“Já estivemos muito melhor”: Aveiro debate mobilidade entre carro e bicicleta

A mobilidade em Aveiro esteve em debate durante a Maratona da Europa, numa conversa conduzida pela jornalista Estela Machado que reuniu o vereador dos transportes Pedro Almeida e Joana Ivónia, da associação Ciclaveiro, para discutir o novo eixo Aveiro-Águeda, a construção de uma cidade mais ciclável e os desafios da mobilidade à escala do concelho e da região.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
25 abr. 2026, 11:28

A mobilidade esteve em debate durante o primeiro dia da Maratona da Europa, a decorrer em Aveiro, numa conversa conduzida pela jornalista Estela Machado que procurou olhar para a cidade para além do evento desportivo. Num concelho em transformação, a forma como as pessoas se deslocam tornou-se um tema estruturante, cruzando desenvolvimento económico, planeamento urbano e qualidade de vida.

Para discutir estas questões, participaram Pedro Almeida, vereador dos transportes da Câmara Municipal de Aveiro, e Joana Ivónia, da associação Ciclaveiro. O debate centrou-se no novo eixo Aveiro-Águeda, no processo de expropriações associado, na construção de uma cidade mais ciclável e na necessidade de pensar a mobilidade à escala da Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro.

Um eixo para aproximar territórios e acelerar a região

O novo eixo Aveiro-Águeda surge como uma das principais apostas na reorganização da mobilidade regional. A ligação, há muito ambicionada, pretende reduzir significativamente o tempo de viagem entre os dois concelhos – de cerca de 30 para 12 minutos – aproximando dois polos industriais e criando novas condições para a circulação de pessoas e mercadorias.

Pedro Almeida começou por sublinhar que a nova ligação permitirá “reduzir o tempo de viagem entre Aveiro e Águeda para cerca de 12 minutos”, destacando o impacto direto na competitividade económica da região e na articulação entre território, indústria e logística.  

O autarca enquadrou ainda o projeto numa lógica mais ampla de mobilidade e desenvolvimento, sublinhando o papel de Aveiro enquanto território que articula porto, indústria e acessos rodoviários, o que reforça a importância desta ligação para a circulação de mercadorias e para o posicionamento da região.

O processo de expropriações, já iniciado, é uma das fases mais sensíveis do projeto, mas, segundo o autarca, tem decorrido dentro da normalidade, com um número reduzido de habitações envolvidas face ao total de parcelas abrangidas.  

Uma cidade com condições para mudar, mas ainda presa ao carro

Se a nova infraestrutura responde a necessidades económicas, o debate evidenciou uma questão mais profunda: o modelo de mobilidade que está a ser seguido numa cidade com características que poderiam favorecer alternativas ao automóvel.

Joana Ivónia considerou que Aveiro tem vindo a perder equilíbrio na forma como organiza o espaço urbano. “Já estivemos muito melhor (…) antes desta dependência contínua do automóvel”, afirmou, apontando para uma realidade em que o carro continua a dominar mesmo em percursos curtos.  

Numa cidade plana e de dimensão relativamente reduzida, a bicicleta poderia assumir um papel mais relevante nas deslocações diárias. Para a associação, essa mudança exige mais do que intenção. “Quando há boa infraestrutura, o aumento de utilizadores acontece naturalmente”, referiu, defendendo a criação de ligações eficazes para além do centro urbano e uma redução da pressão automóvel nas zonas mais centrais.  

Entre ambição e execução: o ritmo das políticas públicas

Do lado da autarquia, a resposta reconhece o potencial da mobilidade sustentável, mas aponta para um processo ainda em desenvolvimento. Pedro Almeida admitiu que o alargamento das infraestruturas cicláveis depende de estudos em curso, que irão definir prioridades e investimento.  

Este desfasamento entre a implementação de grandes infraestruturas rodoviárias, já em fase de execução, e o desenvolvimento de soluções para mobilidade suave, ainda dependentes de planeamento, evidencia ritmos distintos na forma como a mobilidade está a ser construída.

Ao mesmo tempo, destacou as características da cidade como uma base favorável à mudança, sublinhando que se trata de um território onde é possível realizar grande parte das deslocações a pé ou de bicicleta, ainda que essa realidade não esteja plenamente acessível a quem vive fora do núcleo central.  

A mobilidade surge, assim, como um campo onde coexistem diferentes ritmos: por um lado, projetos estruturantes com impacto regional; por outro, mudanças mais próximas do quotidiano que dependem de planeamento, investimento e transformação de hábitos.

Uma mobilidade que não termina nos limites do concelho

O debate trouxe também para o centro a necessidade de pensar a mobilidade numa escala mais alargada, que ultrapasse fronteiras administrativas. Numa região onde as deslocações diárias ligam municípios vizinhos, a organização do território exige articulação e continuidade.

Joana Ivónia apontou limitações concretas, destacando que “o sistema BUGA (Bicicleta de Utilização Gratuita de Aveiro) não permite que uma pessoa se desloque de bicicleta até à praia” em zonas como a Costa Nova ou a Barra, o que dificulta percursos frequentes e revela falhas na integração da rede.  

A representante da Ciclaveiro reforçou essa ideia ao sublinhar que “não conseguimos pensar num município como uma caixa, porque as pessoas deslocam-se”, defendendo uma abordagem integrada que reflita as rotinas reais da população.  

Pedro Almeida reconheceu essa necessidade e referiu que existe um entendimento entre os municípios da Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro para desenvolver soluções mais articuladas. Neste contexto, o autarca destacou também o posicionamento de Aveiro como um futuro “hub” de mobilidade, integrando modos rodoviário, ferroviário e marítimo, numa estratégia que procura ligar o território à escala nacional e europeia.

Infraestrutura, hábitos e pressões do território

Além das obras e dos projetos, o debate evidenciou que a mobilidade depende também de hábitos e condições sociais. A utilização da bicicleta tem vindo a crescer, nomeadamente entre crianças e famílias, resultado de iniciativas de sensibilização e de uma maior consciência sobre alternativas de deslocação.

Joana Ivónia destacou que “já há muito mais bicicletas na rua, sobretudo crianças a andar com os pais”, sinalizando uma mudança gradual na forma como o espaço urbano é vivido.  

Ao mesmo tempo, fatores como a crise habitacional e o aumento dos custos energéticos condicionam as escolhas de mobilidade. “As pessoas residem fora do centro e precisam de se deslocar”, referiu, apontando para uma realidade em que a distância entre habitação e trabalho reforça a necessidade de soluções mais acessíveis e eficientes.  

Entre investimentos estruturantes, aposta em modos suaves e necessidade de articulação regional, Aveiro enfrenta um desafio que não se resolve apenas com novas infraestruturas. Está em causa a forma como o território se organiza e responde às necessidades de quem o habita, num equilíbrio exigente entre crescimento económico, acessibilidade e qualidade de vida.