“É como ver Netflix”: em Ponte de Sor, a Tekever produz drones de vigilância que estão a conquistar o mundo

Em Ponte de Sor, durante a passagem do Conta Lá com o seu especial de informação pela EN2, a empresa portuguesa Tekever destacou a diferença face a outros fabricantes de drones, explicando que o foco na vigilância contínua e no envio de imagens em direto está a levar a tecnológica a afirmar-se internacionalmente.
João Nogueira
João Nogueira Jornalista
19 mai. 2026, 13:24

Enquanto grande parte da indústria dos drones aposta na velocidade e no armamento, a portuguesa Tekever diz que o segredo está precisamente no contrário: voar devagar, observar melhor e transformar informação em tempo real numa ferramenta de vigilância. A partilha foi feita por João Maurício, gestor industrial da empresa, durante o especial de informação do “Conta Lá” pela Nacional 2 que está em Ponte de Sor esta terça-feira. Foi a partir de lá que o responsável mostrou como uma tecnológica portuguesa se tornou num dos nomes mais relevantes do setor da defesa e da inteligência artificial.

“Costumamos dizer que isto é um computador com asas”, resumiu João Maurício, ao explicar que o drone é apenas a parte visível de uma tecnologia muito mais complexa: "O que fazemos é vigilância. O drone é o veículo que nos permite estar no ar”.

Com mais de 1300 trabalhadores e já avaliada em mais de mil milhões de euros, a Tekever tornou-se um dos maiores nomes portugueses no setor da defesa e dos sistemas autónomos orientados por inteligência artificial. A empresa ganhou ainda mais notoriedade nos últimos anos pelo fornecimento de drones de vigilância à Ucrânia e pela expansão internacional, com novos centros no Reino Unido e nos Estados Unidos.

Mas João Maurício fez questão de sublinhar que a lógica da empresa é diferente daquela que normalmente é associada aos drones militares: “Enquanto muita gente tenta fazer drones para voar o mais rápido possível, nós trabalhamos ao contrário: queremos voar o mais devagar possível”, explicou.

A razão está no tipo de operações que a empresa desenvolve, sobretudo na vigilância marítima: “Se estivermos a seguir um barco a 20 ou 30 quilómetros por hora, é muito mais fácil acompanhá-lo se estivermos a voar a 60 ou 70”.

Segundo o gestor industrial, o verdadeiro produto da Tekever não é o drone em si, mas a capacidade de fornecer informação em tempo real às autoridades e entidades que utilizam os sistemas. “O cliente está a ver as imagens em direto, consegue identificar embarcações, perceber movimentos suspeitos e até acionar serviços de emergência se for necessário”, explicou o gestor industrial.

João Maurício deu como exemplo situações de controlo de pesca ilegal, vigilância marítima ou operações de busca e salvamento de migrantes: “Conseguimos aproximar-nos, identificar barcos, perceber quantas pessoas estão a bordo e dar informação imediata às autoridades.”

Apesar de trabalhar com forças armadas e entidades de defesa de vários países, a Tekever garante que os seus drones não são concebidos para ataque militar. “Os nossos drones não têm qualquer tipo de armamento”, assegurou. “Sabemos que quando uma força militar compra um sistema destes lhe vai dar uma utilização tática, mas o nosso foco é a vigilância, continuou o responsável.

Questionado sobre as diferenças para drones militares mais conhecidos, como o MQ-9 Reaper norte-americano, João Maurício explicou que a lógica da Tekever é completamente distinta: “Para vigilância, o que se quer é um sistema que voe devagar, tenha autonomia, comunicações estáveis e consiga transmitir vídeo em tempo real, quase como se estivesse a ver Netflix”, afirmou João Maurício.

A aposta da empresa portuguesa passa precisamente por essa combinação entre inteligência artificial, sensores avançados e comunicação em tempo real. Um modelo que lhe tem permitido crescer rapidamente e reforçar presença em mercados estratégicos como os Estados Unidos e o Reino Unido.

Recentemente, a Tekever foi também selecionada pelo Ministério da Defesa britânico para participar no desenvolvimento de drones autónomos capazes de operar ao lado dos helicópteros Apache do Exército britânico, num projeto de nova geração ligado à guerra eletrónica e reconhecimento militar.

Ao mesmo tempo, a empresa anunciou o programa “Overmatch”, que pretende acelerar o desenvolvimento europeu de tecnologias autónomas e reforçar a capacidade industrial de defesa da Europa.

Mesmo com o crescimento acelerado e a crescente exposição internacional, João Maurício mantém a mesma definição simples para aquilo que a empresa faz: “O drone é apenas o meio. O objetivo é dar informação a quem está no terreno.”