“Estes diques não estão preparados para os caudais atuais”

O colapso do dique no rio Mondego mostra que os parâmetros com que estas estruturas foram construídas estão ultrapassados. Só obras de fundo, garante o especialista António Viana da Fonseca, em conversa com o Conta Lá, podem evitar que novas roturas aconteçam. 
Pedro Reis
Pedro Reis Jornalista
12 fev. 2026, 14:30

Em entrevista ao Conta Lá, o professor António Viana da Fonseca, da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, explica que “estas estruturas de que estamos a falar foram implementadas nas décadas de 70 e 80, altura em que os caudais de cheia foram estimados com base nas maiores inundações de que havia registo.

O máximo caudal de cheias que tinha sido estimado há quarenta anos era de dois mil metros cúbicos por segundo, acontece que esse valor está ultrapassado”. Em síntese: “Estes diques não estão preparados para os caudais atuais”.

De acordo com António Viana da Fonseca, os diques servem duas funções. Por um lado, aumentar a altura do caudal de cheia e por outro ajudar a escoar as águas em excesso para o oceano.  Para isso são construídos dois morros “compactados de terra que elevam as margens do rio”, um junto ao rio e outro mais para o interior da margem. Pelo meio é instalado um canal em betão armado que serve para escoar as águas em situações em que o caudal ultrapassa as margens. 

Por este motivo, avança o professor, “era de alguma forma “pensável” que esta situação acontecesse. Os terrenos estão saturados, as barragens estão cheias e se a chuva continuar não há meio de conter as águas, pelo que é expectável que situações do género voltem a acontecer.

"Muito dinheiro e muita mão de obra”

E o problema não é só o caudal, é a rapidez com que as águas dos afluentes do Mondego estão a chegar ao estuário, o que acaba por minar as fundações destes diques. 

“Vamos ter de alterar a cota destes diques para alturas muito maiores”, diz o catedrático de engenharia.  Até porque “estamos com caudais inauditos". E acrescenta: "Temos de fazer obras no sentido de aumentar a altura dos diques e equacionar mesmo a possibilidade de criar diques paralelos aos que já existem".

Trata-se de uma mudança estrutural necessária para evitar novos problemas no futuro e que implica, segundo o professor, "uma empreitada gigantesca que vai demorar muito tempo, muito dinheiro e muita mão de obra”.