“Não há uma medida que melhore a vida do trabalhador”. Pacote laboral contestado na Covilhã
“Não há uma medida, e são mais de cem, que melhore a vida do trabalhador, seja público ou privado”, afirmou hoje, durante a concentração na Praça do Município da Covilhã, Sérgio Santos, o coordenador da União dos Sindicatos de Castelo Branco, sobre a proposta de revisão do pacote laboral que o Governo quer aprovar.
Segundo o dirigente sindical, no distrito a adesão à greve geral, a segunda, desde que a nova legislação laboral está a ser negociada, é de cerca de 70%. No setor público a saúde, as finanças e as escolas são as áreas em que a paralisação está a ter maior impacto, enquanto no privado há uma adesão elevada nas Minas da Panasqueira, no setor têxtil e na indústria metalúrgica, indicou.
“Neste pacote não encontramos uma medida que seja justa, que não tenha precariedade e que vá realmente aumentar o salário dos trabalhadores, vá realmente dar uma vida melhor aos trabalhadores. Muito pelo contrário, vai haver um retrocesso enorme”, enfatizou Sérgio Santos, na concentração no centro da cidade, que juntou profissionais de várias áreas.
O coordenador da União dos Sindicatos de Castelo Branco salientou, ao Conta Lá, que a posição do Governo tem sido de “uma completa insensibilidade em relação aos trabalhadores”.
O sindicalista frisou que os números que apresentou “são reais” e que se observa no terreno é que, “contrariamente àquilo que a ministra do Trabalho disse à hora de almoço, que o privado não está a fazer greve, e que os trabalhadores portugueses estão nos locais de trabalho, é mentira”.

A presidente do Sindicato Têxtil, Marisa Tavares, lamentou a posição do Governo, de “não dialogar”, criticou que a proposta tenha sido levada à Assembleia da República e apelou aos deputados para que “se ponham no lugar dos trabalhadores” e, “obviamente, não deixem passar” o pacote laboral.
“Este Governo está a servir os interesses do patronato, porque não é compreensível que, passados tantos meses, se mantenha a mesma posição, que contraria os interesses dos trabalhadores”, vincou Marisa Tavares, na mesma concentração.
Segundo a presidente do Sindicato Têxtil os direitos relativos à parentalidade e o banco de horas, entre muitos outros aspetos, são mudanças que preocupam e sublinha que a prova é a quantidade de gente que aderiu à greve geral, que "não é uma coisa banal".
Com uma mão numa tarja, Sílvia Ribeiro é funcionária numa lavandaria hospitalar e justificou a presença na concentração pela necessidade de não deixar piorar as condições de trabalho para quem já tem vencimentos baixos e entende que vai ser ainda mais penalizada.
“Fazer greve prejudica, é menos um dia de trabalho que se ganha no final do mês. Faz falta, mas, neste caso, era necessário”, realça.
O banco de horas é, entre muitas outras, uma medida que prejudica os trabalhadores, por lhes retirar o pagamento de horas extra.
“O Governo está a pensar só na entidade patronal e não propriamente nos trabalhadores. Isso não é correto”, sentencia.

Lurdes Antunes, assistente operacional numa escola, pede aos deputados que, na votação da proposta, “pensem nos cidadãos comuns, em quem os elegeu, em quem trabalha, e rejeitem este ataque brutal”.
No seu caso, prejudica-a “um horário que se prolongue mais tempo sem ser remunerado” e, trabalhando numa escola, as alterações ao acompanhamento aos filhos menores.
“O problema não está no banco de horas, está nas leias do banco de horas”, sintetiza o coordenador da União dos Sindicatos de Castelo Branco. O dirigente menciona também a facilitação dos despedimentos, o recurso ao ‘outsourcing’ depois de um despedimento coletivo e muitas outras medidas que “não têm em conta as necessidades nem em criar melhores condições de vida”.
A gritar palavras de ordem contra “o pacote do Luís”, Fabiano Faria, finalista na Universidade da Beira Interior, manifestou-se preocupado com a precarização que se vai acentuar caso a proposta da nova legislação laboral seja aprovada.
“A questão dos vínculos de trabalho precário talvez sejam a grande questão para os jovens”, disse ao Conta Lá o estudante de Cinema, antecipa como mais difícil a entrada no mercado de trabalho, assim como a constituição de família ser “impraticável” com as propostas sobre parentalidade.
“Aquilo que se propõe é um retrocesso histórico”, adjetiva Fabiano Faria, que espera que o Governo sinta o pulsar da população e recue.
A greve geral convocada pela Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP-IN) contesta o conjunto de mais de cem alterações previstas na reforma à legislação laboral.
Para a estrutura sindical, que foi afastada das negociações, as medidas propostas facilitam despedimentos, enfraquecem direitos sindicais e de parentalidade, agravam a precariedade e são sinónimo de um retrocesso.
O Governo considera as medidas necessárias para modernizar o mercado de trabalho e aumentar a competitividade das empresas.