, assim como a diversidade de oferta cultural que rodeia o município, e da fase desafiante que atravessa o setor vinícola do Dão.
Tal como no Douro, também em Viseu e no Dão a discussão já não passa tanto por atrair visitantes, mas por criar mais valor com quem chega. O debate recente na cidade revelou um território dinâmico, mas ainda com margem para consolidar a sua estratégia. Viseu tem conseguido afirmar-se como um destino diversificado. “Temos vários tipos de clientes conforme a altura do ano”, explicou Isabel Peres, Administradora da Visabeira Turismo e Imobiliária, destacando a capacidade de atrair tanto turismo de lazer como profissional.
Ainda assim, há um dado que resume um dos principais desafios: “A nossa média de pernoita é de um dia e meio.” Este número levanta uma questão central: como prolongar a estadia? A resposta tem passado pela criação de experiências ajustadas. “Temos pacotes que promovem um prolongamento de estadia. Damos sugestões de roteiros aos clientes”, referiu.
Essas estratégias adaptam-se ao calendário. “Como cadeias de hotéis, tentamos ajustar os packs à altura do ano”, explicou, dando um exemplo concreto: “No verão há uma ligação à Feira de São Mateus”, que é a mais antiga da Península Ibérica e é “uma feira popular que merece ser visitada”. A lógica é clara: criar motivos para ficar mais tempo. E isso não depende apenas da hotelaria.
O vinho surge como um dos pilares dessa construção de valor. Manuel Pinheiro, presidente da Comissão Vitivinícola Regional do Dão, defendeu a necessidade de apostar num perfil diferente de visitante: “Turismo qualificado é quem vem, consome nos restaurantes e dorme cá. Traz mais valor.”
Boas memórias
O enoturismo aparece aqui como ferramenta estratégica. Mesmo num contexto em que “o consumo de vinho está a decair”, esta vertente continua a crescer e pode ajudar a estruturar a oferta do território. Mas há um problema de visibilidade. “Os vinhos do Dão são ótimos, mas há que dá-los a conhecer”, afirmou, sublinhando a necessidade de promoção e articulação entre agentes. Uma das ideias passa por integrar melhor o vinho na experiência turística. “É possível fazer a N2 a provar vinhos das várias regiões”, sugeriu, apontando para uma narrativa que liga território e produto.
Essa ligação ao território é reforçada por quem o percorre. Stefanie Silva, uma enfermeia viseense que fez a Estrada Nacional 2 de autocaravana, descreve uma experiência marcada pela liberdade: “É uma viagem que deve ser feita com alguma tranquilidade. Por dia, fazíamos uns 40 ou 60 km." Mas também identificou limitações. “Tivemos algumas dificuldades no parqueamento”, referiu, apontando para a necessidade de melhores infraestruturas de apoio.
Ainda assim, a perceção global é positiva. “As pessoas guardam muito boas memórias de Viseu, sobretudo a nível gastronómico” e, de forma geral, “Viseu sabe acolher”. A gastronomia é, aliás, um dos ativos mais fortes da região. O chef Diogo Rocha sublinhou essa identidade: “Viseu é conhecido como um lugar onde se come muito bem.”
Mais do que isso, destacou uma abordagem sustentável baseada na valorização de produtos locais: “É chegar ao mercado e pedir feijão papo de rola ou feijoca à senhora que lá vende”, garantindo que esses produtos não desaparecem.
No meio desta equação, surge uma questão estrutural: o futuro do território. Nuno Bico, presidente da Câmara Municipal, apontou para a necessidade de renovação: “Se queremos fixar jovens, temos de ir ao encontro das necessidades deles.”
Porque, no fim, o desafio não é apenas turístico. É demográfico, económico e social. Viseu tem qualidade, tem oferta e tem procura. “Viseu está a saber vender-se bem e recebe bem”, como resumiu Isabel Peres. Mas, tal como no Douro, isso pode não ser suficiente. O verdadeiro desafio está em transformar essa procura em permanência, experiência e valor duradouro.