“Há dezenas de hectares com árvores caídas que são combustível”

No debate do programa “Estrada Nacional 2”, Jaime Marta Soares, antigo presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses alertou para o risco agravado de incêndios este verão e defendeu uma estratégia centrada na prevenção, no ordenamento florestal e na gestão do combustível acumulado nas matas.
Sofia Dias Olmedo
Sofia Dias Olmedo Jornalista
07 mai. 2026, 17:35

No debate realizado esta quinta-feira em Vila Nova de Poiares, no âmbito do programa “Estrada Nacional 2” do Conta Lá, Jaime Marta Soares, ex-presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses e antigo autarca de Vila Nova de Poiares durante 39 anos, deixou um conjunto de reflexões sobre os incêndios florestais em Portugal, defendendo uma aposta clara na prevenção, no ordenamento da floresta e na gestão do combustível acumulado nos terrenos.

Perante o cenário deixado pelo recente conjunto de tempestades, que provocou a queda de milhares de árvores e aumentou a quantidade de material combustível nos solos, Jaime Marta Soares alertou para a gravidade do problema, sobretudo na região Centro. “Há dezenas ou até centenas de hectares com árvores caídas que são o combustível mais forte para permitir a progressão dos incêndios”, afirmou.

Para o antigo dirigente da Liga dos Bombeiros Portugueses, o problema dos fogos florestais “arrasta-se há dezenas de anos em Portugal” e continua sem uma solução estrutural. Criticou ainda a falta de conhecimento técnico de muitos intervenientes no debate público sobre a floresta. “Há muita gente a falar que não sabe distinguir um chaparro de um eucalipto e isso é um problema”, disse.

Jaime Marta Soares defendeu que o “essencial para a floresta portuguesa é o planeamento e o ordenamento”, lamentando que conceitos como o mosaico florestal sejam frequentemente utilizados sem verdadeira compreensão. “Toda a gente fala do mosaico florestal, mas ninguém sabe o que isso é”, apontou.

Demagogia pura

Entre as medidas defendidas, destacou a necessidade de reforçar as queimadas e fogos controlados como forma de prevenção. Recordou que, durante muitos anos, vários incêndios tinham origem em queimadas feitas por pastores para renovação de pastagens, considerando que uma estratégia organizada de fogo controlado poderia evitar tragédias de maior dimensão. “Deviam ser feitos fogos controlados para que não houvesse necessidade de haver este tipo de situações em que se queimavam hectares e hectares de floresta”, afirmou.

Sobre um possível envolvimento das Forças Armadas na limpeza de terrenos, Jaime Marta Soares mostrou reservas quanto à eficácia da medida. “A função das forças armadas não é limpar terrenos. É demagogia pura”, declarou, embora reconheça que o Exército dispõe de equipamentos e pode dar um contributo complementar. “O Exército pode fazer uma parte, mas não estão vocacionados. Mas fazem e tem-se de aproveitar o pouco que possam dar”, acrescentou.

O ex-presidente da Liga dos Bombeiros defendeu, ainda, uma estratégia baseada na identificação das zonas de maior risco, tendo em conta fatores como a intensidade previsível da propagação do fogo e a velocidade do vento. “Tem que se definir o local onde o incêndio se pode propagar com maior intensidade e tentar fazer um mosaico através de uma limpeza”, explicou.

Face às previsões de temperaturas elevadas para este verão, Jaime Marta Soares deixou um apelo à prevenção e à valorização da floresta portuguesa. “Somos um país de influência mediterrânica que se habituou a viver com os incêndios, mas é preciso prevenir antes que aconteçam”, afirmou, sublinhando que “é preciso amar a floresta” porque “a floresta é um produto que cria riqueza”.