“Receber bem é uma porta de riqueza” em Vila Nova de Poiares

A emissão da Estrada Nacional 2 chegou ao quilómetro 248, no município de Vila Nova de Poiares, esta quinta-feira. A manutenção de tradições gastronómicas e a autenticidade da serra estiveram em debate. 
Sofia Dias Olmedo
Sofia Dias Olmedo Jornalista
07 mai. 2026, 14:13

No quilómetro 248 da Estrada Nacional 2, Vila Nova de Poiares afirmou-se como um território onde a tradição, a integração comunitária e o turismo de experiência se cruzam para construir identidade e futuro. 

A gastronomia ocupou um lugar central na conversa, com a chanfana a surgir como símbolo maior do concelho. O presidente da Câmara Municipal, Nuno Neves, destacou o trabalho desenvolvido em torno da valorização gastronómica, apontando iniciativas como a Semana da Chanfana, a Semana do Cabrito e do Folar como exemplos de uma estratégia contínua de promoção do território.

“A chanfana é sempre uma aposta ganha e é um dos nossos pilares na gastronomia”, afirmou, lembrando que o prato tradicional continua a reinventar-se sem perder autenticidade. Entre as novas abordagens, destacou os “bombons de chanfana”, uma combinação improvável de chanfana, chocolate e sal que, segundo o autarca, “primeiro estranha-se e depois entranha-se”.

Mais do que um prato típico, a chanfana foi apresentada como património cultural e económico. Sónia Duarte, vice-mordomo da Confraria da Chanfana, insistiu na importância de preservar a receita original e os métodos tradicionais de confeção. 

“A chanfana continua a ser feita com o tempo e o rigor que lhe deu fama”, explicou, sublinhando que o prato deve ser preparado em forno a lenha, em caçoilos de barro preto e utilizando carne de cabra velha.

Rebanhos

Também o artesanato associado à gastronomia foi valorizado durante o debate. Nuno Neves recordou que “o caçoilo de barro preto faz toda a diferença na confeção da chanfana”, acrescentando que o município tem procurado apoiar os oleiros locais e garantir a certificação das peças produzidas no concelho.

A ligação entre gastronomia e sustentabilidade surgiu igualmente nas palavras de Gabriel Matos, técnico superior de Cultura da Câmara Municipal, que lembrou o papel histórico dos rebanhos na prevenção dos incêndios. “As cabras previnem os incêndios”, afirmou, alertando para as dificuldades enfrentadas pelos produtores locais e para o desaparecimento gradual desta atividade tradicional.

Madalena Carrito, da Associação de Desenvolvimento Integrado de Poiares, reforçou essa preocupação, defendendo a necessidade de apoios estatais para proteger a criação da cabra serrana e evitar a importação de carne. “Para termos uma boa chanfana, temos de ter uma cabra serrana, porque tudo depende da alimentação do animal”, explicou.

Mas o debate não viveu apenas da gastronomia. O concelho foi também apresentado como um território cada vez mais procurado por estrangeiros que encontram em Poiares qualidade de vida, autenticidade e integração comunitária.

Elian Mata, co-proprietário da Quinta do Chafariz, contou que chegou ao concelho em lua de mel e acabou por decidir ficar. “É um lugar turístico, mas não demasiado. É um lugar autêntico, ao nível da gastronomia, tradições e cultura”, afirmou.

Hoje plenamente integrado na comunidade local, destacou a importância da participação ativa na vida da aldeia. “É essencial querer fazer parte da comunidade e não esperar que isso surja”, referiu. O projeto cultural que desenvolve na Quinta do Chafariz, com atividades musicais e noites culturais durante o verão, procura precisamente criar dinamismo e atrair pessoas às aldeias do concelho.

Aprender português

Nuno Neves reconheceu também essa crescente procura internacional pelo território, salientando que muitas famílias estrangeiras têm escolhido Poiares para viver. “Receber bem é uma porta de riqueza”, afirmou, acrescentando que o município promove inclusivamente apoio à aprendizagem da língua portuguesa para facilitar a integração.

A ligação à natureza e às atividades ao ar livre foi outro dos temas fortes da conversa. O autarca destacou os percursos de BTT e trail existentes no concelho, promovidos muitas vezes em associação com a gastronomia local, incluindo a já popular sande de chanfana.

Também Soraia Almeida, fundadora do projeto Planeta Aquarela, trouxe ao debate uma dimensão ligada à educação ambiental e ao contacto com o mundo rural. Criado após a pandemia, o projeto procura aproximar crianças e famílias da natureza e das tradições locais.

“As crianças têm muito pouco tempo para brincar e passam demasiado tempo coladas a ecrãs”, alertou. O objetivo passa por ensinar práticas sustentáveis, promover o contacto com animais e plantas e recuperar memórias das aldeias através da partilha entre gerações.

“Muitas atividades são recriações das nossas tradições e possibilitam o contacto com os mais velhos da aldeia”, explicou, sublinhando também o impacto social do projeto: “As pessoas voltaram a ver crianças nas aldeias.”

A cultura popular e o associativismo surgiram igualmente como marcas fortes da identidade local. Gabriel Matos destacou a vitalidade das festas das aldeias, das filarmónicas e dos ranchos folclóricos, referindo que, em muitos fins de semana, o concelho acolhe vários eventos em simultâneo. “Há um dinamismo muito grande e uma grande envolvência na cultura aqui”, afirmou.

Ao longo do debate, ficou evidente que Vila Nova de Poiares procura afirmar-se na EN2 não apenas como ponto de passagem, mas como território de experiências, autenticidade e comunidade.