“Foram transferidas responsabilidades, mas não os meios”: educação em debate entre autarquia e universidade em Aveiro

O papel das autarquias, a ligação ao ensino superior e as dificuldades de financiamento marcaram o debate sobre educação durante a Maratona da Europa, que juntou Eugénia Pinheiro e Sandra Soares numa conversa conduzida pela jornalista Estela Machado.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
25 abr. 2026, 12:31

A educação esteve em debate durante o primeiro dia da Maratona da Europa, numa conversa conduzida pela jornalista Estela Machado que juntou Eugénia Pinheiro, vice-presidente da Câmara Municipal de Ílhavo, e Sandra Soares, vice-reitora da Universidade de Aveiro. 

Num território onde a ligação entre escola, comunidade e mercado de trabalho é cada vez mais determinante, a discussão centrou-se num desafio comum: como garantir que a educação não só forma, mas também fixa pessoas e responde às necessidades reais da região.

Entre competências transferidas para os municípios, exigências crescentes e a necessidade de respostas mais rápidas por parte das instituições de ensino, o debate evidenciou um sistema em adaptação. A articulação entre autarquias e universidade surge como peça-chave, mas também expõe limites, sobretudo ao nível dos recursos disponíveis e da capacidade de execução.

Educação como base de igualdade e responsabilidade local

O diálogo de Eugénia Pinheiro centrou-se na educação como instrumento de igualdade de oportunidades e de desenvolvimento social, defendendo que o papel das autarquias passa por garantir condições para que todos os alunos possam “abrir horizontes e crescer”, sem depender do contexto de origem.  

Esta intervenção traduz-se em medidas concretas que vão além da sala de aula. A criação de condições físicas e logísticas, o acesso a recursos culturais e a aposta em atividades como natação, música ou projetos educativos complementares fazem parte de uma estratégia que procura reduzir desigualdades desde os primeiros anos de escolaridade.  

Neste contexto, a parceria com a Universidade de Aveiro ganha relevância, nomeadamente através de iniciativas como as residências artísticas STEAM, pensadas para desenvolver competências e estimular o pensamento crítico desde cedo, numa lógica de preparação para um percurso educativo mais exigente.  

Mais responsabilidades do que recursos

O reforço do papel dos municípios contrasta com a limitação dos meios disponíveis. Eugénia Pinheiro apontou diretamente à forma como foi feita a transferência de competências, sublinhando que “foram transferidas responsabilidades, mas não foi transferida a verba e o significado que seriam necessários”.  

A falta de financiamento obriga a decisões políticas internas e condiciona a capacidade de intervenção. “Não temos um orçamento que permita executar aquilo que entendemos como prioritário”, referiu, explicando que muitas das respostas no terreno dependem exclusivamente do investimento municipal.  

Esse desfasamento torna-se visível em áreas concretas, como o número de assistentes operacionais nas escolas, considerado insuficiente, ou no financiamento de serviços essenciais, como refeições e apoio social. Nestes casos, os municípios assumem encargos adicionais para garantir respostas mínimas, evidenciando um modelo em que as necessidades locais nem sempre encontram correspondência nos recursos disponíveis.  

Universidade e território: uma relação de interdependência

Do lado da Universidade de Aveiro, a ligação ao território surge como parte integrante da sua identidade. Sandra Soares destacou essa relação ao afirmar que “não crescemos sozinhos, crescemos com as autarquias”, sublinhando uma lógica de colaboração contínua entre instituições.  

Essa articulação começa cada vez mais cedo, envolvendo crianças e jovens em experiências educativas que ultrapassam a sala de aula. A Fábrica da Ciência é um exemplo dessa aproximação, ao levar a universidade às escolas e ao integrar os alunos em atividades práticas desde fases iniciais do percurso.  

Mais do que transmitir conhecimento, esta ligação permite alinhar o percurso educativo com o território, criando condições para uma formação mais ajustada às necessidades reais e para uma maior proximidade entre ensino e comunidade.

Formação mais rápida para responder ao mercado

A adaptação às exigências do mercado de trabalho foi outro dos pontos centrais do debate. Sandra Soares sublinhou que a universidade tem vindo a ajustar a sua oferta formativa e a investigação às necessidades da região, procurando reduzir o desfasamento entre formação e realidade profissional.  

Nesse contexto, destacou o papel das microcredenciais como resposta mais flexível. “Não podemos esperar quatro ou cinco anos para criar um novo ciclo de estudos e formar pessoas”, afirmou, defendendo soluções de curta duração que permitam atualizar competências de forma contínua.  

O exemplo da formação em Medicina ilustra essa lógica de proximidade ao território, com um modelo baseado na prática e na articulação com unidades de saúde da região, permitindo uma formação mais alinhada com necessidades concretas e com impacto direto na capacidade de resposta.

Fixar talento: entre formação e oportunidade

A ligação entre educação e território ganha expressão na capacidade de fixar jovens qualificados. Sandra Soares descreveu essa relação como “simbiótica”, sublinhando a importância de garantir uma experiência formativa que incentive a permanência na região.  

Essa fixação depende não apenas da qualidade do ensino, mas da existência de oportunidades profissionais e de uma articulação eficaz entre instituições e tecido económico. A construção de percursos alinhados com a realidade local torna-se, assim, determinante para evitar a saída de talento e reforçar o desenvolvimento regional.

Ao mesmo tempo, a aposta na aprendizagem ao longo da vida alarga esta lógica a toda a comunidade, envolvendo trabalhadores, empresas e instituições numa dinâmica contínua de qualificação.  

Educação para além da escola

A educação foi também abordada numa perspetiva mais ampla, que inclui o desenvolvimento físico, social e emocional. Eugénia Pinheiro defendeu a integração do desporto numa lógica de “educação para a saúde”, alertando para a tendência de o desvalorizar face à pressão académica.  

A autarca apontou ainda mudanças nos comportamentos das crianças, nomeadamente a perda de competências motoras e o aumento da dependência de ecrãs, sublinhando a necessidade de promover atividades que contribuam para um desenvolvimento mais equilibrado.  

Sandra Soares reforçou essa perspetiva, destacando que o ensino superior tem vindo a valorizar o bem-estar e o equilíbrio, quer através da adaptação de regras para estudantes atletas, quer pela criação de condições para a prática desportiva.

Entre financiamento insuficiente, necessidade de respostas mais rápidas e a exigência de maior articulação entre instituições, o debate deixou claro que a educação já não se esgota no sistema de ensino. A forma como é pensada, desde a escola básica até à universidade, está diretamente ligada à capacidade de um território reter população, responder às suas necessidades e projetar o seu futuro.