“Despedir pessoas é a questão dramática”: custos da energia ameaçam indústria portuguesa

O economista Luiz Rocha alerta para o impacto do aumento dos custos da energia na indústria portuguesa, com riscos de despedimentos e encerramento de empresas. Declarações dadas em entrevista à jornalista Estela Machado, na rubrica Informação Objetiva, do programa Juca.
Rui Mendes Morais
Rui Mendes Morais Jornalista
Redação
Redação
26 mar. 2026, 11:25

O aumento contínuo dos custos da energia está a preocupar os setores industriais portugueses, particularmente nos mais dependentes de consumo energético intensivo, como a indústria da cerâmica. O setor, que fatura cerca de 1,5 mil milhões de euros e exporta para 164 mercados, pode enfrentar dificuldades acrescidas num contexto de subida dos preços dos combustíveis.

Em entrevista à jornalista Estela Machado na rubrica Informação Objetiva, do programa Juca, o economista, Luiz Rocha explicou que “as empresas seja qual for a atividade, cerâmica ou outra, correm riscos (…) e são vários, uns que são mais controláveis e outros que não são (…). A ocorrência de uma guerra é uma coisa perfeitamente não controlável, mas as empresas tem de estar minimamente preparadas ou, se não estiverem tem de ser flexíveis para se ajustarem rapidamente”.

O agravamento dos custos, especialmente do gás natural, pode ter consequências diretas também no emprego. Segundo o economista, em cenários de maior pressão, as empresas que não encontrarem alternativas, podem acabar por “despedir pessoas, é a questão dramática que existe”.

Face a este contexto, Luiz Rocha defendeu que “uma das coisas que as empresas deveriam fazer é a diversificação das suas fontes energéticas”, reconhecendo, no entanto, que se trata de “uma tarefa, por vezes, árdua de executar”. Acrescentou ainda que “uma indústria que dependa muito de energia (…) tem de estar devidamente prevenida, não pode estar dependente de uma única fonte, porque fica muito mais sujeita às flutuações e às crises”.

O economista alertou também para cenários mais graves, afirmando que “nessas citações mais gravosas, podemos vir a ter empresas a fechar a portas”. Relativamente ao papel do Estado, Luiz Rocha considerou que “o  Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) inicial (…) pouco vem para as empresas” e criticou a tendência de dependência de apoios públicos, referindo que “os empresários começam a apelar ao Estado”, acabando por ter têm menos incentivos para se ajustarem. 

Segundo o economista, o que se está assistir agora “é as empresas apelarem ao estado para terem apoios (…), uma situação que é de evitar”. Trata-se, na sua opinião, de "uma má política económica”, uma vez que “o Estado neste tipo de situações está a abdicar de receita pública”.

Por fim, deixou um alerta para as finanças públicas em caso de agravamento da situação económica: “Se a coisa se agravar e entrarmos numa recessão, o Estado vai precisar de gastar muito dinheiro (…). Pode haver, o aumento do subsídio de desemprego e, este acréscimo, pode fazer falta”. 

O especialista concluiu ainda que “não faz sentido que o Estado, quando sabe que vai ter uma despesa, começar logo por abdicar da receita, porque a despesa depois vai ter-la na mesma. E aí temos o duplo efeito em termos das contas públicas”. Acrescentando que este cenário agrava a sustentabilidade financeira num contexto de maior pressão económica.